Confecção de armadilhas para capturar camarão gera trabalho e renda para artesãos no Interior do CE

Na sede do distrito de Lima Campos e em áreas ribeirinhas dos açudes Orós e Lima Campos, artesãos trabalham na fabricação das peças feitas de carnaúba

Legenda: Cerca de 60 artesão trabalham em áreas ribeirinhas dos açudes Orós e Lima Campos
Foto: Wandenberg Belém

A cadeia produtiva do camarão de açudes na região Centro-Sul do Ceará gera emprego e renda também para quem confecciona as armadilhas, chamadas de ‘covos’ ou ‘matapis’, como são popularmente conhecidas. O apetrecho é confeccionado de forma artesanal com talas de carnaúba. É produzido em larga escala no distrito de Lima Campos, na zona rural do município de Icó. 

A confecção das armadilhas reúne cerca de 60 artesãos e há mais de quatro décadas é uma importante fonte de geração de emprego e renda para a comunidade local e ribeirinhos dos maiores açudes da região. As vendas ocorrem para os pescadores dos açudes Lima Campos, Orós, Castanhão, Trussu, Banabuiú e Ubaldinho.

Luís Alexandre, 45 anos, é um dos trabalhadores de ‘casas de covos', como são conhecidas as oficinas artesanais de confecção das armadilhas. Ao lado da casa de morada, diariamente o pescador e artesão faz o trabalho manual. “A gente mesmo é que retira a matéria-prima, as talas de carnaúba, que são cortadas e trazidas para as oficinas”, explicou.

“Depois, a gente faz a limpeza e novos cortes e amarra peça por peça”. 

Habilidade e agilidade

Seguindo o tamanho padrão da armadilha, cada peça tem 40cm de comprimento. Outros pedaços menores são amarrados com quatro fios. Uma a uma, as talas vão sendo tecidas com arame, até formar uma espécie de esteira. Francisco Alexandre, 25 anos, desde os 15 começou a trabalhar na confecção de covos. O trabalho exige habilidade e agilidade

“Comecei por necessidade para conseguir ganhar algum dinheiro e ajudar a família. Tomei gosto e estou até hoje”. 

Legenda: Cada armadilha é confeccionada ao preço de R$ 6
Foto: Wandenberg Belém

A confecção das armadilhas é a fonte de sustento das famílias. Em média, cada artesão ganha R$ 200 por semana. O ganho é por produção. “Cada um trabalha por sua conta”, explicou Francisco Alexandre. 

Depois de confeccionar as esteiras, Alexandre repassa a peça para as mãos de outro artesão e pescador. Jaílson Costa, com o auxílio de uma faca bastante afiada, faz os arcos com o cipó de carnaúba. São cinco arcos colocados em cada ‘covo’ para facilitar o manuseio da armadilha. 

A etapa seguinte e final é a colocação das ‘sangras’, uma espécie de funil, que facilita a entrada do camarão, mas impede a saída do crustáceo.  Peça dispõe de uma pequena janela na qual é colocada a isca (bolinho cozido de farinha) para atrair os camarões, e por onde eles saem quando é feita a despesca.

Entre gerações

Jaílson trabalha com o pai, Francisco Costa, na confecção diária das armadilhas. “Nesse período do ano, a demanda aumenta mais do que o dobro se a gente comparar com o primeiro semestre”, disse o experiente pescador. “Meu avô veio com a família da Paraíba para morar e trabalhar aqui em Lima Campos, esse açude construído na grande seca de 1932”, lembrou.

“Todos nós somos pescadores e com o tempo aprendemos a fazer os covos”.

Acostumados, não demoram muito e em uma manhã dezenas de armadilhas estão prontas. São confeccionadas cerca de 200 por dia, na unidade da família Costa. O trabalho, que requer cuidado e muita paciência, porque são muitos cortes e amarrações para que os covos fiquem bem feitos e tenham resistência, para ficar embaixo d’água, por muito tempo.

Cada armadilha é comercializada em média a R$ 6

Legenda: O trabalho artesanal gera, em média, renda de R$ 200 por semana a cada artesão
Foto: Wandenberg Belém

O pescador e artesão, Francisco Barros explicou que na comunidade há produção de três tipos de covos, para a captura de diferentes espécies de camarão – os pequenos, médios e grandes, conhecidos por ‘pitu’. Os artesãos reclamam que o trabalho é desvalorizado e temem a concorrência das armadilhas feitas a partir de canos de PVC, que ganham cada vez mais espaço entre os pescadores

“É um pouco mais cara, mas é mais resistente”, pontua a presidente da Colônia de Pescadores de Orós, Nilda Martins. O produtor de covos, Barros, lamenta. “O artesanato não tem como enfrentar essas peças de plástico e acho que esse nosso trabalho no futuro vai se acabar”

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