Covid-19: Casos em indígenas têm tendência de queda no Ceará

Segundo boletim da Fepoince, 672 índios já foram contaminados pelo novo coronavírus durante a pandemia no Estado. Lideranças e instituições apontam que índice pode ser ainda maior. Números divergem dos informados pelo MS

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Legenda: No CE, vivem mais de 35 mil índios. Dos 19 municípios com terras indígenas, 17 já registram casos
Foto: Fabiane de Paula

O Ceará apresentou tendência de queda no número de novos casos entre indígenas na primeira semana de setembro, segundo boletim da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (Fepoince), divulgado nesta semana. A curva epidemiológica de 24 a 31 de agosto apontou 35 novos casos. Já neste mês, de 1º a 8 de setembro, o número caiu para 24. Apesar da leve melhora, a situação ainda desperta preocupação.

O Ceará soma 672 casos confirmados da doença entre indígenas e sete óbitos, segundo a Fepoince. O número diverge do informado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), órgão ligado ao Ministério da Saúde, de 595 casos (77 a menos) e cinco óbitos.

Lideranças e instituições alertam, porém, que "há muita subnotificação", o que sugere um número ainda maior. Na avaliação de Ceiça Pitaguary, coordenadora da Fepoince, a resposta da Sesai durante a pandemia não tem sido suficiente. "Quando o governador decretou o isolamento, em março, a Sesai, através do Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena), demorou a reagir e tomar as medidas cabíveis", expõe.

Pelo menos duas comunidades indígenas - Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, e Potyguara, em Monsenhor Tabosa -, se articularam para garantir a segurança sanitária e criaram barreiras para impedir entrada de visitantes. As restrições permanecem, mas muitos indígenas precisaram retornar às atividades econômicas para garantia de sustento. Próximo dos centros urbanos, a situação é mais complexa.

"Nossas terras mais próximas da Região Metropolitana de Fortaleza estão sendo invadidas todo dia. Vejo que o momento inspira cuidados, pois não temos uma vacina".

Cobertura

Atualmente, a Sesai atende 26.974 indígenas, em 17 municípios, sem considerar a população não aldeada, o que, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), reforça subnotificação e divergência de dados. Por nota, a Secretaria explicou que "o escopo legal de atuação da Sesai é específico para os indígenas aldeados cadastrados no Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena".

A Pasta ressaltou, ainda, que vem orientando e apoiando os Dsei no amparo a todos os indígenas aldeados e, também, não aldeados que precisarem.

Weibe Tapeba, assessor jurídico da Fepoince, destaca, no entanto, que este atendimento a indígenas aldeados e não aldeados se deu a partir de determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), protocolada em agosto deste ano. "Isso não estava sendo feito e mudou de umas três semanas para cá. Não é desde o início da pandemia". Mesmo com o incremento, o assessor pondera que a decisão não é suficiente.

"Não estamos sendo atendidos em plenitude. Não é só o atendimento médico em si. Temos, por exemplo, uma limitação no transporte até as unidades de saúde, que também precisa ser disponibilizado. É muito frágil ainda", acrescentou Weibe, que integra o comitê criado pelo STF pra auxiliar nas ações de enfrentamento.

Covid no mundo

Os 672 casos do novo coronavírus em indígenas no Ceará, se comparados com otras nações do mundo, colocam o Estado a frente de um quarto de todos os países. Isto é, o número de infectados pela Covid-19 em índios aldeados e não aldeados no território cearense é superior ao observado na população geral de 47 países, conforme ranking da plataforma Worldometers, que agrega estatísticas mundiais sobre a pandemia.

O Estado fica à frente de países como Tanzânia (509), que tem mais de 56 milhões de habitantes; Papua-Nova-Guiné (507), com 8,6 mi de pessoas; e Mongólia (310), 3,1 milhões de habitantes.

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