Vida cigana: os dilemas de conviver com o preconceito e a invisibilidade

Encarados, muitas vezes, de modo discriminatório por outros grupos identitários, os ciganos experimentam males provocados por visões distorcidas em relação às suas práticas e costumes

No Ceará, onde as comunidades ciganas vivem fixadas, conseguir entrevistar representantes dessa etnia não é tarefa fácil. Na tentativa de conhecer e mostrar como vivem essa população, a reportagem do Diário do Nordeste percorreu diversos municípios. Para conseguir contatos foi preciso muita negociação. Muitas vezes, isso só foi possível graças à intermediação das lideranças e sob algumas condições. O ponto incomum entre as narrativas são as experiências negativas fruto das visões distorcidas historicamente em relação às práticas e costumes dessa etnia. Dilemas de conviver com o preconceito e a invisibilidade.

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Em Acopiara, cidade do Centro-Sul do Estado distante 352 quilômetros de Fortaleza, existe uma numerosa comunidade de ciganos. São cerca de 20 famílias. Eles residem no distrito de São Paulinho. A convivência com os não ciganos (jurons) já existe há quase cinco décadas. Lá vive Francisco Alves dos Santos, conhecido como seu Nemande, 78 anos. Ele nasceu em Limoeiro do Norte e, ainda criança, com apenas 10 anos, radicou-se com a família em Acopiara. 

"Minha mãe nasceu no Egito e veio para o Brasil muito cedo para fugir das perseguições que estamos acostumados a enfrentar. Conheceu meu pai em Limoeiro. Tiveram quatro filhos. Com a morte do meu pai, tive que trabalhar duro para sustentar minhas três irmãs e minha mãe. Aos poucos, elas foram casando. Acompanhei minha mãe até a morte. Foram 25 anos só na agricultura. Depois, passei a negociar animais, pois já estava cansado e não aguentava mais. Casei e tive sete filhos, dois dos quais morreram. Hoje, vivo da aposentadoria".

Seu Nemande passa o tempo conversando com os amigos ou curtindo os quatro netos. "Na verdade, o quinto já nasceu mas ainda não o conheço. Espero que o futuro deles seja melhor. Nós ciganos nunca tivemos  a ajuda e o amparo de ninguém. Nem uma casinha de taipa a gente podia conseguir. Fomos muitos discriminados e perseguidos. A gente era obrigado a esconder a nossa origem. Qualquer coisa que acontecesse no município, diziam logo que "foi obra de cigano".

Tudo que era de coisa ruim que acontecia rebolavam para cima de nós, por mais longe que ocorresse. Só não sofri mais esse tipo de situação porque me instalei aqui em Acopiara e nunca mais saí. É de partir o coração".

Josué Alves, 60 anos, reforça as queixas de seu Nemande. "Sempre foi assim. A gente sofre com o aperreio e o preconceito. Não tenho esperança de que a realidade mude. Quando se trata de cigano, as pessoas reagem com desprezo". O mais velho da comunidade, Manuel Alves, reclama da aposentadoria. "Não dá nem para pagar o aluguel e comprar os remédios que eu preciso. Penei muito. Passei a maior parte da minha vida percorrendo os ranchos em vários locais do Nordeste. Somente me fixei de vez pior aqui há dez anos".

O agricultor Cícero Batista, o Neto, tem 59 anos e garante que não faz sentido a forma preconceituosa como os ciganos são tratados. "Convivo com ele desde os nove anos. Era criança e brincávamos de bola juntos. Posso garantir que  nunca trouxeram qualquer tipo de problema para cá. Aqui convivemos pacificamente. Era importante que as pessoas tivessem essa oportunidade para saber que eles são pessoas comuns".

"Completei 65 anos. Minha mãe me teve dentro do mato. Nunca fui batizada nem possuí nenhum tipo de documento até hoje", relata a Creuza Pereira. A mulher é um exemplo bem concreto da invisibilidade cigana. Sem documentação, não consegue sequer dar entrada no pedido de aposentadoria. "Só temos Deus por nós. Quero saber se é muito ter um local para morar e algo para comer todos os dias", questiona.

Dificuldades

Dona Creuza denuncia a dificuldade para conseguir objetivos bem elementares. "A vida nômade não acabou para nós. Mudou apenas a forma. Antigamente, viajávamos de um lugar para outro em busca de fazer negócio e de conhecer o mundo; hoje, passo dois meses nessa casa. Quando o dono descobre que sou cigana, pede para eu desocupar o imóvel". 

O filho de dona Creuza, que pediu para não ser identificado, solicitou à reportagem que não filmássemos ou fotografasse sua mãe. "A gente topou falar da nossa realidade, mas se aparecer uma foto ou filmagem vamos sofrer represálias. Sem falar que, aqueles que não sabem, vão tomar conhecimento da nossa origem e seremos perseguidos".

'Em 1981, deram parte na delegacia dizendo que eu tinha roubado um cavalo. Fiquei preso durante dois dias, até que uma pessoa que conhecia o proprietário do animal achou o bicho e falou que ele se encontrava no mesmo local há dois dias, ou seja, tinha na verdade fugido. Só depois disso fui solto", conta Cícero Martins Ramos, 65 anos. Ele chegou com a família e outros parentes em Pindoretama, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), em 1974.

"A discriminação bateu logo. Quando a gente entrava numa bodega éramos vistos de forma diferente. E quando saíamos, mais ainda. Parece que nos observavam para saber se tínhamos roubado alguma coisa".

Outro caso de preconceito relatado ocorreu há alguns anos, durante a reforma do mercado local. "Eles contrataram dezenas de trabalhadores. Uma semana depois, sem qualquer justificativa, chamaram os três ciganos que tinham sido selecionados e os dispensaram.Esse tipo de coisa diminuiu um pouco, mas ainda afeta o nosso povo", assegura seu Cícero.

Trajetos

Deslocar-se até a Paraíba todos os meses faz parte da rotina do cigano José Rocha, residente no distrito de São Pedro do Norte, em Jucás. Ele vai em busca do medicamento Soinfant PKU concentrado 2.0, alimento em pó para dietas com restrição de fenilalanina, à base de aminoácidos, vitaminas, minerais e carboidratos e essencial para o seu neto Jesus Levi, 4 anos.

O neto trata-se da Fenilcetonúria, uma doença de caráter genético  rara, detectada através do teste do pezinho, podendo causar deficiência intelectual e convulsões.  

Legenda: Cigano José Rocha, residente no distrito de São Pedro do Norte, em Jucás tem de viajar todos os mês a Paraíba em busca de medicação para a sobrevivência do neto de 4 anos
Foto: Foto: Kid Jr

"Essa peregrinação dói bastante. Mas tenho que fazer para garantir a saúde do meu neto. Ele é aposentado, já que essa doença não tem cura, apenas controle. O que recebemos dá apenas para comprar os remédios, que são muitos. Se não é o ideal, já ajuda a minorar o seu sofrimento. Nossa vida sempre foi tão dura, sofrida e cheia de perseguições que qualquer apoio que recebemos para nós significa muito".

Natural de Morada Nova, José Rocha foi  um andarilho por terras nordestinas. "Nasci e me criei debaixo da noite, andando de um lugar para outro. Era assim, três, quatro dias numa cidade, o mesmo período noutra. Essa andança toda na companhia de cinco filhos que cresceram, foram se casando e buscando seus caminhos. "Eles tiveram oportunidade de estudar. Espero que seus filhos, meus netos, possam ter um futuro melhor". 

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