Candomblé na terra do Padim

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Combater o preconceito contra as religiões de ascendência africana foi o objetivo de manifestação no Cariri

Juazeiro do Norte. O Candomblé sai às principais ruas deste município para a 1ª Caminhada de Combate à Intolerância Religiosa, que marcou o dia 21 de janeiro em lembrança à data de invasão por neopentecostais de uma casa de candomblé na Bahia e uma mãe-de-santo acabou morrendo. Desta vez, apenas um terreiro do João Cabral, com cerca de 50 integrantes, decidiu participar da caminhada. São cerca de 40 terreiros na terra fundada pelo Padre Cícero e que tem como principal marca o Catolicismo popular.

A caminha partiu da praça da Prefeitura Municipal, seguindo pela principal rua do Centro da cidade, a São Pedro, terminado com uma apresentação e várias manifestações de apoio ao movimento, na Praça Padre Cicero. As pessoas saiam às ruas para ver as mulheres vestidas de branco, turbante e com colares de conta no pescoço. No trio elétrico, o som dos tambores e a voz do canto que veio da África ecoou pela liberdade de culto sem preconceito.

Influência religiosa

A casa de candomblé Ilê Axé Omindandereci Mutalegi e o Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec) decidiram fazer o evento pela primeira vez em Juazeiro do Norte, por ser uma cidade de marcante influência religiosa. E não só do Candomblé, mas constantemente são abertas novas igrejas na cidade, principalmente pentecostais.

Para a mãe-de-santo do terreiro Ilê Axé Omindandereci Mutalegi, Maria Isabel Galdino, essa forma de manifestação é sagrada e o objetivo de vir às ruas é quebrar o preconceito que existe em relação ao Candomblé. "Não viemos às ruas para afrontar religião nenhuma; pelo contrário, estamos aqui para unir todas as religiões. Queremos paz e união", explica.

A questão do preconceito é uma das razões principais da caminhada, segundo os seus organizadores, para a quebra dessa situação que vem desde os primeiros momentos que os escravos chegaram ao Brasil e tiveram segregada a sua forma de manifestação religiosa.

De acordo com a mãe-de-santo, o preconceito faz muito mal a todos. "A gente sai nas ruas e sente isso e temos que quebrar esse preconceito. A gente quer mostrar para as pessoas que o Candomblé é igual a qualquer outra religião", diz.

Maria Isabel Galdino acrescenta que todos os grupos foram convidados para participar da caminhada e, por causa do preconceito, eles não saem dos terreiros para as ruas, mesmo mantendo uma prática religiosa frequentemente.

O mestre em Sociologia e integrante do Grunec, Ronald Albuquerque, afirma que a principal forma de poder quebrar o preconceito existente contra os praticantes do Candomblé é a divulgação das manifestações religiosas principalmente as africanas. "Até porque a grande maioria da nossa população é de negros e descendentes e essa religião mostra melhor do que qualquer outra a própria história do negro. Foi através da religiosidade que os negros permaneceram unidos", disse.

De acordo com Ronald, há um preconceito por ser uma religião de escravos. Esse tipo de manifestação religiosa foi igualada à magia, até porque era uma forma de defesa de unidade dos negros. "Mesmo assim, alguns grupos que permanecem identificados e não foram assimilados de forma concreta permanecem, às escondidas, mantendo a sua religiosidade e sua tradição", destaca.

Direitos humanos

O advogado da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil de Juazeiro, Miguel Ângelo, afirma que é de suma importância defender os diretos humanos, e é com esse objetivo que a OAB tem buscado apoiar os movimentos sociais. O intuito do movimento, segundo ele, é demonstrar que essa pauta é internacional e vem sendo defendida por todos os grupos, pela tolerância das religiões. "A diferença existe e não tem com negar, mas quanto mais ela estiver diferenciada e se aceitar, maior o avanço democrático", afirma.

Registro fotográfico

O registro desses terreiros no Cariri também vem sendo foco de estudo do fotógrafo Rafael Vilarouca. Ele começou a captar imagens dos terreiros de candomblé, nos municípios do Crato e de Juazeiro do Norte.

Com esse material, o fotógrafo pretende escrever uma obra literária, que deve contar também com artigos de estudiosos do tema, e realizar uma exposição da imagens clicadas por sua câmera dessas manifestações religiosas. "É uma forma de contribuir para a quebra desse preconceito e mostrar a beleza existente nesses cultos religiosos", completa Rafael Vilarouca.

RESPEITO

"A caminhada mostrou o respeito da população pelas religiões de origem afro"
RONALD ALBUQUERQUE
Mestre em Sociologia e integrante do Grumec

"Não viemos às ruas afrontar religião nenhuma, mas para unir todas elas"
MARIA ISABEL GALDINO
Mãe-de-santo

FIQUE POR DENTRO

Culto dos orixás

Candomblé
é um culto dos orixás, de origem totêmica e familiar. É uma das religiões afro-brasileiras praticadas principalmente no Brasil, pelo chamado povo do santo, mas também em outros países como Uruguai, Argentina, Venezuela, Colômbia, Panamá e México. A religião tem por base a anima (alma) da Natureza, sendo portanto chamada de anímica. Foi desenvolvida por sacerdotes africanos.

MAIS INFORMAÇÕES
Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec), Rua Cel. Secundo, 263
Centro, Crato (CE)
Telefone (88) 3521.0486.


Elizângela Santos
Repórter