Padre Cícero e os novos estudos
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Redação
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Juazeiro do Norte. Os escritores sempre apontaram o foco para observação do Padre Cícero em cima de três vertentes básicas da sua história: a) o relacionamento dele com os romeiros; b) seu comportamento na questão religiosa decorrente do milagre da hóstia; e c) a sua incursão pelo caminho tortuoso da política partidária na época.
No começo, em qualquer um desses aspectos, salvo algumas exceções, sua atuação foi sempre analisada obedecendo a uma dicotomia de juízos diametralmente opostos: de um lado, sendo atacado pelo radicalismo exacerbado dos que não lhe reconheciam nenhum valor; de outro, sendo exaltado com exagero pelos que nele só encontravam virtudes.
Por isso, a maior parte da produção literária resultante desses estudos iniciais pouco ajudou para definir a verdadeira figura histórica do Padre Cícero. Mesmo assim, contribuiu para aumentar o número de admiradores e de detratores e também para compor um acervo bibliográfico que, apesar de sofrer algumas restrições, ainda hoje serve como fonte de consulta para muitos.
O certo é que, sem acesso à documentação oficial (abundante, porém secreta, e por isso inacessível à maioria dos pesquisadores) muitos escritores e memorialistas inventaram fatos, dando margem à fantasia, e deturparam dados, criando motivo para interpretações duvidosas. Com efeito, isso tornou o Padre Cícero uma figura mitológica e ao mesmo tempo uma pessoa ou amada ou odiada por diferentes segmentos.
Alguns trabalhos tidos como difamadores, entre os quais o de Otacílio Anselmo (“Padre Cícero, mito e realidade”) mostram o Padre Cícero como responsável pelo estado de atraso e penúria em que vivem os sertanejos. No tocante à questão do milagre, o autor armou um esquema tão bem engendrado que é capaz de induzir o leitor a concluir que Padre Cícero participou ativamente de uma farsa, arquitetada pelo professor José Marrocos e encenada pela beata Maria de Araújo com o beneplácito do sacerdote. E sobre sua atuação política, os indícios apresentados na obra estão montados de forma a permitir ao leitor a aceitação da tese de que Padre Cícero ingressou na política, movido principalmente pela ambição do poder. Era assim que se detratava o Padre Cícero antigamente.
Por outro lado, trabalhos explicitamente apologéticos, como o de Reis Vidal (“Padre Cícero, sua vida e sua obra”), transformaram Padre Cícero num ser próximo ao divino, um profeta, fato este amplamente disseminado pela literatura de cordel. Era assim que se elogiava o religioso antigamente.
Na verdade, usando a coerência e a racionalidade, é inadmissível responsabilizar Padre Cícero pelo estado de penúria em que vive o nordestino. Sabe-se que esse povo iletrado e desprovido dos meios de subsistência, quando se descobre vítima da falta do pão da justiça social e privado do olhar da solidariedade humana, via de regra recorre ao sobrenatural, caminha em busca da proteção divina e é justamente aí que a figura do Padre Cícero aparece como o padrinho que faz a intermediação das preces e dos rogos de cada um deles.
Instalado dentro desse contexto, Padre Cícero não está necessariamente alimentando fanatismo; ao contrário, está é alimentando a fé do nordestino desamparado. É assim, de fato, que os romeiros conseguem ver a postura de seu padrinho diante dos seus pedidos. Ninguém é forçado a gostar ou a recorrer ao Padre Cícero nos momento de infortúnio. Os romeiros o procuram espontaneamente e dificilmente o largam porque acreditam nele mais do que em qualquer político ou mesmo do que em muitos santos. Mas isso só será fácil de entender, se for observado sem preconceito e estudado cientificamente, como vêm fazendo as irmãs cônegas de Santo Agostinho Annete Dumoulin e Teresinha Stela Guimarães (ambas psicólogas e com excelente formação acadêmica em nível de doutorado), há mais de 20 anos estudando os romeiros nordestinos. É preciso compreender muito bem o que se passa dentro do imaginário dos romeiros, pois do contrário corre-se o risco de interpretar mal suas atitudes.
