Com índice de alfabetização desconhecido, ciganos reivindicam direito à educação

O acesso à políticas pública tem sido um grande gargalo enfrentando pela população cigana. O direito à educação, em específico, é um apelo que atravessa gerações

O líder cigano do Ceará, presidente do Instituto de Cultura, Desenvolvimento Social e Territorial do Povo Cigano do Brasil, Rogério Ribeiro, diz que uma das principais bandeiras dos ciganos é a educação. "Sonho com isso, uma vez que, no Brasil, a taxa de analfabetismo é de 80%. Ainda não sabemos a taxa exata no Estado. O povo cigano do Ceará não tem cultura de acampamento. Estamos dentro da cidade. Precisamos estudar e continuar lutando para conseguirmos  ser inserido nas politicas públicas, nos capacitarmos para o mercado de trabalho".

Apesar dos avanços no combate à fome, algumas comunidades ciganas permanecem com dificuldades para acessar os programas sociais e em situação de alta vulnerabilidade, segundo Rogério."Temos que enfrentar estatísticas, preconceitos, um mercado de trabalho excludente e falta de oportunidades educacionais: essa é a realidade do povo cigano no Brasil".

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No Ceará, os ciganos estavam sem representatividade durante muitos anos. Em setembro de 2017, essa realidade começou a mudar, durante uma reunião no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial, que contou com a presença dos ciganos. "Foi a partir daí que surgiu a Associação de Preservação da Cultura Cigana de Caucaia e assim iniciamos um diálogo com a Prefeitura de Caucaia e posteriormente com o Governo do Estado".

Rogério defende que "o Brasil precisa trabalhar de forma construtiva com o povo cigano para enfrentar as barreiras do preconceito, da marginalização, incluindo a estigmatização da identidade cigana, discriminações nos órgãos públicos, nos atendimentos nas esferas municipal, estadual e federal. É imperativo que as instituições educacionais sejam construídas com um padrão de direitos humanos inclusivo e respeite as culturas, visões de mundo e o dialeto do povo cigano".

História marcada por perseguições

A trajetória de Rogério Ribeiro é um exemplo dos problemas enfrentados. "Nasci na Bahia. Ainda criança fui com a família para São Paulo e depois Brasília/DF. Assim, fui criado longe dos acampamentos e ausente do meu povo". Ele formou-se em jornalismo e publicidade.

"No dia que falei na escola que era cigano, passei a sofrer uma perversa discriminação, dos colegas e da própria professora. Diziam que éramos ladrões de cavalo, trapaceiros e desonestos, um absurdo. Se sumia um lápis ou borracha na sala de aula, a primeira mochila a ser revistada era a minha"

Posteriormente, Rogério e sua família tiveram que se mudar do Núcleo Bandeirante para o Cruzeiro Velho, cidade satélite de Brasília, para evitar a humilhação que passava.

"Depois disso, tive que ocultar a minha origem. A minha mãe ficou assustada e preocupada com nossa situação e, com intuito de nos proteger, tomou a decisão drástica de viver como juron (os não ciganos). Por uma questão de sobrevivência, vivi muitos anos na invisibilidade. Mas prometi para mim mesmo que um dia iria ajudar meu povo cigano. Comecei essa luta em 2013, em Boa Vista. Aqui no Ceará, desde setembro de 2017", reforça ele.

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