A definição das pré-candidaturas ao Governo do Ceará começa a dar forma aos palanques que vão recepcionar pré-candidatos à Presidência da República no Estado. Não é um cálculo simples. Ter representatividade local não garante palanque ao nome nacional do partido. Nas últimas duas décadas, houve candidatos ao Governo que rejeitaram o presidenciável da própria legenda ou tentaram evitar se associar ao presidenciável de partidos aliados. Há também quem tenha passado despercebido na estratégia local.
Para a campanha eleitoral de 2026, o governador Elmano de Freitas (PT), pré-candidato à reeleição, deve repetir a dobradinha da eleição de 2022 com o presidente Lula — no evento que oficializou o nome de Elmano para a disputa pelo Governo do Ceará, já constava o slogan: "Lula e Elmano, juntos pelo Ceará e pelo Brasil". A relação dos demais palanques estaduais com a campanha nacional, no entanto, não está tão bem definida.
O ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), lançado pré-candidato ao Palácio da Abolição por uma frente ampla que envolve União Progressistas e PL, tem pelo menos dois presidenciáveis dentro da aliança — apesar de ter dito que não irá "se distrair com isso" quando perguntado sobre uma possível parceria com Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à presidência pelo PL.
O PSDB também aprovou o nome de Aécio Neves como pré-candidato à presidência, apesar do deputado federal ainda não ter confirmado que irá concorrer.
Existe ainda indicativos de que pré-candidatos à presidência por partidos que são aliados do PT no Ceará podem acabar tentando se aliar a Ciro. É o caso de Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, que disse que quer "buscar cada vez mais o entendimento" com o tucano. "Imagina o Ciro governador e o Caiado presidente", disse em entrevista ao O Povo.
Por outro lado, o senador Eduardo Girão (Novo), apesar de reforçar o apoio a Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, na corrida presidencial, ainda tem disputado o apoio de lideranças do PL, principalmente nacionais — como é o caso da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
O desenho de 2026 não é novidade em comparação com os arranjos de anos anteriores. A oposição à direita no Ceará tem dificuldade em dar fôlego a campanhas nacionais diante do desempenho da esquerda no Estado. Do outro lado, a estratégia de frente ampla das campanhas governistas acumula episódios em que foi necessário se dividir entre nomes e apagar campanhas de partidos menos hegemônicos. Ainda assim, especialistas apontam "particularidades" para o cenário deste ano.
Histórico dos palanques presidenciais no Ceará
Professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará, Monalisa Torres pontua que existe um histórico de votações favoráveis aos presidenciáveis do PT no Ceará, desde pelo menos o final da década de 1990, o que impacta nas decisões estaduais.
"Nacionalizar a disputa ou não é uma estratégia. Nacionalizando, vai se manter o alinhamento com o meu partido, considerando que há uma certa preferência pelo outro candidato? Então, tem esses cálculos que precisam ser feitos", explica.
Ela pondera, no entanto, que apesar desse fator atravessar diferentes disputas eleitorais, é preciso olhar as particularidades políticas vivenciadas no Ceará a cada ano de eleição.
Rejeição ao presidenciável
Ela cita como exemplo o caso de 2006. Na época, Lúcio Alcântara era governador, mas houve um rompimento com Tasso Jereissati (PSDB), antigo padrinho político dele. Apesar disso, Alcântara insistiu na candidatura à reeleição.
Sem o apoio de Tasso, o então governador percebeu que "o presidenciável do partido dele (Geraldo Alckmin, na época no PSDB), não tinha a mesma adesão que (Lula) tinha aqui". Ele faz então uma tentativa de se associar a Lula, candidato à reeleição para o 2º mandato como presidente.
Na propaganda da TV, o então governador citou as parcerias com Lula durante o primeiro mandato dos dois. No rádio, ele foi mais longe. Sem identificação, Alcântara usou a voz de Lula em discurso em que o petista o elogiava e exaltava a "lealdade" do cearense. Por outro lado, Geraldo Alckmin não apareceu na propaganda do correligionário no Ceará. Lúcio Alcântara também esteve ausente da visita feita pelo presidenciável ao Ceará em 2006.
Já em 2022, o candidato à reeleição, Jair Bolsonaro indicou, mais de uma vez, o apoio a Capitão Wagner, então candidato ao Governo do Ceará. "Se o Brasil tem problema, chama o capitão. Se o Ceará tem problema, chama o Capitão. Esse Ceará, esse Nordeste é nosso", disse Bolsonaro em julho daquele ano, durante a Marcha para Jesus.
Contudo, não houve uma recíproca do cearense. Apesar dos acenos de Bolsonaro, Wagner evitou cravar apoio ao ex-presidente durante a campanha eleitoral para o 1º turno da disputa. Na época, Wagner declarou que a aliança encabeçada por ele no Ceará era "ampla" e tinha mais de um partido com presidenciáveis, incluindo o PL e o União Brasil.
O apoio oficial a Bolsonaro veio apenas na campanha para o 2º turno da disputa presidencial, quando Capitão Wagner já havia sido derrotado por Elmano de Freitas (PT), eleito governador no 1º turno.
Mais de um palanque estadual
Eleita em 2010 e em 2014 para a presidência da República, Dilma Rousseff contou, nas duas eleições, com mais de um palanque estadual no Ceará.
Após ser derrotado em 2006, Lúcio Alcântara volta a ser candidato ao Governo do Ceará, desta vez pelo PR, e apoia Dilma para a disputa presidencial — nas propagandas dele, tanto ela como Lula estão presentes. No entanto, o PT apoiou a candidatura de Cid Gomes (PSB) à reeleição, inclusive com falas de Dilma e do então ex-presidente Lula (PT) a favor de Cid.