Também usando a coerência e a racionalidade é inadmissível elevar Padre Cícero à categoria de divindade, embora não se possa colocá-lo na categoria de homem comum, pois se o fosse, com a morte teria desaparecido. E não está.
É fácil perceber como foi feito o enfoque apresentado pelos primeiros biógrafos do Padre Cícero. Todos, invariavelmente, estavam movidos por interesses pessoais, paixão, inveja, ódio, amor, ou então a serviço de alguma organização (a Igreja, inclusive), formando-se então uma forte corrente bilateral interessada em difamar e destruir ou louvar e santificar o Padre Cícero.
São dessa “escola” escritores como padre Alencar Peixoto, padre Antônio Gomes de Araújo, padre Helvídio Martins Maia, Nertan Macedo, Lourenço Filho, Otacílio Anselmo, Reis Vidal, Godofredo de Castro, Aldenor Benevides e muitos outros que, de uma forma ou de outra, deram a sua contribuição para se poder mais tarde — feitas as devidas depurações — se delinear a verdadeira dimensão política, histórica e social de Padre Cícero, depois consolidada com o advento dos trabalhos assinados por nomes como Ralph Della Cava, Marcelo Camurça, Luitgarde Oliveira, Maria do Carmo Pagan Forti, Renata Marinho, Teresinha Stela Guimarães, Francisco Salatiel, Antônio Braga, Régis Lopes e muitos outros que aceitaram o desafio de tirar da penumbra a real história do Padre Cícero.
Os trabalhos recentes, resultantes de meticulosa pesquisa e com coleta de dados em fontes somente agora acessíveis, estão contribuindo para formatar a nova figura de Padre Cícero. Atualmente, ele não é mais visto como alimentador de fanatismo, pois segundo o historiador Marcelo Camurça: “Isto foi compreendido pela Antropologia e pela Sociologia modernas não como fator de ignorância, alienação, mas como uma apreensão da realidade por aquelas populações com sua coerência e lógica interna”.
Após exaustivos estudos, os historiadores modernos conseguiram entender os reais motivos que levaram o Padre Cícero a se envolver, mas sem efetivamente comandar, a famigerada Revolução de 1914, quando as tropas chefiadas pelo deputado Floro Bartolomeu apearam do poder do governo cearense o coronel Franco Rabelo. E sobre a questão do milagre, a aceitação corrente é que não houve embuste, tese explicitamente defendida no passado, principalmente pela Igreja.
Pesquisa pioneira
Pode-se dizer que a moderna bibliografia de Padre Cícero tem como marco de referência maior a obra do historiador americano Ralph Della Cava, intitulada “Milagre em Joaseiro”, publicada inicialmente nos Estados Unidos e depois no Brasil (1976). Ele produziu o primeiro trabalho de cunho acadêmico publicado sobre Padre Cícero, tendo contribuído de forma efetiva para inaugurar a nova fase de estudos sobre esse sacerdote caririense.
Depois dele, a vida de Padre Cícero passou efetivamente a ser alvo de estudo nas academias não só do Brasil, mas também do Exterior. Ultimamente a própria Igreja, por meio da Diocese do Crato, está contribuindo para que esse novo enfoque de estudo do Padre Cícero prospere.
O bispo dom Fernando Panico abriu os arquivos da Diocese e os colocou à disposição dos pesquisadores. Com isso, documentos até então guardados a sete chaves estão agora acessíveis, contribuindo eficazmente para que muitas dúvidas sejam dirimidas sobre o religioso.
Na verdade, de uns tempos para cá, tudo mudou na historiografia de Padre Cícero. O milagre da hóstia, por exemplo, já foi discutido em simpósios, dissecado pela Parapsicologia, examinado em laboratório, evoluindo de embuste para aporte, estando hoje bem mais próximo de ser mesmo um fato extraordinário. Se não for um milagre eucarístico autêntico, como há quem queira, será alguma coisa do tipo “o dedo de Deus está aqui...”, como também há quem queira.
