Espetáculo viaja Estado e fortalece a cultura popular

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O Rei do Baião, Luiz Gonzaga, é lembrando constantemente pelo grupo, que retrata a vida dos vaqueiros

Canindé. Um espetáculo em homenagem a Luiz Gonzaga, o Rei do Aboio e do Baião, está encantando o Ceará. Vaqueiros de Canindé vestidos de gibão, perneira, peitoral, chinelo e chapéu de couro relembram a saga daquele que foi o maior defensor da cultura popular genuinamente canindeense.


Projeto Aboios do Sertão visita os municípios do Ceará realizando shows e usando o aboio como forma de retratar os sons e ritmos cearenses fotos: Antônio Carlos Alves

O grupo a "Rainha e os Vaqueiros", que vem realizando shows por onde passa usando o aboio como forma de retratar os sons e ritmos cearenses, - intercalados com contos, ´causo´, versos, poesias, toadas, trechos de cordéis e músicas de Luiz Gonzaga-, se tornou a grande referência para os cearenses que ainda carregam na memória a vida de um homem simples, mas que, por meio de suas histórias, encantou o mundo.

O figurino usado nos shows não é cênico, é a vestimenta que os artistas usam no dia a dia. Afinal, são vaqueiros aboiadores que, durante anos de cavalgada, já cantaram com Manoel Messias, Padre Tula, Fagner, Elba Ramalho, Fafá de Belém e em especial com o Rei do Baião.

O grupo, que tem como rainha a mestra da Cultura do Ceará, Dina Maria Martins, mergulhou no universo da cultura dos vaqueiros e, após um longo tempo de pesquisa oral, criou o show "Aboios - O Som do Sertão".

Serão seis apresentações até o fim do ano em cinco cidades. A primeira foi realizada em Quixadá, no dia 17 de novembro, na Praça do Chalé da Pedra, por ocasião da inauguração da estátua de Raquel de Queiroz.

O próximo será no dia 4 de dezembro em Sobral, na Praça São João. Em seguida, o grupo segue para cidade do Crato, no dia 7, onde fará apresentação no Teatro do Sesc. Em Fortaleza, a apresentação acontecerá nos dias 13 e 14 de dezembro, no Teatro do Sesc. Fechando a temporada, o projeto vem à Canindé, no dia 16 de dezembro, para se despedir do povo cearense no Teatro Frei Venâncio Willike.

Show

Ao som de chocalhos, entra no palco Chico Water representante dos vaqueiros. Em meio à poesia, convida os seus amigos e companheiros de luta, os vaqueiros aboiadores, Hidelbrando, um mestre na sanfona e o seu regional de zabumba e triângulo. Juntos, interpretam a música de abertura.

Em seguida, entra dona Dina, que completa a cena para uma sequência de dez músicas, sendo fruto de uma pesquisa sobre o cancioneiro popular dos vaqueiros aboiadores, baseadas em suas vivências e em poesias que admiram, em especial, do Rei do Baião, Luiz Gonzaga.

O show não se prende apenas ao roteiro musical. Os aboiadores artistas utilizam o improviso e interagem com o público, deixando evidente uma das propostas do grupo, que é de preservar o caráter natural do homem do campo. A Associação dos Vaqueiros, Boiadeiros e Pequenos Criadores da Microrregião dos Sertões de Canindé (Avabocri), fundada por Dina Martins, desenvolve trabalho há mais de 40 anos de resgate, preservação e valorização da cultura dos vaqueiros. Estes vêm se apresentando livremente desde 1971, quando aconteceu a primeira missa dos vaqueiros, dentro da programação da maior festa franciscana da América Latina, que é a Festa de São Francisco das Chagas de Canindé. Atualmente, a Associação tem 350 sócios.

Segundo a idealizadora do projeto "Aboios - O Som do Sertão", Fernanda Gomes, tudo começou em 2007, quando a primeira versão deste projeto da Avabocri foi vencedora do III Edital de Incentivo as Artes, na área de música - categoria montagem de show, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult). "Pela primeira vez na história cearense era realizado um show musical composto somente por vaqueiros aboiadores, tendo sido apresentado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Fortaleza), no Festival de Música da Ibiapaba (Viçosa do Ceará) e na Festa de São Francisco das Chagas de Canindé, para um público superior a 400 mil pessoas´´, festeja Fernanda Gomes.

Em 2012, como vencedor do Edital Mecenas, na área de música para a circulação do show e ampliação, com o patrocínio da Coelce, o projeto ressurge renovado, com novo espetáculo e abrindo caminho também para a formação de jovens e adolescentes pela inclusão digital.

Para o novo show, o grupo continuou com a pesquisa musical, focando nas canções de Luiz Gonzaga. Foi também a oportunidade de homenagear o Rei do Aboio e do Baião, representante maior desta cultura.

"Neste processo, nasce o desejo de fazer uma homenagem àquele que conseguiu transformar dor em alegria, música em poesia e que foi o expoente maior do sertão", salienta.