O fato gerou críticas de Lúcio Alcântara, que reclamou da falta de "reciprocidade" do apoio dele em relação a Dilma — nacionalmente, o PR estava na aliança da petista.
Em 2014, o cenário se repetiu. Na disputa pelo Governo do Ceará, apesar de enfrentar Camilo Santana (PT), correligionário da então candidata à reeleição Dilma Rousseff, Eunício Oliveira (MDB) também anunciou apoio à petista.
O MDB também estava na aliança de Dilma e tinha indicado o então candidato a vice-presidente à reeleição, Michel Temer (MDB). Ao contrário de 2010, Dilma Rousseff escolheu ficar distante da disputa estadual no Ceará. Ela chegou a vir ao estado em setembro de 2014, quando cumpriu agenda em Pacajus e Fortaleza, mas nenhum dos dois participou da visita.
A cientista política Cleris Albuquerque explica os motivos para a tentativa tanto de Eunício, em 2014, como de Lúcio Alcântara nas duas eleições anteriores. "Justamente porque gera no eleitorado não apenas uma ideia de associação, mas de alinhamento político. A tendência desses exemplos citados foi justamente essa: vincular suas imagens a nomes nacionais que estão com protagonismo político e capitalizar com o eleitorado", detalha.
Dois presidenciáveis no palanque
Houve ainda campanha em que o palanque estadual acabou dividido entre mais de um presidenciável. Candidato à reeleição em 2018, o então governador Camilo Santana anunciou já no início da campanha que tinha "o privilégio de ter dois grandes candidatos à presidente na minha coligação".
A fala é de agosto daquele ano, quando Camilo disse apoiar Lula — que estava preso e acabou substituído por Fernando Haddad (PT) — e Ciro Gomes, na época, no PDT e ainda forte aliado de Camilo. Durante toda a campanha eleitoral para o 1º turno da disputa, a posição de Camilo continuou a mesma, apesar da pressão tanto de petistas como do PDT para uma decisão dele.
Na época, o PT passava por uma grave crise a nível nacional, o que impactava as articulações estaduais. Contudo, para Monalisa Torres, "a construção da coalização de um grupo político muito grande" como no Ceará em 2018 também teve peso na decisão de Camilo de anunciar apoio à dupla.
"Naquele momento, foi um jogo de ganha-ganha para o Camilo. No sentido de que "tenho a minha vice de um partido, eu sou do outro, os dois batem chapa, então aqui eu consigo fazer palanque dos dois". E isso, a nível estadual, foi um espaço de tentativa de manutenção dessas alianças. Deu certo naquele momento, mas a tensão e a capacidade de manutenção da aliança foi se esgarçando até chegar em 2022 e implodir".
Sem palanque estadual
Houve ainda presidenciáveis que acabaram ficando sem apoio no Ceará — ou tiveram um palanque apenas com candidatos ao legislativo no estado.
Em 2022, com o MDB na chapa de Elmano de Freitas (PT) ao Governo do Ceará, a então candidata Simone Tebet (no MDB à época e hoje no PSB), que disputava a presidência da República, não teve o apoio dos emedebistas cearenses. Na visita ao estado, em setembro daquele ano, ela teve a companhia apenas do então senador Tasso Jereissati (PSDB) e de candidatos tucanos ao legislativo.
Algo semelhante ocorreu em 2014. O PSDB estava na chapa de Eunício Oliveira, então candidato a governador. Contudo, Eunício anunciou apoio a Dilma Rousseff, aliada do MDB a nível nacional.
Com isso, Aécio Neves ficou sem apoio de um candidato ao Governo no Ceará. Nas visitas ao estado, tanto no 1º como no 2º turno da campanha eleitoral, o tucano teve a companhia apenas de Tasso Jereissati, então candidato ao Senado Federal.
Cenário de eleição em 2026 é 'particular'
Apesar de eventuais semelhanças com cenários eleitorais anteriores do Ceará, para Monalisa Torres, a disputa de 2026 deve ser "mais particular do que o contrário". "A tentativa de desnacionalizar é para que, em alguma medida, a candidatura nacional não inviabilize a estadual, no caso do Ciro. (...) Mas, por outro lado, tem especificidades do próprio Ciro", diz.
"É um ex-governador que está tentando voltar para a disputa estadual, mas não é qualquer pessoa, porque veja: o Lúcio (Alcântara) tentou se candidatar em 2010, tentou voltar pro Governo do Estado. Ele concorreu, mas não tinha base política própria, não tinha capital político. Ele tinha sido eleito na sombra do tassismo. (...) O Ciro não. Quem tem dependência de capital político alheio é muito mais o Elmano do que o Ciro".
Ela acrescenta que a tentativa de Ciro será de "tentar puxar para a discussão local". O governador Elmano de Freitas, por sua vez, deve fazer o contrário, o que deve fazer com que a campanha se torne "uma disputa de narrativa".
"No campo governista, o Elmano vai explorar até onde puder o alinhamento com o Lula e com o Camilo. E vai — se não ele, pelo menos os seus nomes mais próximos — ficar fazendo essa associação do Ciro com a incoerência, com o Flávio Bolsonaro, dessa aliança com os Bolsonaro", diz.
"E com a polarização que estamos vivenciando, essa tendência (de associar nomes locais com nacionais) está mais acentuada do que nunca, e acaba servindo de munição para o candidato governista", acrescenta Cleris Albuquerque.
O que não significa que Elmano não vai enfrentar problemas nesta campanha eleitoral. "Tem alguns desgastes que vão se acumulando. E o Elmano, em alguma medida, está sustentando a acumulação de desgastes das gestões anteriores", diz Torres.