Reconhecimento oficial
As romarias, antes apontadas como manifestações de fanatismo, ou movimento de massa de gente ignorante, são hoje objeto de estudo de primeira linha das Ciências Sociais e já receberam o selo de reconhecimento oficial da Igreja na própria diocese que as condenou no passado.
Padre Cícero agora aparece repaginado com status de ecologista, sábio do sertão, a pessoa que colocou a cidade de Juazeiro do Norte no mapa do Brasil. Falar mal dele é conduzir atestado de ignorância.
E as pessoas que gravitam na órbita de sua história também foram contempladas com uma nova ótica de observação e julgamento. Assim, o professor José Marrocos não é mais tido como embusteiro nem fanático. Readquiriu seu status de educador e de abolicionista. A beata Maria de Araújo, tão ultrajada, tão vilipendiada, ressurge agora conduzida pelos estudos da professora Maria do Carmo Pagan Forti como uma mulher corajosa, de apagada da história para protagonista do milagre, com direito a simpósio e estudo acadêmico e estátua exposta publicamente. Quem poderia imaginar isso ocorrer no passado!
E Juazeiro do Norte, a cidade fundada pelo Padre Cícero, graças a esta nova tendência de estudo que está sendo dado à história do seu fundador, saiu da humilhante posição de “núcleo de fanáticos”, “terra de jagunços”, “de gente guiada por satanás” para a confortável posição de maior polo universitário do Interior cearense.
O município é terreno fértil onde prosperam grandes empreendimentos. O que está havendo, afinal? Quem provocou tal mudança? A resposta está no próprio personagem: o Padre Cícero. Os novos estudos sobre ele tem outra postura. E se ele proferiu a célebre frase “Tudo tem seu tempo”, o seu tempo chegou.
DANIEL WALKER*
Especial para o Regional
*Professor universitário aposentado da Urca, assessor técnico da Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, autor, dentre outras, das seguintes obras ´O pensamento vivo de Padre Cícero´, ´Padre Cícero na berlinda´ e ´A sabedoria de Padre Cícero´, jornalista e escritor. Tem dez livros publicados e é autor de ´Padre Cícero, o poder de comunicação´ e ´Padre Cícero segundo Mestre Athayde´
NOVA DESCOBERTA
Túnel é encontrado em museu
Juazeiro do Norte. Um túnel cercado de mistérios foi encontrado recentemente na casa onde morou o Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. A descoberta foi feita durante uma limpeza e reforma que está sendo feita no antigo casarão, hoje, Museu do Padre Cícero, na Rua São José. Durante palestra realizada pelo padre Venturelli, na semana dedicada ao sacerdote, pelos seus 165 anos, que se encerra hoje, o religioso mostrou o local aos participantes do evento.
Segundo o padre, a idéia é se fazer estudos para se descobrir com que finalidade o “buraco” ou túnel, como vem sendo chamado, foi construído. O resultado disso são mais visitantes e curiosos à procura do museu para conhecer o local encontrado. Alguns dizem que era para guardar armas, durante a guerra de 1914. Outros, para guardar alimentos. Mas, o resultado disso é o mistério que cerca o buraco vazio.
O local, no quintal da casa, estava coberto por entulhos. Por acaso, um dos zeladores começou a bater um ferro no chão, em cima do túnel, e percebeu que havia sumido de suas mãos. Era a descoberta. O local estava vazio. Apenas um arco com tijolos aparentes e paredes lisas, com cimento, mas bem preservadas.
O resultado dessas recentes descobertas e a abertura da biblioteca do Padre Cícero no antigo museu tem levado maior número de visitantes, muitos deles estudantes. Ano passado, mais de 65 mil pessoas visitaram o local, onde estão salas de ex-votos, a sala da biblioteca de 600 livros, que agora passam por um processo de digitalização e preservação, entre outros materiais que pertenceram ao sacerdote caririense.
Todo um trabalho de pintura e reforma, melhorias das portas, está sendo feito no museu. O padre Venturelli admite que esse é um trabalho inicial em relação ao processo de preservação dos bens do sacerdote, que merece ser feito muito mais. “Pretendemos desenvolver estudos em relação a descoberta, para saber qual a finalidade do túnel”, diz ele. Quadros atingidos por fungos e em perigo de deterioração, além do teto do velho casarão já foram restaurados.
