Memórias de Viçosa ganham edição póstuma

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Filhos de Juca Fontenelle lançam, hoje, a segunda parte do livro de memórias do pai, sobre fatos de Viçosa

Fortaleza. No serão das noites serranas de Viçosa do Ceará, a família Fontenelle costumava se reunir na sala de visitas para ouvir as histórias e lembranças do patriarca, Juca. A esposa, dona Nilza, e os filhos (cinco homens e duas mulheres) ouviam atentos o que ele contava, na tradição da reunião familiar noturna. Era início dos anos 60, um tempo em que a luz elétrica era novidade recente numa cidade tão pequena, distante 348 quilômetros de Fortaleza. Vez por outra, algum amigo passava pela casa para trocar "um dedo de prosa", acompanhada por uma dose da conhecida cachaça viçosense, servida para espantar o frio e relaxar o corpo após um dia de trabalho.

Anos depois, já em Fortaleza, a insistência dos filhos fez com que Juca Fontenelle colocasse no papel as histórias e causos que ainda hoje fazem parte do imaginário daquela cidade. Após o lançamento de "Viçosalianas", em 2002, o escritor começou a trabalhar num segundo volume de memórias, mas a morte do patriarca, ocorrida em abril de 2009, não deu tempo para a publicação.

Agora, após um esforço dos filhos para organizar o manuscrito e reunir depoimentos de amigos e parentes, chega ao público o livro "Viçosalianas II". O lançamento acontece, hoje, às 20 horas, no Memorial Clóvis Beviláqua, em Viçosa do Ceará, com a presença dos filhos, amigos e ex-alunos do homenageado. Na Capital cearense, a previsão é de que o livro seja lançado na última semana de abril, no Centro Cultural Oboé.

Relembranças

De acordo com Adail Fontenele (a grafia do nome dos filhos perdeu um dos "l"), filho de Juca e titular da Secretaria de Infraestrutura do Estado (Seinfra), a infância dele e dos outros seis irmãos foi marcada pelas histórias contadas e recontadas pelo pai a respeito dos mais diversos temas, que iam desde os tipos humanos, fatos históricos, modos de fala interioranos até a arquitetura de Viçosa do Ceará, marcada pelos imponentes sobrados, igrejas e prédios públicos como o da Câmara.

"Quando eu era menino, alguns fatos que ele contava eram tão fantásticos que eu achava que ele inventava. Só depois que a gente percebe que a realidade pode ser tão fantástica quanto a ficção", aponta o secretário. A edição do livro foi coordenada pelo filho mais velho, o engenheiro Ronald Fontenele, mas cada um dos irmãos deu sua contribuição para que as memórias e causos dos escritos não caíssem no esquecimento.

"Cada um deu sua contribuição, na medida do possível, porque queríamos muito que o livro fosse publicado. A capa, por exemplo, foi feita por um dos netos, Rodrigo, que é arquiteto", complementa.

Atuando a maior parte de sua vida como professor, num tempo em que o mestre-escola, que dava aulas em casa, ainda era figura essencial nas cidades do Interior cearense, Adail lembra a disciplina severa e o amor aos estudos que o pai incutiu desde cedo na prole.

"As pessoas de Viçosa diziam assim: ´os filhos do Juca são muito inteligentes!´. Mas o papai não gostava disso, porque ele dizia que as pessoas não tinham ideia de quanto esforço é necessário para poder avançar nos estudos. E acredito que esta foi a grande herança que ele deixou para nós. Apesar de não ter tido uma educação formal, foi um autodidata que tinha orgulho de todos os filhos serem formados", ressalta.

Conflitos

Dentre as muitas histórias contadas em "Viçosalianas II", Adail Fontenele destaca o que o pai chamou de "carnificina da Tabatinga", em referência ao conflito deflagrado no Sítio Tabatinga entre duas importantes famílias locais: a família Correia, conhecida em Viçosa como os "Macacheiras", e a família Costa, chamados também de "Juritis". A tragédia ocorreu na noite de 6 de outubro de 1878, quando um tiro acidental disparado pelo major Inácio José Correia atingiu a jovem Francisca Feliciana, que se encontrava junto à cancela que comunicava a estrada com a casa de seu pai, Francisco Gonçalves da Costa.

Vivendo em propriedades vizinhas, logo os "Juritis" iniciaram um ataque contra a família rival, seguido por um grande tiroteio e culminando com a invasão da propriedade dos "Macacheiras", cuja casa foi incendiada com os moradores dentro. "Quem se arrisca a julgar qual é a parte inocente? E haverá alguém inocente, ou direta e indiretamente, todos concorreram para tal desgraça?", pergunta-se o autor do livro.

Além desta segunda parte das memórias de Juca Fontenelle, viçosenses como o jurista José Feliciano de Carvalho, a professora Tereza Cristina Mapurunga, o historiador José Mapurunga e outros nomes importantes fazem uma terna homenagem póstuma ao professor e escritor. Filhos e netos também aproveitaram o espaço para lembrar o contador de histórias.

Memória

"Quando era menino, alguns fatos que ele contava eram tão fantásticos que eu achava que ele inventava"
Adail Barreto, Secretário de Infraestrutura e filho do escritor

Edição

1.000
Exemplares é a tiragem do livro "Viçosalianas II", do escritor Juca Fontenele. Livro conta histórias sobre fatos históricos e curiosidades sobre a vida em Viçosa do Ceará.

Fique por dentro
Amor ao saber

José Victor Fontenelle Filho nasceu em 23 de fevereiro de 1920, em Viçosa do Ceará. Estudou no Seminário São José, em Sobral, onde tomou gosto pelo saber e pelas letras. Como não seguiu a carreira de padre, voltou para Viçosa, onde passou a atuar como mestre-escola, ensinando as primeiras letras a gerações de crianças e jovens. Autodidata, aprendeu francês e chegou a dar aulas em outros municípios, como Itapajé, Guaraciaba do Norte e Santa Quitéria. Em 1964, passou em um concurso público para oficial de administração do Governo Federal, e dez anos depois foi chamado para assumir o cargo. Trabalhou até 1990 como secretário do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Ceará (UFC), de onde só saiu por conta da aposentadoria compulsória. Faleceu em 2009, aos 89 anos de idade e com um livro publicado.

MAIS INFORMAÇÕES
Livro "Viçosalianas II"
Lançamento, hoje, às 20 horas, no Memorial Clóvis Beviláqua, em Viçosa
Preço: R$ 15,00

Karoline Viana
Repórter