Projeto experimental de plantio de trigo no Ceará supera expectativa

O cultivo foi feito na fazenda Agrícola Famosa, no distrito de Tomé, no Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi e alcançou produtividade de 4,5t/ha.

A inédita e exitosa produção de trigo pela primeira vez no Ceará animou os envolvidos
Legenda: A inédita e exitosa produção de trigo pela primeira vez no Ceará animou os envolvidos
Foto: Honório Barbosa

O primeiro plantio experimental de trigo em solo cearense superou a expectativa inicial dos produtores em uma área de 5,0 hectare, na fazenda Agrícola Famosa, no Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi. A produtividade média esperada, inicialmente, era de 4,5 toneladas por hectare, mas a safra colhida revelou melhores números: 5,3t/ha.

A produtividade alcançada superou média da Região Sul, principal polo produtor de trigo do País, mas a cultura no Ceará foi cultivada na modalidade irrigada, enquanto que no Rio Grande do Sul segue a tradição do plantio de sequeiro.

Para os dois produtores envolvidos no projeto, a colheita representa um marco histórico para a economia cearense e possibilita a abertura de um novo ramo do negócio de trigo e derivados, isto é, a produção local. O projeto nasceu da união da Santa Lúcia Alimentos e da Agrícola Famosa, que é a maior produtora de melão no distrito de Tomé, em Quixeré, no Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi.

“Para alguns era uma loucura, mas para nós foi uma aposta exitosa e que serve de modelo para outros produtores”, frisou o produtor Alexandre Salles. “O ciclo produtivo foi de apenas 75 dias”. O empresário fez comparação com o Sul do Brasil, onde a produtividade média é de 2,4 toneladas por hectare, e no Cerrado, cerca de 5,5t/ha, mas com ciclo produtivo mais longo, entre 140 a 180 dias.

Otimista, Salles reafirmou que para 2021 vai expandir a área de plantio para 50ha e em 2022, quer ampliar para 500ha. “A nossa ideia é manter um projeto crescente”, salientou. “Pensamos em fazer dois cultivos alternados entre melão e trigo, por ano, já que o ciclo é curto”.  

Embora esteja muito animado com os resultados colhidos, Salles acredita que ainda há muito o que melhorar a partir de maior acompanhamento e ajustes na cultura. “Não há dúvida que foi um sucesso, não só pela produtividade, mas também pelo prazo de duração da planta até a colheita”, pontuou. “Agora é partir para grandes volumes e maior produtividade”.

Para a titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina, a produção local, embora em caráter experimental, revelou ser viável e pode ser considerada um marco histórico para a atividade agropecuária regional. “Isso mostra que precisamos estar cada vez mais antenados com a modernidade das novas tecnologias para vários produtos que podemos usar internamente e, ao mesmo tempo, gerar superávit para nossas exportações”, afirmou a ministra, que vê possibilidade de expandir a cultura para outros estados nordestinos – Piauí e Alagoas.

Os estudos para o cultivo do grão no Ceará começaram a partir de uma parceria entre a Embrapa Trigo, Embrapa Agroindústria Tropical e o Instituto Federal do Ceará, que realizaram os primeiros experimentos de cultivo, em 2019. “O objetivo foi analisar a viabilidade de produção do cereal no Estado, considerando as condições de solo e clima”, explicou o técnico da Embrapa, Afrânio Montenegro. 

A pesquisa realizou experimentos com quatro variedades de cultivares, em regiões de baixa e de alta altitude, análise de época mais adequado ao plantio, ciclo de incidências de doenças e desenvolvimento das plantas com plantios.

“O primeiro resultado foi excelente, o ciclo se fechou em 75 dias e as cultivares que tiveram melhor performance foi a BRS264 e BRS404, mostrando que o trigo tinha ampla adaptação para ser cultivado no Ceará”, destacou Osvaldo Vasconcellos, chefe-geral da Embrapa Trigo. 

“O resultado foi muito promissor, o que deu um grande ânimo à Embrapa porque vemos que os estados do Nordeste, que têm altitude acima de 600 metros como o Piauí, Ceará, Alagoas e outras partes dessa região, apresentam boa aptidão e têm condições de luminosidade e de temperatura que atendem à demanda da produção de trigo”, comentou Vasconcellos. 

De acordo com o Mapa, a região Nordeste importa quase 100% do trigo que consome, proveniente da Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá e Rússia, além de importar de outras regiões do Brasil. Com os resultados positivos obtidos no Ceará, no futuro, a partir da expansão da cultura, o Brasil poderá equilibrar a balança comercial em trigo, observa Vasconcelos.

Quero receber conteúdos exclusivos sobre as regiões do Ceará