Cultura e mistérios mantidos pelos Fulni-ô

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As tradições do povo Fulni-ô chamam a atenção de brasileiros e estrangeiros, mas é difícil mantê-las

Águas Belas / Carnaubeira da Penha (PE) Em pleno sertão de Pernambuco, não é preciso procurar muito para achar, na sede do município de Águas Belas, a 320Km de Recife, a entrada da aldeia Fulni-ô. O primeiro povo indígena daquele Estado reconhecido oficialmente pelo então Serviço de Proteção ao Índio (SPI), ainda na década de 1920, até hoje não tem garantido legalmente suas terras tradicionais, conforme a antropóloga Caroline Farias Leal, que é professora do curso de Licenciatura Indígena da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

No território sagrado do Ouricuri, não-índio só entra a convite Foto: Eduardo Queiroz

As principais características desse povo são de resistência cultural, manifestadas pela manutenção da língua, o Yaathê, e o ritual do Ouricuri, realizado anualmente nos meses de setembro a novembro, numa espécie de retiro espiritual para uma outra aldeia, erguida especificamente para este fim.

Território sagrado

Lá, onde o não-índio só entra a convite, eles revivenciam suas tradições fortemente ligadas à natureza, só se comunicam em Yaathê e respeitam seus rituais, alguns deles secretos. Todos os Fulni-ô têm como norma a proibição de falar sobre esses rituais.

Vale destacar que a nossa equipe teve a honra de cruzar a Caatinga, que não tem visto muita chuva, passar pelas placas com recomendações como "Não se aproxime", e "Proibida a entrada" e pisar o território sagrado dos Fulni-ô. Entre as poucas informações que os não-índios têm acesso está a existência de uma linha imaginária na aldeia, que as mulheres não podem cruzar, lá, os homens pernoitam durante os três meses rituais.

No Ouricuri há uma série de proibições. Entre elas, a de manter relações sexuais, ouvir música, inclusive assobiar, ou consumir bebidas alcoólicas. Quando um Fulni-ô na cidade ou na aldeia do Posto Indígena toma alguma bebida alcoólica, nem pode ir à aldeia do Ouricuri.

Antigamente, a aldeia ritual era constituída por casas feitas com a palha de ouricuri, típica da região, daí o nome. A cada ano, ao aproximar-se a abertura do ritual, os índios levantavam suas respectivas casas, as quais desmontavam ao fim do mesmo. Hoje, as casas são permanentes.

Fomos conduzidos até a aldeia pelo guerreiro Fulni-ô Idiarrury Severo de Araújo, 30, que é também professor de História na Escola Bilíngue Antônio José Moreira (Tuni Xise), fundada em 1988 por iniciativa da própria comunidade, tendo à frente Marilene Araújo de Sá (Wadja).

Ensino diferenciado

O professor só lamenta que a estadualização da escola atrapalhe a manutenção dos costumes. Como entre setembro e novembro tudo para na aldeia, inclusive as aulas, para os rituais do Ouricuri, o Estado alega que a escola não cumpre as 200 horas-aula. "O Ouricuri faz parte da escola, da educação. O Estado não quer entender isso. Com o Ouricuri, passamos muito de 200 horas, porque é nele que nos fazemos Fulni-ô. A língua do nosso povo se proliferando é prova de que nossa pedagogia é correta", protesta. Os professores explicam que o Estado também exige que todos descrevam o conteúdo das aulas, outra complicação, pois o ensino do Yaathê está ligado ao Ouricuri, ritual sagrado e secreto, então como descrever o ensinado se isso interfere numa tradição do povo?

Estereótipo

Idiarrury, como outros indígenas que entrevistamos, relata as dificuldades de se reafirmar indígena no Nordeste deste século XXI: "O estereótipo parou há 512 anos. A sociedade não aceita que não sejamos pobres, nus e sem tecnologia. Quando mostramos que temos potência mental, somos rotulados como não-indígenas. O que nos faz indígena é a cultura, as tradições e não onde moramos e como nos vestimos".

Em carta dirigida ao governo federal, em março do ano passado, os Fulni-ô resumem a necessidade da demarcação das suas terras: "Para nós, Fulni-ô, a terra é muito mais do que um simples meio de subsistência. Ela apresenta o suporte da vida social e está diretamente ligada ao sistema de crenças e reconhecimento do nosso povo. Não apenas um recurso natural - tão importante quanto este - é um recurso sociocultural no qual desenvolvemos, repassamos e produzimos nossos conhecimentos e crenças". E destacam: "embora os índios detenham a posse permanente e o ´usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos´ existentes em suas terras, conforme a Constituição, elas constituem patrimônio da União. E, como bens públicos de uso especial, as terras indígenas, além de inalienáveis e indisponíveis, não podem ser objeto de utilização de qualquer espécie por outros que não os próprios índios".

Idiarrury confirma que a luta com a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem sido difícil, ao longo dos últimos 20 anos. Segundo ele, o último censo contou cerca de seis mil índios Fulni-ô aldeados e a reivindicação de posse permanente diz respeito a cerca de 40 mil ha. "Nos questionam para que índio quer tanta terra, mas ninguém contesta esse território nas mãos de seis fazendeiros. Pessoas do mundo inteiro já ouviram falar no nosso retiro espiritual do Ouricuri. São três meses em que vivemos como nossos antepassados. Precisamos de coisas da natureza que ficam nos arredores da aldeia", afirma.

