Agentes da salvação

Antes de confiar no médico de hospital, a comunidade atende às palavras de "médicos populares", curandeiros e rezadeiras. A união dos saberes, na forma de rezas e soros, poupou a vida de milhares de crianças do Sertão

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Dona Odília Xavier, rezadeira em Quixeramobim, recomenda às mães ave-maria, pai-nosso e a ida ao médico do posto de saúde
Foto: FOTOs: ALEX COSTA

O galho na mão é mais que um galho. As palavras são uma evocação. O corpo doente por onde as folhas passeiam vai além de uma máquina biológica. Porque o corpo convalescido da criança que pegou "quebranto" precisa mais do que um remédio de se engolir.

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A noção de que o corpo é também social é apresentada pelas rezadeiras e benzedeiras, "médicas populares" - antes de o termo ser um dia expropriado para indicar o profissional de medicina convencional que cobra um preço mais acessível. São ciências diferentes (rezadeiras insistem na fé também como ciência), mas hoje em um diálogo que não existia até uma década atrás. Tudo para salvar crianças.

A rezadeira é uma guardiã de saberes tradicionais, o seu entrelaçamento com a comunidade, base da confiança em seu trabalho, foi importante aliado da medicina convencional. Na prática, os médicos queriam que as mães que levavam os filhos até curandeiros, fizessem-o também nas consultas médicas e cumprissem o tratamento recomendado pelo profissional.

Assim, dona Odília Xavier, em Quixeramobim, recomendava ave-maria, pai-nosso, e a ida ao médico do posto de saúde. A diarreia e outras doenças infecciosas gastrointestinais eram fatais no corpo de crianças já com outros problemas, como a desnutrição e, portanto fragilidade física.

Disponível 24 horas por dia dos sete dias da semana, as rezadeiras são matriarcas e líderes espirituais de uma comunidade, capazes de acolher um enfermo antes do médico. A relação de confiança entre elas e a população fez-se elo para a disseminação do soro caseiro, duas medidas de açúcar e uma de sal em um litro de água. Ainda que não combatesse diretamente a infecção, a terapia de reidratação oral foi suficiente para salvar milhares de crianças todos os anos no sertão cearense.

A união entre fé popular e a biomedicina foi incentivada pela médica antropóloga Marilyn Nations. Entre os anos 1970 e 1980, ela estudou as inter-relações que envolvem o acometimento de doenças, especialmente diarreia, e os procedimentos tomados pelas mães.

Marilyn apresentou o modelo "rezas e soro" em seu estudo "Contexto Cultural da Diarreia Infantil no Nordeste Brasileiro". O trabalho tornou-se política pública no Ceará, depois expandiu-se para o Nordeste e, desde o início da década passada, o Ministério da Saúde faz ações de apoio à inserção das benzedeiras na atenção à saúde.

Prática

Em mais de 50 anos de atividade, a rezadeira Odília Xavier viu as mais diversas enfermidades em crianças. Algumas, de tão fracas, não podiam sair de casa, sob o sol causticante. "Eu ia lá, não importava a hora. A mãe triste, sem saber mais o que fazer. 'Cuide' do meu filhinho, dona Odília. Aí eu dizia que vou fazer tudo o que puder, mas sou uma simples rezadeira, quem cura é Nosso Senhor". Trazia consigo folhas de hortelã, malvarisco, cidreira, recomendava o chá.

Quando começou a parceria com as agentes de saúde do bairro, a primeira recomendação era o soro caseiro. "E vá ao médico". Mas a ida ao hospital não é o único destino, no qual as rezadeiras são a partida. "Com frequência, as usuárias do trabalho das rezadeiras voltam a elas após o médico. Fazem isso pela crença no sobrenatural, pela confiança. Dizem à rezadeira as recomendações do médico, aquele 'curandeiro' de um outro mundo.

O distanciamento do médico mantido na relação com o paciente, mesmo quando há diálogo com a medicina popular natural, é obstáculo na interação social entre esses dois sujeitos. Nos anos 1990, ainda era comum a mãe dar um específico remédio não porque o médico mandou, mas porque a rezadeira referendou", explica Moisés da Cunha, antropólogo e pesquisador na Universidade Federal do Ceará.

A dor da rezadeira

As mortes por "doença de criança", Odília viu poucas, mas tão de perto que perdeu três de 11 filhos. "Eu me lembro", lamenta. O primeiro nome que vem à mente é de Maria do Carmo. Morreu com quatro meses. "Era linda. Mas é isso mesmo, a gente quando tem que passar pelas coisas, a gente passa".

Na doença de seus três "anjos", Odília fez suas orações em silêncio. Deixou que outra rezadeira fizesse a "intercessão divina". Naquele momento, ela era somente uma mãe. "Eu tenho conta de que mais de mil crianças passaram por minhas mãos. Minhas não, pelas de Jesus, que é quem cura, eu sou apenas uma serva. Salvei muitas, outras não consegui. Eu tentava consolar a mãe que não chorasse. Porque a criança aparece no sonho pra mãe. Ela diz 'eu tô com a minha mortalha toda molhada de suas lágrimas, enquanto a senhora chora, eu não fico em paz'. Aí elas iam entendendo que era o jeito, é pedir paz a Deus".

Em suas rezas improvisadas, Odília evoca os santos católicos como Imaculada Conceição e São Francisco, mas os rituais de bênção são um dos maiores instrumentos do sincretismo religioso sertanejo. Ao contrário do que pode parecer, essa atividade comunitária reúne católicos, umbandistas e evangélicos. Todos se colocam como instrumento da intercessão divina.

O respeito adquirido hoje é, em parte, herança do consolo às vítimas da "doença de criança", como eram resumidas as diversas complicações gastrointestinais que geravam doenças como diarreia infecciosa nos rebentos enfermos.

Dessa forma, além do serviço em saúde, esses "médicos populares" são guardiões das memórias de uma comunidade, conhecimento transmitido pela oralidade. A doença de criança, no Sertão, foi catalisadora da fusão de ciências e crenças espirituais. A iminência ao leito de morte aproxima santos e orixás. Tempo depois, benzedeiros e médicos, enfermeiros e agentes de saúde. A ressignificação do corpo e dos remédios tornou-se um dos principais atos de humanização da saúde no Nordeste. 

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Melquíades Júnior
Repórter