O show tem direção geral de Fernanda Gomes e direção de arte de Clébio Viriato. Para a formação, realiza duas oficinas direcionadas para os filhos dos vaqueiros na sede da Avobocri, em Canindé: Oficina de Fotografia, a ser realizada de 18 a 20 de dezembro, e Oficina de Introdução à Linguagem do Audiovisual, que acontecerá nos dias 19 e 20 de dezembro.

O presidente da Associação dos Vaqueiros, José Curdulino Filho, diz que a ideia vem projetando Canindé e o que é mais importante, dando oportunidades para que os vaqueiros do município possam sair do anonimato e ganhar o mundo.

Projeto une escritora e aboiadora

Canindé.
Nessa viagem cultural que o "Projeto A Rainha e os Vaqueiros, Aboios o Som do Sertão" está proporcionando ao povo cearense, é resgatada duas histórias diferentes que se misturam ao cotidiano daqueles que respiram cultura.


O abraço de Dina Martins na estátua de Rachel de Queiroz, é um gesto que une duas gerações em uma só época. Rachel foi a primeira mulher escritora a entrar para Academia Brasileira de Letras. Dina, a primeira mulher a montar a cavalo


De um lado o Ceará de Rachel de Queiroz, a primeira mulher escritora a entrar para Academia Brasileira de Letras. Do outro lado, a mestra da cultura Dina Maria Martins, a primeira mulher a montar a cavalo e participar de vaquejadas, pega de boi e aboiar ao lado de Luiz Gonzaga. São encontros inusitados que unem o imortal e o real. Rachel de Queiroz que ganhou estátua na sua terra natal, Quixadá, antes de deixar nosso convívio na Fazenda Não me Deixes, deixou um legado histórico que relaciona o vaqueiro e o sertão, ao escrever obras como "O Quinze", "Memorial de Maria Moura", entre outros livros que retratam nossa história sertaneja.

Dina Maria Martins elevou o nome de sua cidade Natal, Canindé, além fronteiras com seu aboio e sua coragem de vestir roupa de couro e entrar na Caatinga fechada para participar das festas de apartação.

O abraço de Dina Martins na estátua de Rachel de Queiroz é um gesto que une duas gerações em uma só época. Literatura, aboios, vaqueiros se misturam num só sentido. A cultura.

Valores

Para o poeta e escritor Pedro Paulo Paulino, Rachel de Queiroz e Dina Martins "são valores que formam um leque diferenciado no imaginário e olhar de uma gente que a cada dia não perde e nem deixa o foco de que a cultura se manifesta de várias maneiras. Para isso, basta que as pessoas, com pensamento amplo, mantenham acesa essa chama".

O "Projeto a Rainha e os Vaqueiros, Aboios o Som do Sertão" eleva o sentimento do homem sertanejo, que mesmo com suas adversidades nunca perde a esperança de que a vida pode mudar a qualquer momento, para isso basta que ele acredite na luta e na coragem.

As músicas interpretadas durante o show - cantadas em épocas diferenciadas por Luiz Gonzaga, traz o passado para o presente atual. Basta sentar em um banco de qualquer espaço cultural que esteja sendo mostrada a saga dos vaqueiros nordestinos, para sentir isso de perto.

Exemplo maior é a música a "Volta da Asa Branca", um verdadeiro clássico sertanejo que retrata os dias atuais, com a grande seca no sertão. Para Fernanda Gomes, o Projeto tem uma grande finalidade que é manter viva essa tradição cultural que a cada dia ganha novos simpatizantes.

Quem ainda não conhece essa viagem, é bom ficar atento e tirar um pouco do seu tempo e participar de uma longa viagem muitas das vezes feita em estradas ruins, mas que tem um só objetivo: não deixar morrer uma das tradições a cultura popular. Dona Dina é a "Rainha dos Vaqueiros". É vaqueira e aboiadora desde os 14 anos e já virou inspiração para filmes, cordéis, livros e matérias jornalísticas. Fundou a Associação dos Vaqueiros e Aboiadores do Sertão Central, com sede em sua cidade, Canindé, e a preside desde então, já em seu sexto mandato. Dona Dina Tornou-se a maior incentivadora dos costumes e tradições do vaqueiro no Ceará, seja por meio da Associação ou de sua luta individual.

Orgulho

Tem uma vida voltada para a cultura popular. Ajuda em projetos como missas, vaquejadas, cavalgadas, aniversário de vaqueiros, festas de apartação, corridas de mourão, enfim, carrega sobre os ombros a história real do homem do sertão. Para ela, essa profissão é o seu grande orgulho. "Sinto-me feliz e realizada em ser vaqueira. Essa é minha faculdade", orgulha-se.

Quem convive com Dina Martins sabe da importância de sua participação nas grandes festas que envolve a figura do vaqueiro, afinal foi ela ao lado de frei Lucas Dolle, Juarez Coutinho e do inesquecível poeta popular de Canindé, Raimundo Marreiro, que o Brasil viu ser celebrada a primeira missa em homenagem a essa figura ilustre e tão popular, o vaqueiro.

ANTÔNIO CARLOS ALVES
COLABORADOR