Freguesia é fiel nas bodegas

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O comércio das bodegas ainda resiste em bairros de municípios do Interior. A fidelidade da clientela é característica

Crato. No momento em que a cidade inaugura uma filial das Lojas Americanas, os saudosistas relembram as velhas bodegas que foram os embriões das grandes lojas e supermercados que fascinam as novas gerações. Mesmo diante da evolução comercial, com cartões magnéticos, compras virtuais e instalações modernas que colocam o cliente em contato direto com a mercadoria, a bodega ainda sobrevive, com o velho balcão e o amontoado de bugigangas. Nada substitui o calor humano transmitido pelo bodegueiro que conhece a vida de sua clientela, sempre fiel.

É o caso do bodegueiro Miguel Félix Pereira, proprietário de uma bodega, no Bairro Pinto Madeira, em Crato. O conforto e o símbolo de prosperidade estão no pé da calçada, onde está estacionada uma camioneta último modelo de propriedade do bodegueiro. Do lado de dentro, a história é outra.

Provinciano

Por trás do balcão de madeira, cercado de uma parafernália de mercadorias, Miguel Félix revive um comportamento provinciano que contagia a clientela que ele conhece pelo nome. Afinal são 45 anos de balcão.

A pipa de cachaça fica no fundo da bodega. É o reservado, o refúgio dos bêbados pobres ou alcoólatras que amanhecem o dia de garganta seca, mãos trêmulas, a procura da primeira dose.

A pipa, com capacidade para 200 litros, é abastecida quinzenalmente por Newton Peixoto, proprietário de um engenho e uma destilaria no sopé da Serra do Araripe. Cada dose de “cana” custa em média 20 centavos. “Ninguém encontra cachaça desse preço no mercado”, diz o cliente, Francisco Alberto de Morais, conhecido por “Boy”, filho do famoso sargento Morais, que se tornou conhecido no Crato porque não prendia ninguém.

A bodega é o espaço livre que se transforma na dispensa da casa do pobre. O dente de alho, o pacote de arroz, a garrafa de manteiga estão, disputando o mesmo espaço, com canos, torneiras, alicates, serrotes, uma variedade de mercadorias que satisfazem a clientela no preço, no prazo e, sobretudo, no atendimento personalizado a cada cliente.

A diferença está no atendimento. “Aqui a gente compra, por um exemplo, meio quilo de cimento, 50 centavos da margarina, meio pacote de café”, diz o fiel consumidor, o eletricista, João Lacerda Pereira.

É verdade. O bodegueiro faz questão de ratear as mercadorias para atender às pessoas que só precisam de uma pequena quantidade. “A partir de 20 centavos, eu vendo”, afirma.

Outra vantagem da bodega é o fiado. Miguel tem uma relação de mais de 200 fregueses que compram na caderneta, isto é, a prazo. Nestes 45 anos de bodegueiro, ele acumulou um prejuízo de R$ 30 mil, causado pelos maus pagadores. Ele mostra o pacote de vales, onde estão “entronizados” os velhacos. Mas ressalta que o número de bons pagadores é muito maior, “graças a Deus”.

A bodega é mais do que um estabelecimento comercial. É o ponto de encontro, o centro de informações, a principal referência da comunidade. E, pelo andar da carruagem, não vai se acabar tão cedo. Miguel já tem um sucessor: é o filho Gilson Miguel Pereira que ajuda o pai no dia-a-dia das vendas, mesmo a preços pequenos, parecem se manter estáveis.

REMANESCENTES
Mercearias tornam-se ponto de encontro

Crato. As poucas bodegas que ainda restam no Cariri são remanescentes da avalanche de mercearias, mercantis e supermercados que invadiram as cidades do Interior do Ceará. No Crato, um dos mais famosos bodegueiros foi Joaquim Ferreira Lobo, conhecido por “Joquinha”, que deu nome à ladeira que passa em frente a sua bodega, que hoje é gerenciada por seu filho, Edilberton José Menezes Lobo.