Pe. Venturelli apresentou a equipe que faz o trabalho de preservação e digitalização dos livros da biblioteca do Padre Cícero. São 14 alunos do curso de Biblioteconomia da UFC, coordenados pela também estudante Deusimária Dantas Pereira, orientada por professores do curso. O trabalho vem sendo feito de forma minuciosa. Dentro dos livros já foram encontrados materiais importantes como um provável “paninho” usado pela beata Maria de Araújo, durante o sangramento da hóstia em sua boca, durante o “Milagre de Juazeiro”.
EM MEMÓRIA DO RELIGIOSO
Assunção Gonçalves é testemunha viva
Juazeiro do Norte. Com 93 anos de idade, a artista plástica Assunção Gonçalves é a única testemunha viva que teve o privilégio de conviver com o Padre Cícero. Em sua casa, muitas memórias do amigo sacerdote. Ela guarda com carinho a rede, onde o sacerdote, muitas vezes, chorou diante das arbitrariedades cometidas por Floro Bartolomeu.
Ao fazer esta revelação, ela faz um pedido. “Eu quero que Deus me dê mais alguns anos de vida para que eu possa ver o Padre Cícero reabilitado. Ele foi um santo que previa o futuro. Lembro-me que, na inauguração do trem, na viagem de Juazeiro para o Crato, ele olhou para um plantio de milho na margem da ferrovia e disse: ‘Tudo isso aqui, futuramente, vai ser uma grande cidade’”. Ela conta que uma vez perguntou ao padre o motivo pelo qual as janelas da casa da Rua São José, onde ele morava, eram tão grandes. “Um dia esta casa será a residência episcopal”, respondeu. A lembrança mais forte da convivência é a utilização do mata-borrão que ela usava para enxugar os textos escritos com pena e tinteiro pelo Padre Cícero. Ele recorda a bola de vidro que servia de peso para segurar os papéis em cima da mesa. “Era um peça colorida, parecida com um caleidoscópio,” lembra.
No quarto, num local que nem ela sabe, estão guardados os fios da barba do Padre Cícero. “E um pedaço dele que eu guardei comigo”, afirma.
No começo, em qualquer um desses aspectos, salvo algumas exceções, sua atuação foi sempre analisada obedecendo a uma dicotomia de juízos diametralmente opostos: de um lado, sendo atacado pelo radicalismo exacerbado dos que não lhe reconheciam nenhum valor; de outro, sendo exaltado com exagero pelos que nele só encontravam virtudes.
Por isso, a maior parte da produção literária resultante desses estudos iniciais pouco ajudou para definir a verdadeira figura histórica do Padre Cícero. Mesmo assim, contribuiu para aumentar o número de admiradores e de detratores e também para compor um acervo bibliográfico que, apesar de sofrer algumas restrições, ainda hoje serve como fonte de consulta para muitos.
O certo é que, sem acesso à documentação oficial (abundante, porém secreta, e por isso inacessível à maioria dos pesquisadores) muitos escritores e memorialistas inventaram fatos, dando margem à fantasia, e deturparam dados, criando motivo para interpretações duvidosas. Com efeito, isso tornou o Padre Cícero uma figura mitológica e ao mesmo tempo uma pessoa ou amada ou odiada por diferentes segmentos.
Alguns trabalhos tidos como difamadores, entre os quais o de Otacílio Anselmo (“Padre Cícero, mito e realidade”) mostram o Padre Cícero como responsável pelo estado de atraso e penúria em que vivem os sertanejos. No tocante à questão do milagre, o autor armou um esquema tão bem engendrado que é capaz de induzir o leitor a concluir que Padre Cícero participou ativamente de uma farsa, arquitetada pelo professor José Marrocos e encenada pela beata Maria de Araújo com o beneplácito do sacerdote. E sobre sua atuação política, os indícios apresentados na obra estão montados de forma a permitir ao leitor a aceitação da tese de que Padre Cícero ingressou na política, movido principalmente pela ambição do poder. Era assim que se detratava o Padre Cícero antigamente.
