Índios Canindé mantêm cultura viva

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Foto: André Lima
“É Deus no Céu, o índio na terra. É Deus no Céu, o índio na Terra. Quero ver quem pode mais. É Deus, no céu”. Este é o som entoado, ainda hoje, nas Quebradas dos Fernandes, na divisa entre os municípios de Aratuba e Canindé, pelos descendentes dos índios canindé, tribo que habitou a região no século XVIII. “O canto é ensinado de geração a geração, como principal arma de resistência. É através dele e de outras manifestações culturais que os mais antigos ensinam às novas gerações a importância de se preservar a cultura e manter o orgulho de ter nascido índio”, ressalta José Maria Pereira dos Santos, ou simplesmente, cacique Sotero. Reconhecida como comunidade indígena desde 2003, por força da resolução 196, de 1988, a comunidade da Quebrada dos Fernandes é formada por 140 famílias - destas, 98 se reconhecem como índios, o restante nega a descendência - que habitam uma área de 600 hectares. Esta área conforme cacique Sotero, ainda não foi demarcada e se constitui em uma das grandes pelejas dos índios de Aratuba. “Já fizeram de tudo para nos tirar daqui. Mas a terra é nossa e vamos resistir, como fizeram os nossos avós”, disse Sotero, ressaltando que seu bisavô foi apanhado nos matos feito bicho, “a dente de cachorro”, e domesticado (catequisado) pelos brancos e como os canindé eram nômades, chegaram naquelas quebradas fugindo da seca de 1905.

Mas resistir não é tudo. Para Sotero, o mais importante ainda é preservar a cultura entre os descendentes. É que o preconceito que sempre perseguiu as famílias indígenas, desde a colonização do País, fez com que, até hoje, algumas pessoas negassem as raízes. “Temos famílias que teimam em dizer que não são índios, porque nós indígenas somos selvagens feito bicho”, observa Sotero. Para ele, essa negação da raça é fruto da caça e exploração sofrida pela etnia no passado. “Naquela época dizer que era índio era pedir para ser renegado como gente. O jeito era inventar que era branco, para continuar vivo”, completa.

Mas, a perseguição e a exploração não foram capazes de dizimar a etnia. Hoje, os canindé de Aratuba mantêm os mesmos costumes dos antepassados: alimentação a base do milho, feijão e caça, além da dança do toré nas datas festivas. “A produção agrícola a gente não vende. O que sobra da safra, a gente guarda para comer no verão”, diz Sotero.

Quanto à caça, embora Aratuba esteja dentro da Área de Preservação Ambiental do Maciço de Baturité, as famílias aborígines ainda mantêm o costume. Mas, como ressalta o cacique, de forma ordenada. “A gente mantém uma área, a Terra da Gia, que é uma área de reserva de nossas caças. Lá a gente tem o mocó, tamanduá, peba, camaleão, tejo, preá, entre outros animais que nos serve de alimentação. Porém a gente nunca mata de forma predatória”, alega. (CM)