E continua: "É a cultura que dá sentido à vida de um povo. Se você tira a cultura e a crença, está matando esse povo. Tanto faz a morte real quanto em espírito. A terra indígena é necessária para a nossa reprodução física e cultural. A nossa luta pela terra já foi a juízo e perdemos no Superior Tribunal de Justiça. Há mais de 300 anos não vamos para a guerra, mas está chegando a hora de voltarmos a lutar. É bom arranjar um presídio bem vago".

Oásis no sertão

Em seus 900 metros de altitude, a Serra do Arapuá, no pequeno município de Carnaubeira da Penha, a 426Km de Recife, é comparada, pela antropóloga Caroline Farias Leal, a "um oásis em pleno sertão, com mais de 90 nascentes a garantir água para os moradores da serra e do sertão". Lá, o processo de reorganização política do povo Pankará é relativamente recente, iniciado em 1999, com o estudo antropológico que contribui para o reconhecimento, pela Funai, do etnônimo Pankará, a partir de 2003, depois de meio século de invisibilidade.

"Se ao fim do século XIX os povos indígenas em Pernambuco eram tidos como extintos ou incorporados à sociedade nacional, endossando o contingente de trabalhadores rurais, no século XX reaparecem no cenário político da região reivindicando direitos ao SPI, entre eles, na década de 1940, um grupo que se autodenominava etnônimo Atikum, formado por ´caboclos´ das serras Umã, Arapuá e adjacências. Assim começa a se delinear a (re)construção histórica dos Pankará, dando feições ao grupo como o percebemos hoje", descreve a antropóloga.

Os Pankará estão organizados em 62 aldeias, localizadas na serra, agreste e sertão. Nelas, há 18 escolas e 11 anexos. A coordenadora pedagógica da escola da Aldeia Enjeitado, Ana Maria Barros, 29, destaca a relação que o povo Pankará mantém com o Quilombo Tiririca, que respeita e pratica os rituais dos antepassados. "Só temos a aprender com nossas diversidades culturais", afirma. No caso específico dos Pankará, a estadualização das escolas foi considerada um avanço, na medida em que reduziu a interferência local no ensino dentro das aldeias. "É algo que temos que preservar porque corre o risco de acabar, principalmente entre nós, os mais jovens", afirma Advânia Alina da Silva, 20, a Diva, que é coordenadora do grupo de jovens na aldeia.

A liderança social e política dos Pankará é de Maria das Dores Santos Silva, 48, a cacique Dorinha, que destaca a importância da luta para a garantia das conquistas que o povo vem obtendo, principalmente a preservação dos aspectos culturais, reforçados por seu pai, Pedro Luís dos Santos, 82, o pajé Pedro Limeira: "Só assino meu nome e há pouco tempo. Tudo o que aprendi foi com Mãe Natureza. A mata é sagrada. Eu a preservo e ela me dá sabedoria e ciência".

MARISTELA CRISPIM
EDITORA DE REPORTAGEM

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Contextualização geral dos povos indígenas em PE

Em Pernambuco há 12 povos indígenas - Kapinawá, Xukuru, Fulni-ô, Tuxá, Kambiwá, Pipipã, Pankararu, Pankararu Entre Serras, Pancaiuká, Atikum, Pankará e Truká - localizados no agreste e sertão, totalizando 53.284 indivíduos (IBGE, 2010). O Estado registra a quarta maior população indígena do País. Falam o Português, à exceção do povo Fulni-ô, bilíngue, cuja língua é por eles denominada de Yathê. Estão organizados politicamente em duas organizações indígenas: a Articulação dos Povos Indígenas no Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme) e a Comissão de Professores Indígenas em Pernambuco (Copipe).

A história pode ser compreendida a partir do processo de resistência indígena no período colonial e século XIX, e do processo político-cultural de emergência étnica iniciado no século XX. As primeiras explorações no interior de Pernambuco datam do século XVI, na região do São Francisco, resultando nos primeiros conflitos dos indígenas com a frente de colonização que chega aos sertões nordestinos com interesses na expansão pecuária. Até o século XIX há registros oficiais que demonstram a forte presença e resistência indígena.

No século XX, surgem no cenário nacional reivindicando seus direitos territoriais ao Estado brasileiro. Entre os vários movimentos políticos e rituais para a reconquista de seus territórios tradicionais destacam-se a participação dos povos indígenas em Pernambuco na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 e a luta direta pela retomada de suas terras, que tem como importante líder o cacique Xicão Xukuru, assassinado em 1998.

A luta pela Mãe Terra garante a vida aos povos indígenas e os articula historicamente. Também sustenta um interessante fluxo cultural e epistemológico baseado na aldeia da construção do bem viver como projeto societário de descolonização, que valoriza os saberes dos anciãos, o cuidado com a natureza sagrada, os princípios da reciprocidade e da organização do trabalho coletivo e a construção de saberes e conhecimentos coletivos, conjunto de ideias e de práticas que aproxima essas 12 etnias e as distinguem da sociedade nacional.

CAROLINE LEAL
Antropóloga do Cimi, regional Nordeste