Por outro lado, trabalhos explicitamente apologéticos, como o de Reis Vidal (“Padre Cícero, sua vida e sua obra”), transformaram Padre Cícero num ser próximo ao divino, um profeta, fato este amplamente disseminado pela literatura de cordel. Era assim que se elogiava o religioso antigamente.
Na verdade, usando a coerência e a racionalidade, é inadmissível responsabilizar Padre Cícero pelo estado de penúria em que vive o nordestino. Sabe-se que esse povo iletrado e desprovido dos meios de subsistência, quando se descobre vítima da falta do pão da justiça social e privado do olhar da solidariedade humana, via de regra recorre ao sobrenatural, caminha em busca da proteção divina e é justamente aí que a figura do Padre Cícero aparece como o padrinho que faz a intermediação das preces e dos rogos de cada um deles.
Instalado dentro desse contexto, Padre Cícero não está necessariamente alimentando fanatismo; ao contrário, está é alimentando a fé do nordestino desamparado. É assim, de fato, que os romeiros conseguem ver a postura de seu padrinho diante dos seus pedidos. Ninguém é forçado a gostar ou a recorrer ao Padre Cícero nos momento de infortúnio. Os romeiros o procuram espontaneamente e dificilmente o largam porque acreditam nele mais do que em qualquer político ou mesmo do que em muitos santos. Mas isso só será fácil de entender, se for observado sem preconceito e estudado cientificamente, como vêm fazendo as irmãs cônegas de Santo Agostinho Annete Dumoulin e Teresinha Stela Guimarães (ambas psicólogas e com excelente formação acadêmica em nível de doutorado), há mais de 20 anos estudando os romeiros nordestinos. É preciso compreender muito bem o que se passa dentro do imaginário dos romeiros, pois do contrário corre-se o risco de interpretar mal suas atitudes.
Também usando a coerência e a racionalidade é inadmissível elevar Padre Cícero à categoria de divindade, embora não se possa colocá-lo na categoria de homem comum, pois se o fosse, com a morte teria desaparecido. E não está.
É fácil perceber como foi feito o enfoque apresentado pelos primeiros biógrafos do Padre Cícero. Todos, invariavelmente, estavam movidos por interesses pessoais, paixão, inveja, ódio, amor, ou então a serviço de alguma organização (a Igreja, inclusive), formando-se então uma forte corrente bilateral interessada em difamar e destruir ou louvar e santificar o Padre Cícero.
São dessa “escola” escritores como padre Alencar Peixoto, padre Antônio Gomes de Araújo, padre Helvídio Martins Maia, Nertan Macedo, Lourenço Filho, Otacílio Anselmo, Reis Vidal, Godofredo de Castro, Aldenor Benevides e muitos outros que, de uma forma ou de outra, deram a sua contribuição para se poder mais tarde — feitas as devidas depurações — se delinear a verdadeira dimensão política, histórica e social de Padre Cícero, depois consolidada com o advento dos trabalhos assinados por nomes como Ralph Della Cava, Marcelo Camurça, Luitgarde Oliveira, Maria do Carmo Pagan Forti, Renata Marinho, Teresinha Stela Guimarães, Francisco Salatiel, Antônio Braga, Régis Lopes e muitos outros que aceitaram o desafio de tirar da penumbra a real história do Padre Cícero.
Os trabalhos recentes, resultantes de meticulosa pesquisa e com coleta de dados em fontes somente agora acessíveis, estão contribuindo para formatar a nova figura de Padre Cícero. Atualmente, ele não é mais visto como alimentador de fanatismo, pois segundo o historiador Marcelo Camurça: “Isto foi compreendido pela Antropologia e pela Sociologia modernas não como fator de ignorância, alienação, mas como uma apreensão da realidade por aquelas populações com sua coerência e lógica interna”.
Após exaustivos estudos, os historiadores modernos conseguiram entender os reais motivos que levaram o Padre Cícero a se envolver, mas sem efetivamente comandar, a famigerada Revolução de 1914, quando as tropas chefiadas pelo deputado Floro Bartolomeu apearam do poder do governo cearense o coronel Franco Rabelo. E sobre a questão do milagre, a aceitação corrente é que não houve embuste, tese explicitamente defendida no passado, principalmente pela Igreja.