Com seus disparates antológicos, Joquinha se tornou conhecido na região. Sua bodega, na Rua Nelson Alencar, era o ponto de encontro das camadas mais populares da região que para ali se dirigiam com o objetivo de comprar, por exemplo, “uma quarta de arroz”, porque o dinheiro só dava para comprar aquela quantidade.

A bodega de Joquinha chegou ao cúmulo de vender banho. É isso mesmo. Banho com uma lata d’água, com direito a um pedaço de sabão para esfregar o grude. E o mais curioso. Na parede do banheiro, estava escrita uma advertência: “Depois do banho, bote o fundo para cima para não enferrujar”. É claro que ele se referia ao fundo da lata.

A bodega de Joquinha continua viva nas mãos de seu filho “Edilberton”, no pé da ladeira de Sargento George Teles Sampaio, um nome oficial que foi substituído pelo povo por “Ladeira de Joquinha”, numa homenagem a um dos conhecidos bodegueiros do Cariri. Edilberton, que nasceu e cresceu dentro da bodega do pai, ainda não quis promover a sua bodega à mercearia.

Caldeira do Inferno

Na contramão da ordem natural do comércio, que transforma pequena venda em bodega, mercearia, mercantil e supermercado, a Caldeira do Inferno, no município de Brejo Santo, seguiu o caminho de volta.

A velha bodega foi transformada em adega, com o nome de Caldeira do Inferno, por ser o ponto de encontro de políticos, aposentados empresários e, principalmente, boêmios e transeuntes que voltam do trabalho para casa e ainda encontram tempo para saborear uma cerveja gelada.

A Caldeira do Inferno, ponto de distribuição do jornal Diário do Nordeste, reduto de vascaínos e flamenguistas, é o espaço democrático dos moradores de Brejo Santo, uma extensão bem familiar da adega da casa de cada um. A voz de Nelson Gonçalves ecoa por entre as brechas do balcão de madeira. “Mas, se passa pela rua algum amigo, em cuja porta a desgraça não bateu grito que entre neste bar, beba comigo. Hoje quem paga sou eu”.

Com 66 anos de idade e o coração sacolejado pelo tempo, com três pontes de safena, colocadas recentemente, o proprietário Chico de Sinésio pretende comemorar o centenário da Caldeira do Inferno com uma festa entre os amigos.

No momento, Chico Sinésio está reformando o prédio, arrumando a casa para reassumir as suas funções de “cão-chefe” da Caldeira.

Católico praticante, amigo do vigário, padre Dermival, Chico de Sinésio explica que o nome Caldeira do Inferno não tem nenhum sentido profano. O objetivo é mostrar que a sua ex-bodega “é um ponto de encontro, um instrumento de confraternização, um caldeirão de idéias dos filhos e amigos de Brejo Santo”, conta.

FIQUE POR DENTRO
Poema destaca a “Bodega do Interior”

O poeta paraibano Jessier Quirino descreve a bodega como o grande supermercado popular onde se vende tudo: ´Tem uma placa de fanta encardida,/ a bodega da rua enladeirada./ Meia dúzia de portas arqueadas e uma grande ingazeira na esquina./ A ladeira, pra frente se declina/ e a calçada vai reta, nivelada./ Forma palmos de altura de calçada,/ que nos dias de feira, o bodegueiro,/ faz comércio rasteiro e barateiro/ no assoalho de lona amarelada./ Se espalha uma couxa de mangalhos: é cabresto; é cangalha; e é peixeira; urupemba´.

Mais informações:
Mercearia de Miguel Félix, Rua José Marrocos, esquina com Monsenhor Assis Feitosa, Bairro Pinto Madeira
(88) 3523.8819

Antônio Vicelmo
Repórter

ENQUETE
Por que comprar nas bodegas da cidade?

João Lacerda Pereira
70 ANOS
Eletricista

A bodega é uma espécie de dispensa da casa da gente. A gente compra o que quer e como quer.

Leandro Franco de Lima
60 ANOS
Jardineiro

Beber a dose na bodega é melhor do que no bar porque com menos de R$ 1,00 a gente se embebeda.