História é revivida por remanescentes
A memória do passado ainda é presente nas falas de pessoas que viveram na época. O movimento liderado pelo beato Zé Lourenço, as secas em Iguatu, os campos de concentração em Quixeramobim, a ferrovia no Interior e a influência da Igreja Católica na origem de Sobral são fatos revividos por remanescentes.
Antônio Vicelmo
sucursal Crato
A capela do Caldeirão, que tem como padroeiro Santo Inácio de Loyola, foi o pouco que sobrou de um paraíso agrícola, regado com sangue, suor, oração, trabalho e lágrimas, que alimentou cerca de duas mil pessoas que viviam sob a liderança do beato José Lourenço. Em 1936, a comunidade do Caldeirão foi destruída pelas forças do governo com o apoio da Igreja Católica e da elite da época, em nome da ordem, da disciplina e da ameaça comunista.
Um dos poucos remanescentes do Caldeirão, ainda vivo, é o aposentado Antônio Inácio da Silva, 77 anos, residente no Sítio Ramada, Município de Santana do Cariri. As imagens do Caldeirão e do beato, ou “Meu Padim”, como eles tratam Zé Lourenço, estão cada vez mais presentes em sua imaginação. Ele diz que seu pai, João Inácio, chegou no Caldeirão, em 1934, procedente de Campina Grande, Paraíba, carregando uma “reca” de 9 filhos e a mulher. O beato os acolheu com todo carinho. “A gente vivia do trabalho e da oração. Não faltava nada. Todos vestiam roupas pretas, em sinal de luto pela alma de Padre Cícero, que morreu em 1934. Os vestidos das mulheres iam até o meio da canela”, conta. “Ninguém dizia um palavrão. Se, por acaso, alguém se feria com um pedaço de pau, e respondia com um nome feio, o beato identificava o pau e não o levava para o fogo”.
Antônio Inácio confirma história de outros remanescentes, ao afirmar que não morreu ninguém durante a invasão da Polícia em 1936. Os soldados, armados de fuzis, ameaçavam os romeiros. “Alguns dos seguidores do beato foram presos dentro do engenho de pau. Meu pai, João Inácio, ao ser preso e ameaçado de morte, disse resignado: ‘Seja feita a vontade de meu Padim. Eu não nasci para semente, podem me matar’. Outros ficaram cercados no meio do tempo. Os soldados destruíram tudo, mas alguns dos policiais não concordavam com aquela violência”. Antônio Inácio conta que um dos soldados se deitou numa rede na varanda da casa de seu pai e desabafou, dizendo que aquilo era uma injustiça. E, reservadamente, desabotoou a túnica e mostrou um rosário, com uma medalha do Padre Cícero.
Depois da invasão policial, muitos romeiros subiram a Serra do Araripe a procura de um abrigo. “Daí pra frente, o sofrimento aumentou. Um tio meu passou 13 dias de fome. A gente se alimentava de mel de abelha e frutos silvestres, quando encontrava”. No seu depoimento dramático, Antônio Inácio acrescenta que o clima era de medo, os romeiros viviam escondidos dentro do mato, mas sempre em contato com o beato que também permanecia na área.
Além da perseguição policial, os romeiros enfrentavam também a ira de alguns proprietários rurais. Antônio Inácio lembra que o pai dele plantou uma roça de abacaxi. Quando as frutas já estavam para colher, o dono da terra ameaçou queimar tudo, não queria ninguém ali. A promessa foi cumprida. João Inácio juntou a mulher e os 9 filhos e se “entocou” dentro de casa, dizendo: “daqui, ninguém sai, se esse for o nosso destino, vamos morrer todos juntos”. De repente, segundo Antônio Inácio, veio um vento, que empurrou o fogo para longe da casa.
Finalmente, o beato conseguiu comprar um pedaço de terra, no Sítio União, município de Exú (PE), para onde seguiram os remanescentes do Caldeirão, dentre os quais, Antônio Inácio e seus irmãos que permaneceram na nova comunidade até a morte de Zé Lourenço, em 1946, de peste bubônica.
Antônio Inácio conta que participou do cortejo que conduziu o caixão mortuário do beato, de Exú para Juazeiro do Norte. “Nós saímos, de pés, da casa de Zé Lourenço às 4 horas da tarde e chegamos em Juazeiro, onde o corpo foi sepultado, no outro dia, às 7 horas da manhã. Mesmo debaixo de chuva, os seguidores do beato acompanharam o cortejo. De vez em quando, parava, no meio da serra, para esquentar o frio com uma bicada de cana. Uma das vezes, eu fiquei sozinho, ao lado do caixão. Mesmo morrendo de medo de alma, permaneci ao lado do Meu Padim até a chegada dos companheiros”.