Pesquisa pioneira
Pode-se dizer que a moderna bibliografia de Padre Cícero tem como marco de referência maior a obra do historiador americano Ralph Della Cava, intitulada “Milagre em Joaseiro”, publicada inicialmente nos Estados Unidos e depois no Brasil (1976). Ele produziu o primeiro trabalho de cunho acadêmico publicado sobre Padre Cícero, tendo contribuído de forma efetiva para inaugurar a nova fase de estudos sobre esse sacerdote caririense.
Depois dele, a vida de Padre Cícero passou efetivamente a ser alvo de estudo nas academias não só do Brasil, mas também do Exterior. Ultimamente a própria Igreja, por meio da Diocese do Crato, está contribuindo para que esse novo enfoque de estudo do Padre Cícero prospere.
O bispo dom Fernando Panico abriu os arquivos da Diocese e os colocou à disposição dos pesquisadores. Com isso, documentos até então guardados a sete chaves estão agora acessíveis, contribuindo eficazmente para que muitas dúvidas sejam dirimidas sobre o religioso.
Na verdade, de uns tempos para cá, tudo mudou na historiografia de Padre Cícero. O milagre da hóstia, por exemplo, já foi discutido em simpósios, dissecado pela Parapsicologia, examinado em laboratório, evoluindo de embuste para aporte, estando hoje bem mais próximo de ser mesmo um fato extraordinário. Se não for um milagre eucarístico autêntico, como há quem queira, será alguma coisa do tipo “o dedo de Deus está aqui...”, como também há quem queira.
Reconhecimento oficial
As romarias, antes apontadas como manifestações de fanatismo, ou movimento de massa de gente ignorante, são hoje objeto de estudo de primeira linha das Ciências Sociais e já receberam o selo de reconhecimento oficial da Igreja na própria diocese que as condenou no passado.
Padre Cícero agora aparece repaginado com status de ecologista, sábio do sertão, a pessoa que colocou a cidade de Juazeiro do Norte no mapa do Brasil. Falar mal dele é conduzir atestado de ignorância.
E as pessoas que gravitam na órbita de sua história também foram contempladas com uma nova ótica de observação e julgamento. Assim, o professor José Marrocos não é mais tido como embusteiro nem fanático. Readquiriu seu status de educador e de abolicionista. A beata Maria de Araújo, tão ultrajada, tão vilipendiada, ressurge agora conduzida pelos estudos da professora Maria do Carmo Pagan Forti como uma mulher corajosa, de apagada da história para protagonista do milagre, com direito a simpósio e estudo acadêmico e estátua exposta publicamente. Quem poderia imaginar isso ocorrer no passado!
E Juazeiro do Norte, a cidade fundada pelo Padre Cícero, graças a esta nova tendência de estudo que está sendo dado à história do seu fundador, saiu da humilhante posição de “núcleo de fanáticos”, “terra de jagunços”, “de gente guiada por satanás” para a confortável posição de maior polo universitário do Interior cearense.
O município é terreno fértil onde prosperam grandes empreendimentos. O que está havendo, afinal? Quem provocou tal mudança? A resposta está no próprio personagem: o Padre Cícero. Os novos estudos sobre ele tem outra postura. E se ele proferiu a célebre frase “Tudo tem seu tempo”, o seu tempo chegou.
DANIEL WALKER*
Especial para o Regional
*Professor universitário aposentado da Urca, assessor técnico da Secretaria de Turismo e Romaria de Juazeiro do Norte, autor, dentre outras, das seguintes obras ´O pensamento vivo de Padre Cícero´, ´Padre Cícero na berlinda´ e ´A sabedoria de Padre Cícero´, jornalista e escritor. Tem dez livros publicados e é autor de ´Padre Cícero, o poder de comunicação´ e ´Padre Cícero segundo Mestre Athayde´
NOVA DESCOBERTA
Túnel é encontrado em museu
Juazeiro do Norte. Um túnel cercado de mistérios foi encontrado recentemente na casa onde morou o Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. A descoberta foi feita durante uma limpeza e reforma que está sendo feita no antigo casarão, hoje, Museu do Padre Cícero, na Rua São José. Durante palestra realizada pelo padre Venturelli, na semana dedicada ao sacerdote, pelos seus 165 anos, que se encerra hoje, o religioso mostrou o local aos participantes do evento.
