Temperatura é o grande atrativo de Martins

O município foi colonizado de forma precoce exatamente pelos atrativos naturais que o destacam do entorno

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Seu Titico se dedica, há 16 anos, a manter a Casa de Pedra em ordem
Foto: Foto: Cid Barbosa

Martins (RN) A 377Km de Natal, 157Km de Mossoró e 100Km de Sousa (PB) fica o município de Martins, cidade considerada, segundo a atual prefeita, Olga Fernandes, a "Princesa Serrana" ou a "Campos do Jordão do Rio Grande do Norte", devido ao clima, em contraste com o Semiárido circundante. "Não há nenhuma cidade no Rio Grande do Norte com o clima de Martins", enfatiza. E a nossa equipe confirmou uma temperatura de 16° C, às 16h30 do dia 17 de fevereiro, em frente à Igreja Matriz da cidade.

Além do clima, Martins também é lembrada pela festa da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, curiosamente realizada de 27 de dezembro a 6 de janeiro, já que a data oficial é 8 de dezembro. O pároco, Possídio Lopes, explica que a data de comemoração foi alterada devido à grande quantidade de municípios da região com a mesma padroeira.

Origens

Conta-se que, em 1742, Francisco Martins Roriz, habitante da Ribeira do Jaguaribe, na capitania do Ceará-Grande, fundou, no alto da serra ainda inabitada, uma fazenda, que passou a ser conhecida pelo nome de seu proprietário. A denominação logo passou a todo o conjunto da Serra do Martins.

Graças ao seu desenvolvimento vagaroso, mas contínuo, a povoação do alto da serra tornou-se, um século depois, vila e em seguida o município de Maioridade (1841), em homenagem à emancipação do Imperador D. Pedro II, no ano anterior. O novo município limitava-se ao norte com o de Apodi, a oeste com o de Portalegre, e a sul e a leste com os municípios paraibanos de Sousa e Catolé do Rocha.

Em 1847, passa a ser denominado Imperatriz, em homenagem à Imperatriz Teresa Cristina. A Proclamação da República leva ao resgate do nome antigo, Martins, em 1890.

Dos mais de 1.000Km2 que possuía no momento de sua fundação como Vila da Maioridade, Martins encontra-se hoje reduzida, após sucessivas cisões, apenas à sede municipal (ao redor da antiga Matriz de Nossa Senhora da Conceição), áreas semiurbanizadas adjacentes e áreas rurais que somam 171 Km2, localizados quase exclusivamente no alto da serra homônima, entre 690 e 800 metros de altitude. A população atual é de 8.560 habitantes.

A tranquilidade é motivo de orgulho para a população, que ainda cultiva o hábito de pôr as cadeiras na calçada ao cair da tarde, como casal de aposentados Moacir Rodrigues dos Santos, 72 e Francisca de Assis Neris Rodrigues, 62, que contam, com satisfação e emoção, algumas histórias da Cidade. "Moramos num paraíso", afirma Moacir.

A mesma tranquilidade encontramos na bodega mais antiga, de 61 anos. O dono, David Leite de Andrade, 83, trabalhou primeiro na agricultura, mas a vocação para o comércio logo se manifestou. A filha Goreti, 52, foi a única que se interessou pela atividade e trabalha com ele.

Atrativos

Entre os pontos turísticos, destacam-se três mirantes: Canto, Carranca e Mãe Guilé. Do mirante do Canto, avista-se a Casa de Pedra, caverna localizada num pequeno vale da Fazenda Trincheira. Com 250m de projeção horizontal, é a quarta maior caverna em mármore do País, ficando atrás da Viola, em Santana do Riacho (MG), com 604m; Leão, em Adrianópolis (PR), com 319m; e Revelação, em Papagaio (MG), com 298m, segundo o Cadastro Nacional de Cavernas do Brasil, da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE).

Embora conte com a dedicação de Francisco Gomes de Miranda, 56, o seu Titico, há 16 anos, a Casa de Pedra é mais um patrimônio nacional vitimado pelo vandalismo. Vimos pichações até do ano de 1942.

Marcelo Rasteiro, presidente da SBE destaca que o artigo 20 da Constituição classifica as cavernas como bens da União onde quer que estejam. Mas, um decreto de 2008 flexibilizou a possibilidade de interferência nesses ambientes, ao determinar que apenas as classificadas como de máxima relevância devem ser preservadas e as demais podem ser descaracterizadas com compensação ambiental.

Ainda segundo suas informações, cerca de 100 cavernas são abertas à visitação no País e, para isso, é necessário um Plano de Manejo Espeleológico, que, na prática, só tem sido cobrado em caso de acidentes graves. Como Martins tem 21 cavernas catalogadas pela SBE, há um estudo visando a criação de uma Unidade de Conservação para proteger esse patrimônio. Existe, também, um projeto de construção de um teleférico entre o Mirante do Canto e a Casa de Pedra.

Outro atrativo, destacado pelos próprios habitantes, é o museu da Escola Estadual Almino Affonso, formado a partir de uma grande doação do coronel Demétrio Lemos. Grande mesmo! São mil livros antigos (1850 a 1950). Cem deles foram restaurados com o apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e os outros estão se desmanchando enquanto a chance de restauro não chega. As estantes foram doações do Banco do Nordeste (BNB).

Entre livros e esculturas em bronze e uma liga chinesa, está uma edição especial, em pergaminho (1880) de "Os Lusíadas", de Camões, dedicada ao fotógrafo alemão Emílio Biel (foram editados apenas 12 exemplares desse livro, o primeiro deles dedicado ao imperador D. Pedro II). Há também edições semelhantes de "O Inferno" de "A Divina Comédia" (Dante Alighieri); e de "Orlando Furioso", de Ariosto.

Maristela Crispim
Editora