Corridas da morte: as histórias dos motoristas de aplicativos que morreram enquanto trabalhavam

Dentre os casos elencados pela reportagem há latrocínios, vítimas que dobraram na rua errada ou ainda quem estava na companhia de um passageiro 'jurado de morte'

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Legenda: 38 motoristas de aplicativos particulares foram assassinados no Ceará
Foto: Unidade de Arte/SVM

13 de dezembro de 2020. Um domingo. O dia da semana é, para muitos motoristas de aplicativos particulares, o mais rentável. Abrem mão de estarem junto à família para tentar "pegar corridas" com tarifas dinâmicas, até mesmo em determinadas áreas onde muitos outros não querem ir. Foi isso que Luan Moura da Silva fez naquela data. Horas depois, estava morto. Em junho de 2021, o suspeito pelo crime preso.

E, agora, neste mês de outubro, a denúncia acerca deste homicídio ofertada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) foi acolhida pelo Poder Judiciário. Mas é preciso voltar um pouco na história para entender, ou não, como Luan entrou para a estatística sendo um dos 38 profissionais da categoria assassinados enquanto trabalhava, no Estado.

Luan era apaixonado por carros e gostava de pegar corridas para o Cumbuco e outras praias próximas aos fins de semana, porque era melhor financeiramente, contam os familiares, hoje em luto. Já vinha trabalhando há algumas horas até que embarcasse em seu carro o passageiro Bruno de Almeida Gomes, na companhia da namorada. Consta nos autos que desde 2019 Bruno estava jurado de morte e naquele 13 de dezembro de 2020, minutos antes, ele foi localizado pelos desafetos.

Bruno vinha de uma barraca de praia na Região Metropolitana de Fortaleza e lá encontrou Felipe Benevides de Oliveira. Testemunhas falam que quando Bruno percebeu a presença de Felipe, ele pediu a um amigo que pedisse um carro para que fosse embora dali rapidamente. O veículo chegou, Bruno foi embora, mas não ficou desacompanhado. Uma moto passou a segui-los, aproximou-se minutos depois e os disparos de arma de fogo aconteceram.

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Legenda: Consta nos autos que o suspeito efetuou uma sequência de disparos de arma de fogo sem descer da moto

Thiago da Silva Sousa, lembra com saudades do primo. Segundo o familiar, Luan era motorista de aplicativo particular para complementar a renda e ajudar a mãe financeiramente. "Foi um choque para todo mundo quando aconteceu", conta em entrevista à reportagem.

O autor dos disparos fugiu sem prestar socorro, mas a investigação da Polícia Civil apontou que quem pilotava a moto e perseguiu as vítimas foi Felipe. De acordo com a denúncia ofertada pela 1ª Promotoria de Justiça de Caucaia no último dia 6, Benevides é acusado de dois homicídios e uma tentativa cruel de assassinato. Ele quem disparou contra as três pessoas que estavam dentro do carro, desarmadas, sem possibilidade de defesa. A mulher foi atingida cinco vezes, mas sobreviveu.

O motorista foi alvejado seis vezes, não resistiu aos ferimentos e foi a óbito ainda no local do crime. Estava ele no local errado e na hora errada? A reposta varia conforme crença pessoal. O que se sabe ao certo é que Luan Moura da Silva foi mais uma vítima da violência que assombra a população, como outros mortos porque dobraram na esquina errada, negaram-se a entregar o apurado do dia e deixaram família e amigos até hoje sem saber os motivos para tanta crueldade.

OCORRÊNCIAS REGISTRADAS

Conforme a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), de janeiro a agosto de 2021, foram registrados cinco Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLI) contra motoristas de transporte por aplicativo no Ceará. Em 2020 foram 16 ocorrências.

A Associação dos Motoristas de Aplicativos do Ceará (Amap-CE) contabiliza 2020 como o mais trágico para a categoria. Ainda no ano passado também morreram Jares Rodrigues, de 52 anos; Francisco Renan Oliveira Aguiar, 26; e Marcelo dos Santos Brito, 37. Jares foi executado no bairro Cajazeiras e os suspeitos presos pela Polícia Civil meses após o fato.

A investigação apontou que um trio rendeu o motorista, mandou a vítima sair do carro e abrir o bagageiro para que fosse mantido no compartimento. Durante a ação criminosa, o motorista tentou fugir e foi alvejado por um dos suspeitos que estava armado. O primeiro detido e identificado foi Francisco Renan Bandeira Alves. Em seguida, as autoridades descobriram as participações de Alessandro Assunção de Sousa e Jefferson Almeida.

Todos eles foram denunciados pelo MPCE por latrocínio e houve a primeira audiência, mas ainda não há data para o julgamento. O trio nega participação no crime.

A Secretaria de Segurança Pública pontua que a redução já percebida neste ano é resultado de medidas adotadas como a realização de operações com o emprego de equipes da Polícia Militar do Ceará (PMCE) que atuam por meio de abordagens a veículos que prestam serviço de transporte por aplicativo e a táxi.

No entanto, mesmo com os números em queda, o motorista e presidente da Amap-CE, Rafael Keylon, aborda uma realidade preocupante: a dos crimes não solucionados com assassinos à solta. Rafael cita como exemplo a morte do motorista Marcelo de Brito, executado no bairro Henrique Jorge, no dia 1º de maio de 2020, em frente às câmeras de videomonitoramento.

As imagens das câmeras mostram que Marcelo é vítima de um latrocínio. Ele não reage ao ser abordado, e mesmo assim os disparos acontecem. Então, o corpo da vítima é jogado para fora do carro. Um criminoso abre a porta, o outro empurra, e a porta se fecha. É quando começam a passar com o carro por cima do cadáver.

Tudo foi filmado e até agora não sabemos se ninguém foi ouvido. Não houve resposta. Marcelo é um dos crimes que aconteceu há mais de um ano e não foi solucionado. Quer saber outro? O do Renan. Morreu na Aerolândia. Entrou no local errado e foi alvejado por facção. Esse tipo de crime, sem passageiro, percebemos que é difícil ser elucidado"
Rafael Keylon
Presidente da Associação

A Polícia Civil informou por nota que ambos os inquéritos das mortes de Marcelo e Rafael foram concluídos e remetidos ao Poder Judiciário. Para cada um dos fatos uma pessoa foi indiciada, mas não há informação se o responsável foi ou permanece preso.

Ainda conforme Rafael, ele percebe que as Forças de Segurança vêm se esforçando e que a queda nos assassinatos é um indicador positivo, mas "a categoria cobra e sente como gargalo muitos homicidas ainda estarem soltos por aí podendo cometer novos crimes".

Por nota, a Secretaria destaca que as ações desenvolvidas são fruto de reuniões realizadas entre a cúpula da Segurança Pública do Estado e representantes da Associação de Motoristas Privados Individuais de Passageiros do Ceará (AMPIP/CE): "A SSPDS destaca ainda que em paralelo a essas ações, ocorre também o trabalho da Polícia Civil do Estado do Ceará (PC-CE), que intensificou as investigações de crimes contra motoristas que prestam esse tipo de serviço".

 

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