Capacitação a distância beneficia mais de 6 mil pessoas no interior

A pandemia impôs uma nova realidade, refez os arranjos da sociedade e exigiu estratégias de resiliência para lidar com a crise. As capacitações virtuais tiveram fundamental importância nesse cenário. Jovens desempregados conseguiram ingressar no mercado e outros fortaleceram a saúde mental

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Legenda: Especialistas consideram que a qualificação pode ser um diferencial para ingressar no mercado Novas vagas e cursos são disponibilizados todas as terças-feiras, no site do Instituto Centec
Foto: Gustavo Pellizzon

Quando a pandemia do novo coronavírus teve início, a jovem Paula Samira Reis de Moura, 18, moradora de Brejo Santo, no Cariri cearense, estava há nove meses sem trabalhar. A rápida progressão da doença afetou a economia brasileira e, consequentemente, resultou no fechamento de postos de trabalho. "Fiquei preocupada. Tive receio de não conseguir um emprego", desabafa. Seu temor era legítimo e pode ser explicado em números. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em maio, eram 10 milhões de desempregados. Quatro meses mais tarde, este número saltou para 13,4 milhões, crescimento de 33%.

Então, o que fazer? Esse questionamento de Paula ecoou por entre tantos outros cearenses. "Qualificação e proatividade são pontos chaves e que fazem a diferença", reflete o consultor de carreiras Antônio Dionatas. Esses dois pontos foram fundamentais à jovem brejo-santense. Ela e outras 6.287 pessoas utilizaram parte do tempo do isolamento social para se capacitarem de forma remota através de cursos ofertados gratuitamente pelo Instituto Centro de Ensino Tecnológico (Centec). Muitos já colheram frutos. "Me inscrevi em quatro cursos e, diante dessas qualificações, consegui um emprego. O curso de libras foi o diferencial. Como trabalho com atendimento ao público, esse aprendizado tornou meu ambiente mais inclusivo", conta.

A conquista de Paula Samira não é uma exceção. A consultora de capacitação e treinamento do grupo MRH, Sandra Martins, explica que a pandemia alterou a forma de realização dos processos seletivos, hoje executados de forma remota. "Não temos como observar comportamentos através de algumas etapas que estão impossibilitadas de serem realizadas, portanto, a importância dos cursos feitos pelos candidatos tem um peso muito maior nesse momento". Esse "peso" também fez a diferença na vida de Andreia da Silva Alencar, 20.

Ela estava há cinco meses sem trabalhar quando se inscreveu em dois cursos remotos. "Melhorei minha timidez e desenvolvi minha abordagem com o público. Acredito que fez a diferença no processo seletivo", conta a jovem que hoje trabalha em uma ótica na cidade de Jucás, no Centro-Sul do Estado.

"A capacitação e a atualização sempre serão a melhor e maior vantagem em todos os parâmetros, seja em um processo seletivo ou em uma oportunidade de crescimento que pode surgir na empresa", acrescenta Sandra.

Inclusão

O doutor em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e chefe do escritório do Unicef em Fortaleza, Rui Rodrigues Aguiar, avalia que a formação profissional, complementar à educação básica, "representa uma oportunidade real de inclusão social de adolescentes e jovens em contextos tão marcados pelas desigualdades como é o contexto brasileiro".

O presidente do Instituto Centec, Silas Alencar, acrescenta que essas desigualdades cresceram neste "momento de crise, em que pessoas perderam empregos, suas rendas, e que famílias tiveram que buscar formas de se reinventar". Rui lembra que esse horizonte pode seguir ainda turvo nos próximos meses. Segundo ele, analistas projetam que as desigualdades sociais, principalmente a de renda, podem ser bastante agravadas após a pandemia da Covid-19. Assim, em sua concepção, o período pós-pandemia, "demandará aumento das oportunidades de formação profissional a uma escala muito próxima do que hoje é a oferta de ensino médio".

Aguiar ressalta, entretanto, que a formação profissional não deve se restringir a treinamentos, "sendo muito importante a abertura de vagas de trabalho regulamentadas pela Lei da Aprendizagem, que aliada à educação profissional e à obrigatoriedade da educação básica é a forma mais eficiente de combate ao trabalho infantil-juvenil e promoção da inclusão social de jovens de famílias de baixa renda e baixa escolaridade".

Saúde mental

A psicopedagoga e professora universitária, Ticiana Santiago, observa que a participação nesses cursos remotos durante a pandemia pode ir além de uma recolocação no mercado de trabalho e inclusão social.

Segundo observa, é normal que, diante desse momento adverso, de privação ou limitação, luto e incertezas, a saúde mental seja de algum modo e intensidade afetada.

Portanto, conforme sua avaliação, "é muito importante que, nesses momentos mais desafiadores, possamos construir um planejamento, um projeto de vida, mesmo que temporário. Isso ajudará a regulação emocional". Um dos caminhos para tal meta, é justamente esses cursos virtuais, por terem o poder de "nos manter focados, nos sentirmos produtivos" e, assim, "nos sentimos menos vulneráveis, mais criativos e reduzimos a chance de sucumbir ou ficar só no limbo".

Joselito Sousa, morador no bairro Passaré, em Fortaleza, sentiu isso na pele. A conquista dele, segundo avalia, foi tão importante quanto para "quem conseguiu um emprego". "Esse período de pandemia foi difícil para todo mundo e, no meu caso, que faço tratamento para depressão, participar do curso me ajudou muito porque pude conversar com outras pessoas, até de outras cidades, foi uma interação bem legal. Foi muito bom absorver novos aprendizados, me deu a expectativa de dias melhores", descreveu Joselito.

Ticiana reforça a importância da socialização e acrescenta que o "ser humano precisa do outro para se desenvolver". A educação, ainda que remota, continua a psicopedagoga, "favorece os vínculos, fortalece a saúde mental e tem sempre possibilidade de ampliar horizontes e novas perspectivas".

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