Lotação em Jeri evidencia falta de planejamento, avalia especialista

Para especialista e empreendedores, os maiores responsáveis são os próprios visitantes, que descumpriram, principalmente, a obrigação do uso de máscara de proteção

Legenda: A maioria dos frequentadores não usaram máscaras de proteção
Foto: Edson Silva

Rede hoteleira com 100% de sua capacidade, praias e barracas lotadas, enquanto frequentadores e turistas, em sua grande maioria, não utilizavam máscaras de proteção. Este foi o cenário encontrado na vila de Jericoacoara, no último fim de semana, se estendendo ao feriado da Independência, ontem (07). 

“Houve uma falta de autorresponsabilidade do turista. Se eu gosto do lugar, tenho que cuidar”, avalia Fernando Elpídio Araújo, professor de marketing e mestre em Turismo. As reservas em hotéis e pousadas foram autorizadas, seguindo os protocolos sanitários, mas a regulamentação previa que sócios, administradores e responsáveis deveriam agir para manter o distanciamento mínimo e preservar a saúde de seus clientes e funcionários, não foi adotada em sua totalidade.

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A situação foi ainda pior em barracas de praias e restaurantes, autorizados a funcionar das 7h às 18h, com público limitado a 50% de sua capacidade, dimensionada antes do retorno. Porém, isso não foi cumprido e mesmo em horários mais extensos, como às 22 horas, foram registradas aglomerações.  

“O que se viu ali passa longe de qualquer plano seguro, responsável”, enfatiza Elpídio. Na sua avaliação, houve uma falta de planejamento para a retomada do turismo em todo o Ceará. “Isso foi visto na Ibiapaba, no Maciço do Baturité, na Rota das Falésias”, acrescenta. 

O professor acredita que deve haver um cuidado coletivo e minimiza a responsabilidade de empresários.

“As pessoas podem criar a imagem que os empreendedores do local não têm cuidado, mas não é isso. É o comportamento do próprio turista, que coloca em risco não só a população, mas os colabores. Não se encontrava um garçom, um dono de pousada, sem máscara, sem manter distanciamento, mas a grande parte dos visitantes não cumpriu”, pontua.   
  

O presidente do Conselho Empresarial da vila de Jericoacoara, Oswaldo Leal, concorda e acredita que o episódio se deu porque não se via tanta gente há muito tempo ali. “A ocupação dos hotéis ficou 100%? Que bom. O problema seria se ficasse 101%, porque teria gente sem ser atendida. Os turistas é que não respeitaram os protocolos. O atendimento das pousadas e restaurantes foi normal dentro das possibilidades. A exigência de uso de álcool em gel e máscara foi feita. O erro foi dos turistas”, avalia.   

O decreto municipal não impôs restrições a capacidade dos hotéis e pousadas, desde que cumprissem os protocolos, que viu suas 7.500 vagas serem ocupadas. “O problema é que lida com público. A gente vê isso em Fortaleza, em Canoa Quebrada. É um setor que foi afetado brutalmente. Eles dependem do fluxo de pessoas. A pessoa precisando vender, vai se desgastar com turista? Eles têm muito medo que venha uma segunda onda (de contaminação), que tenha que fechar de novo, porque eles vivem disso”, pondera Elpídio.     

Planejamento 

Desde abril o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) vem elaborando um plano de retomada do turismo para a Rota das Emoções, que inclui Jericoacoara, o Delta do Parnaíba, no Piauí, e os Lençóis Maranhenses, no Maranhão. O processo está em construção junto com a comunidade, desde o final de agosto. O objetivo é implantar a cultura sanitária e a promover o roteiro nacionalmente.    

Suilany Teixeira, articuladora do Escritório Regional Norte do Sebrae, acredita que a população precisa se sentir parte do plano para ter responsabilidades. “O que aconteceu no último final de semana traz um prejuízo enorme. É um destino que inclui três estados, 14 municípios. Esse impacto de ocupação e as pessoas sem nenhum cuidado, gera uma imagem negativa”, pondera.    

Por outro lado, ela acredita que isso pode servir de alerta para que o poder público tenha mais cuidado junto aos empreendedores, que passaram praticamente cinco meses parados, sem retorno financeiro e que isso acabou causando uma pressão pela liberação das atividades comerciais. “Agora, precisa de avaliação, ponderação e restrições. Nem tudo tem que ser visto pela ótica negativa. Por isso, queremos implantar a cultura sanitária. A gente fala ‘cultura’, porque isso não deve ser uma coisa passageira”, finaliza Suilany. 

Até agora, Jijoca de Jericoacara registrou 750 casos da Covid-19 e soma 10 óbitos pela doença. A taca de letalidade é de 1,3. O Município, assim como a macrorregião do Sobral, está na Fase 4 do Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais.  

O Sistema Verdes Mares tentou contato com a Prefeitura de Jijoca de Jericoacara, questionando as medidas adotadas para evitar as aglomerações e a falta de cuidados sanitários registrados no último final de semana, mas até a publicação desta matéria não tivemos resposta.   

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