Renda do Ceará é atração em Buenos Aires

Cristina Pereira, rendeira de Aquiraz, levou para a capital argentina a arte que aprendeu quando criança

Escrito por
Cristina Pioner - Repórter producaodiario@svm.com.br

Ao passear pelos bosques de buenos aires não se admire se, de repente, ouvir o tilintar dos bilros comumente ecoados pelas rendeiras no litoral cearense. É justamente nesta região, ou melhor, na prainha, no município de aquiraz, que cristina pereira nasceu, cresceu e aprendeu a fazer renda. Hoje, morando na capital da argentina, a rendeira tenta preservar e também enaltecer a sua cultura, exibindo nos espaços públicos o amor pela almofada, pelos espinhos de mandacaru e pelas linhas que materializam a sua arte.

O ofício de rendeira, passado de geração para geração, ainda emociona cristina. Conta com orgulho que é filha, neta e bisneta de rendeiras. "minha história com os bilros vem desde os 8 anos. Aprendi com minha mãe. Achava lindo quando ela com suas tias e primas sentavam-se à sombra das castanholeiras para fazer as rendas", recorda.

O toque suave dos bilros era o que mais chamava atenção da pequena cristina. Costumava esperar o momento em que sua mãe deixasse a almofada de lado para então se abancar daquele objeto de desejo. E foi assim que, aos poucos, ela acabou dominando a técnica repassada pela matriarca. Na atual geração, contudo, a mãe de três jovens reconhece que nenhum deles deu continuidade à sua arte de rendar.

Paixão de infância

No passado, a própria cristina sentiu na pele a dificuldade de sobreviver deste artesanato, tanto que aos 15 anos começou a trabalhar como cozinheira para garantir o sustento. Além de tecer, sempre gostou de fazer docinhos, bolos, salgados e, assim, acabou se aperfeiçoando na culinária, deixando de lado a paixão da infância.

Desde então, nunca mais havia retomado à almofada. Há cinco meses, quando mudou-se para buenos aires, levou consigo as ferramentas necessárias para tecer. "Hoje, eu percebo como esse trabalho tem valor, pois as pessoas daqui ficam encantadas e, além disso, estou ganhando um bom dinheiro", comemora.

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Almofadas, em tamanho normal e miniatura, bilros, espinhos de mandacaru usados como alfinetes e artigos variados, a exemplo de toalhas de bandeja, compõem, o acervo apresentado por Cristina em bosque de Buenos Aires 

Embora diga que ainda está só "recomeçando", a artesã vem colecionando admiradores de sua arte. Recorda que, certo dia, estava em um bosque de palermo trabalhando com a almofada, quando uma senhora perguntou: "Quem te ensinou. Com quem aprendeu tamanha beleza?". Ao responder que havia aprendido com sua mãe, mas a avó e a bisavó também eram rendeiras, a cearense diz ter sido tomada por emoção, pois percebeu a preciosidade da herança deixada por essas mulheres.

Orgulho das origens

Mesmo distante da sua prainha, cristina não se desconecta das origens, nem que seja pelas redes sociais. Recentemente acessou o link da reportagem "fios de tradição, rendas de bilros ceará e portugal", no site do Diário do Nordeste. O conteúdo apresenta rendeiras de Aquiraz e Trairi e das cidades portuguesas Peniche e Vila do Conde. Também conheceu a página no facebook do projeto idealizado pelas jornalistas Germana Cabral, Cristina Pioner e Marília Camelo.

"Eu tive acesso à página ao ver uma matéria com a minha amiga alessandra, que também é nativa da prainha. Achei muito interessante saber que alguém se preocupa em mostrar essa tradição", comenta.

Em fevereiro deste ano, cristina esteve no ceará e visitou a praia de mundaú, no município de trairi, onde a renda também é tradição. "Fiquei encantada com as mulheres trabalhando na almofada na varanda de suas casas. Agora, pretendo visitar florianópolis, em Santa Catarina, pois sei que lá tem rendeiras que enfrentam situação semelhante à do Ceará: o medo de se perder esta tradição".

Futuro

A própria prainha, local que já foi considerado reduto de rendeiras nas décadas passadas, hoje encontra-se em situação decadente. No passado, recorda cristina, vinham vários ônibus cheios de turistas para comprar. O artesanato com rendas era praticamente a única fonte de renda das mulheres.

Há cerca de 10 anos, porém, o centro das rendeiras da prainha foi destruído para dar lugar a um novo projeto, mais apropriado à exposição e venda dos produtos. Desde então, as artesãs continuam resistindo em meio ao improviso das barracas que elas mesmas ergueram com pedaços de madeira e cobertas por lonas. O desejo de Cristina é que, com o novo centro, já em construção pelo Governo do Estado do Ceará, não se perca a tradição das rendas na Prainha.

Renda na Argentina

Orgulhosa da sua herança familiar, a artesã cearense veste-se com roupa em rendas de bilros e exibe a bandeira do Brasil tecida na almofada

Mais informações:

Site: Fios de tradição (http://hotsite.diariodonordeste.com.br/especiais/fios-de-tradicao)

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