Pedreiro cria casa inusitada

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Em Santana do Cariri, o pedreiro Antônio Mariano decidiu sair do convencional e criou uma casa diferente

Santana do Cariri "Era ele que erguia casas/onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas/ele subia com as casas/que lhe brotavam da mão". O poema de Vinícius de Morais foi vivido na prática pelo pedreiro Antônio Mariano que, a exemplo dos outros seus irmãos nordestinos, tomou o caminho de São Paulo a procura de sobrevivência. Trabalhou na construção civil, foi pedreiro, carpinteiro e eletricista. Alimentou sonhos, como, por exemplo, o de ser ator, que foram desfeitos pela necessidade mais premente, a sobrevivência.

A falta de estudos, as imagens de crianças abandonadas nas ruas, às desigualdades sociais, a descriminação, o preconceito e a indiferença, não acabaram com a sensibilidade poética do pedreiro que guarda, com todo cuidado, um caderno com 100 poesias de sua autoria. Uma delas é o retrato de sua própria vida de sofrimento. Em um dos versos ele diz: "Já tive à beira da morte/ Desprezado pela sorte/ mesmo assim, tentei ser forte/ lutando contra o destino/ pra não viver no fracasso/conquistar novos espaços/busquei novos abraços/ que me deram novo destino.

Voltou para casa como a maioria dos conterrâneos, desiludido com o "Sul maravilha", mas não perdeu a esperança e a vontade de vencer.

O sofrimento na cidade grande fortaleceu a sua personalidade. O sonho da casa própria nunca saiu de sua cabeça. Enquanto construía a casa dos outros, pensava na sua própria residência, templo sagrado da mulher e seus três filhos.

Em uma ponta de rua do distrito de Araporanga, município de Santana do Cariri, o pedreiro iniciou a construção de sua casa que, antes de ser concluída, já está despertando curiosidade de quem passa.

Mariano seguiu o seu caminho no mesmo ritmo do poema de Vinícius. "E assim o operário ia/ Com suor e com cimento/ Erguendo uma casa aqui/ Adiante um apartamento/ Além uma igreja/ à frente um quartel e uma prisão"...

Material

O pedreiro não teve condições de comprar o material para sua própria casa. Ergueu-a com material reciclado. O piso e a decoração foram feitos com os rejeitos de uma serraria de lajes de Santana do Cariri que funciona ao lado. Parte deste material foi encontrado na beira de um açude. As portas e, ainda, o madeiramento de sustentação do teto foram reaproveitados.

O que mais chama a atenção é a criatividade. Mariano fez uma casa diferente de todas as outras de sua região. A alteração começa na entrada. A calçada não é reta. "Por que uma calçada tem que acompanhar o alinhamento da rua?", questiona o pedreiro.

Divisão da casa

A divisão entre a sala da frente e a calçada foi feita com uma cerca de madeira e arame, com estacas pintadas de verde e amarelo. As colunas de sustentação, em forma de arco, foram construídas, exclusivamente, com tijolos e a decoração das paredes com retalhos de laje de Santana do Cariri.

O mais curioso são as portas e janelas, que abrem de várias formas, inclusive em sentido transversal. A casa ainda não está concluída. Mesmo assim, chama a atenção do transeunte. O professor universitário aposentado, José Pereira de Oliveira, comenta que Mariano teve a coragem de fugir do lugar comum. "Ele fez uma casa diferente", elogia.

A mulher de Mariano, Noêmia Ferreira, disse que, a princípio, achou estranho aquela "arrumação". Mas, depois que começou a morar na casa, está gostando da nova residência. Até os nomes dos filhos do pedreiro são diferentes: Natan Nitael, Naion Widney e Naiara Benigna. No momento em que a reportagem entrevistava o pedreiro, o vigário de Santana do Cariri, Adalmiran Vasconcelos, fazia uma visita para abençoar a felicidade daquela família simples que ostenta, com orgulho, uma casa construída com suor, sangue e, também, criatividade de um operário.

Convencionais

Apesar da casa despertar curiosidade, ninguém quis copiá-la. Não falta trabalho para Mariano, mas as pessoas preferem as casas convencionais.

O pedreiro tem consciência do seu jeito diferente de ser. No Entanto, não desiste dessa sua vocação pelo inusitado. Não conseguiu ainda ser ator. Entretanto está no caminho. Nas horas vagas, Mariano apresenta um programa na Rádio FM, lá mesmo, do município de Santana do Cariri.

Mais informações
Distrito de Araporanga
Santana do Cariri
(88) 9616.7173/
(88) 9960.3026

ORIGEM DESCONHECIDA
Distrito é um museu ao ar livre

Santana do Cariri O pequeno distrito de Araporanga, conhecido também por Estiva, é um museu ao ar livre, que conta a história de uma comunidade tranquila, que ainda coloca cadeiras nas calçadas para esperar o vento do Aracati, que se desloca do litoral para o sertão, carregando o cheiro dos verdes mares bravios do Ceará. Além dos fósseis que afloram no pé da Serra do Araripe, Aratama conserva casas antigas construídas com lajes, rochas sedimentares que contêm minerais e pequenos peixes fossilizados.

Os moradores da localidade não sabem a origem destas construções. "Quando cheguei, quando nasci, elas já existiam", respondem eles.

O reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca), Plácido Cidade Nuvens, que é filho de Santana do Cariri, diz que a utilização de lajes na construção de casas predominou até 1950. Talvez, tenham sido erguidas no final do Século XVII, quando foi iniciada a ocupação da área. Aos poucos, as casas de lajes, testemunhas de uma época, estão sendo substituídas por residências de tijolos.

Euroville

A cerca de 500 metros do povoado de Araporanga, surge outra curiosidade: um condomínio familiar com modelos de casas da Europa e da Ásia. Na entrada, um castelo português. No fundo, a Torre Eiffel, um dos símbolos da França. Casas típicas da Itália, Alemanha, Inglaterra e Marrocos se espalham entre os jardins floridos, num contraste com a pobreza da região.

Um anfiteatro, rodeado de degraus, a céu aberto, lembra Roma antiga e os teatros gregos, que serviram de palco para os combates de gladiadores, de animais selvagens e demais diversões públicas.

Belo lago

A beleza do lugar é complementada com um lago suíço e uma ponte de madeira que contorna o pequeno açude. A construção da Euroville é uma iniciativa da família Pereira de Oliveira que, depois de percorrer o "Velho Mundo", resolveu construir réplicas das casas das regiões visitadas no Cariri.

A ideia foi do urbanista Françuar Oliveira, já falecido, que morou na França e convenceu os outros irmãos a investir na fazenda onde eles passaram toda a infância .

Reduto de férias

Por enquanto, as casas estão desocupadas. Os irmãos só aparecem durante as férias. O único morador da Euroville é o professor universitário aposentado, José Pereira de Oliveira, que acompanha o acabamento do condomínio. Pereira levanta a possibilidade de dar um sentido social a Euroville. "Está sendo construído a sede de um pequeno museu, mas não tem nada definido", esclarece.

ANTÔNIO VICELMO
REPÓRTER