Covid-19: Morre Raimundo Aniceto, um dos mais importantes ícones da cultura popular cearense

O brincante estava sofrendo há 22 dias por problemas cardíacos. O sepultamento acontece hoje, às 10h

Legenda: Raimundo Aniceto foi reconhecido, em 2004, Mestre da Cultura, pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult)
Foto: Augusto Pessoa

Mais antigo dos integrantes vivos da tradicional Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto e um dos mais importantes ícones da cultura popular cearense, Raimundo José da Silva, o Raimundo Aniceto, morreu na noite de ontem (15), em Crato, vítima da Covid-19, aos 86 anos. O brincante estava internado desde o último sábado, onde vinha sofrendo por problemas cardíacos.  

Mestre da Cultura reconhecido, em 2004, pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult), Raimundo era o último integrante vivo dos Irmãos Aniceto da geração formada pelos filhos de José Lourenço da Silva e Maria da Conceição. Seu avô, criou a banda no século XIX, ao pé da ao pé da Chapada do Araripe. Agora, seus sobrinhos permanecem à frente grupo.  

Segundos seus familiares, Raimundo Aniceto estava doente há 22 dias por problemas no coração, mas a Covid-19 só foi descoberta após sua internação. Antes, três exames em sua casa deram negativo para o novo coronavírus. Há quatro anos, já havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) que prejudicou sua dicção. No hospital há cinco dias, teve falência múltipla dos órgãos.   

O enterro acontece hoje, às 10h, no Cemitério Nossa Senhora da Piedade, em Crato. Antes, em frente ao local do sepultamento, acontece um cortejo, comandado pelos remanescentes do grupo. 

História  

Nascido em 14 de fevereiro de 1934, Raimundo começou a tocar na banda aos seis anos de idade junto com seus irmãos, pai e primos. Todos os instrumentos utilizados pelo grupo foram fabricados a mão pelos próprios integrantes. Os pifes são feitos de taboca e a zabumba fabricada com timbaúba e couro de bode. A produção deste último, sempre foi tarefa do próprio mestre.   

 O sucesso dos Irmãos Aniceto fez com que o grupo realizasse uma turnê na Europa, se apresentando com sucesso em Portugal e Espanha, em 2004. Em entrevista ao Diário do Nordeste, na época, o próprio Raimundo comentava a passagem pelo Velho Continente: “Tudo lá é muito bonito, mas eu prefiro o bairro Batateira, onde a gente mora”, acrescentando que a vila Crato Alentejo, em solo português, é muito parecida com o Crato cearense: “até as cores do prédio do Museu de lá são as mesmas”.    

Em agosto do ano passado, foi inaugurado o museu orgânico do Mestre Raimundo Aniceto, projeto do Serviço Social do Comércio do Ceará (Sesc/CE), em parceria com a Fundação Casa Grande de Nova Olinda, que tornou sua casa, no bairro Seminário, um espaço para visitação e preservação da história do grupo e seus instrumentos artesanais.   

Legado    

O cantor, ator e produtor cultural João do Crato lamentou a morte do mestre da Cultura e definiu a Banda Cabaçal como “a essência da tradição da ancestralidade no Cariri”. Para ele, a presença de Raimundo sempre foi fundamental.

“Sempre foi um dos grandes mestres empenhados a preservar o que vinha da oralidade, dos mais antigos, do seu pai, mas também mantinha muito a história de se reinventar. Tinha uma infinidade de peças, cânticos e apresentações”, descreve.     

Como “um menino ‘véio’ brincante”, classifica João do Crato, Raimundo tinha energia dos indígenas e trazia a magia deste universo, das lendas e histórias, no seu trabalho. “O que mais me lamenta é que essa magia, esse canto, vai se quebrando e eles davam passagens a estes elementos. Nunca o vi triste. Mesmo nas contradições, nas inúmeras viagens que fizemos, sempre teve uma coisa de alegria, a alegria de representar. A partida é dolorosa. Mas vamos ficar raiado nessa luz que ele deixou”, finaliza.   

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