Estudo prevê 80% dos casos de chikungunya que terão dores crônicas

Pesquisa da Fiocruz foi desenvolvida nos municípios de Maranguape, no CE, e Campo Formoso e Itabuna, na Bahia, entre 2016 e 2018. A análise conseguiu prever oito em cada 10 pessoas que terão sequelas futuras devido à doença

Legenda: É preciso atenção para não deixar água parada, evitando, assim, que o mosquito Aedes aegypti se prolifere e transmita doenças
Foto: FABIANE DE PAULA

O mosquito Aedes aegypti é vetor de arboviroses como zika, dengue e chikungunya. Esta última, pode deixar sequelas graves. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estima-se que 50% dos infectados com a doença desenvolvem dores crônicas nas articulações mesmo após a fase aguda da doença.

Buscando mitigar tais impactos, pesquisadores da entidade realizaram um estudo com 230 pessoas de municípios do Ceará e Bahia, entre 2016 e 2018, visando identificar os principais fatores de risco na fase aguda da chikungunya. O objetivo é poder tratar já no início pacientes com probabilidade de desenvolver artralgia crônica (dores nas articulações a longo prazo)

O estudo, publicado em junho deste ano, consegue prever 8 em cada 10 indivíduos que continuarão com dor articular por pelo menos um ano. A cearense Maria Josinete Braga é uma das tantas que ficou com sequelas. "Aconteceu em março de 2017. Fui dormir e, no dia seguinte, não conseguia mais ficar em pé, sentindo muita dor de cabeça, febre alta e uma dor no corpo insuportável". As dores e incômodos acompanham Josinete há três anos.

Com a pesquisa, relatos como estes tendem a ser menos frequentes. "Fomos em busca de pacientes com sintomas de arboviroses nas cidades com surtos e pegávamos amostras de sangue, saliva e urina", explica Viviane Boaventura, pesquisadora da Fiocruz Bahia e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.

Resultados

Após análise das amostras, a pesquisa constatou que pessoas que desenvolvem dor persistente para a chikungunya a longo prazo possuem cinco características particulares, já detectáveis na fase aguda da doença: são indivíduos do sexo feminino, hipertensos, tiveram edema na pele e dor na região dos olhos, e indivíduos com mais de 26 anos.

"As características clínicas fizeram a gente criar um prognóstico, transformado em uma calculadora online. Então, quando um paciente é atendido, o médico pode olhar na ferramenta e ver se ela se encaixa no perfil", destaca Boaventura.

O diagnóstico precoce contribui para a formulação do tratamento mais adequado ao paciente. A ferramenta é gratuita e está disponível em português e inglês.

O médico infectologista Keny Colares explica que a chikungunya tem uma prevalência de dor crônica maior que as outras arboviroses. "Algumas pessoas com zika ainda têm algum sintoma mais forte, mas a chikungunya causa complicações de meses e até anos. É, certamente, muito mais grave", avalia.

"Temos uma resposta eficaz do cuidado na parte aguda da doença, mas, para o tratamento ao longo do tempo, ainda não se criou um local no Ceará onde a pessoa possa procurar soluções", complementa.

Josinete sente estes impactos no dia a dia. "Quando fui ao médico, na época (2017), ele disse que era chikungunya e que eu botasse na minha cabeça que ela deixa sequelas para o resto da vida. Hoje, quando volto da rua, meu pé direito e os dedos incham. Tenho que me acostumar. A dor é constante, mas piora no inverno", lamenta a dona de casa.

Cenário

A epidemia de chikungunya no Ceará aconteceu em 2017, quando o Estado notificou 80,1% dos óbitos pela doença ocorridos no País naquele ano, segundo o Comitê de Investigação de Óbitos por Arboviroses no Ceará.

Hoje, a situação para a doença é menos intensa. Conforme a Sesa, houve uma redução no número de casos no primeiro semestre deste ano em relação a igual período do ano passado - de 916 para 407. Por outro lado, o Estado registrou aumento de 32,3% nos casos de dengue e de 180% nos de zika.

Para o presidente da Associação dos Prefeitos do Estado do Ceará (Aprece), Nilson Diniz, essa situação geral das arboviroses foi agravada pela pandemia.

"Estamos tendo dificuldades para manter o trabalho junto à população. Há dificuldade de visitar as casas, o que limita o trabalho. Associado a isto, tivemos uma baixa no larvicida (inseticida usado para matar as larvas do aedes aegypti), que é repassado pelo Governo Federal. Ainda assim, felizmente, as arboviroses têm letalidade muito menor que a Covid-19", ressalta.

Veja a pesquisa na íntegra.

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