Segundo o padre, a idéia é se fazer estudos para se descobrir com que finalidade o “buraco” ou túnel, como vem sendo chamado, foi construído. O resultado disso são mais visitantes e curiosos à procura do museu para conhecer o local encontrado. Alguns dizem que era para guardar armas, durante a guerra de 1914. Outros, para guardar alimentos. Mas, o resultado disso é o mistério que cerca o buraco vazio.
O local, no quintal da casa, estava coberto por entulhos. Por acaso, um dos zeladores começou a bater um ferro no chão, em cima do túnel, e percebeu que havia sumido de suas mãos. Era a descoberta. O local estava vazio. Apenas um arco com tijolos aparentes e paredes lisas, com cimento, mas bem preservadas.
O resultado dessas recentes descobertas e a abertura da biblioteca do Padre Cícero no antigo museu tem levado maior número de visitantes, muitos deles estudantes. Ano passado, mais de 65 mil pessoas visitaram o local, onde estão salas de ex-votos, a sala da biblioteca de 600 livros, que agora passam por um processo de digitalização e preservação, entre outros materiais que pertenceram ao sacerdote caririense.
Todo um trabalho de pintura e reforma, melhorias das portas, está sendo feito no museu. O padre Venturelli admite que esse é um trabalho inicial em relação ao processo de preservação dos bens do sacerdote, que merece ser feito muito mais. “Pretendemos desenvolver estudos em relação a descoberta, para saber qual a finalidade do túnel”, diz ele. Quadros atingidos por fungos e em perigo de deterioração, além do teto do velho casarão já foram restaurados.
Pe. Venturelli apresentou a equipe que faz o trabalho de preservação e digitalização dos livros da biblioteca do Padre Cícero. São 14 alunos do curso de Biblioteconomia da UFC, coordenados pela também estudante Deusimária Dantas Pereira, orientada por professores do curso. O trabalho vem sendo feito de forma minuciosa. Dentro dos livros já foram encontrados materiais importantes como um provável “paninho” usado pela beata Maria de Araújo, durante o sangramento da hóstia em sua boca, durante o “Milagre de Juazeiro”.
EM MEMÓRIA DO RELIGIOSO
Assunção Gonçalves é testemunha viva
Juazeiro do Norte. Com 93 anos de idade, a artista plástica Assunção Gonçalves é a única testemunha viva que teve o privilégio de conviver com o Padre Cícero. Em sua casa, muitas memórias do amigo sacerdote. Ela guarda com carinho a rede, onde o sacerdote, muitas vezes, chorou diante das arbitrariedades cometidas por Floro Bartolomeu.
Ao fazer esta revelação, ela faz um pedido. “Eu quero que Deus me dê mais alguns anos de vida para que eu possa ver o Padre Cícero reabilitado. Ele foi um santo que previa o futuro. Lembro-me que, na inauguração do trem, na viagem de Juazeiro para o Crato, ele olhou para um plantio de milho na margem da ferrovia e disse: ‘Tudo isso aqui, futuramente, vai ser uma grande cidade’”. Ela conta que uma vez perguntou ao padre o motivo pelo qual as janelas da casa da Rua São José, onde ele morava, eram tão grandes. “Um dia esta casa será a residência episcopal”, respondeu. A lembrança mais forte da convivência é a utilização do mata-borrão que ela usava para enxugar os textos escritos com pena e tinteiro pelo Padre Cícero. Ele recorda a bola de vidro que servia de peso para segurar os papéis em cima da mesa. “Era um peça colorida, parecida com um caleidoscópio,” lembra.
No quarto, num local que nem ela sabe, estão guardados os fios da barba do Padre Cícero. “E um pedaço dele que eu guardei comigo”, afirma.