Embate entre forças políticas sobe o tom da campanha em Fortaleza

O clima eleitoral tende a ficar mais acirrado entre as forças do grupo governista e da oposição, após semana de turbulências. Campanha pelo Paço Municipal, que vinha em banho-maria, esquenta e entra em fase de embates

Legenda: Capitão Wagner (Pros), Luizianne Lins (PT) e Sarto Nogueira (PDT) disputam a eleição da Capital
Foto: Fabiane de Paula, Isanelle Nascimento e Camila Lima

A quatro semanas do primeiro turno da eleição, a disputa pela Prefeitura de Fortaleza entra em nova fase de acirramento, e os embates tendem a se aprofundar. A divulgação da primeira pesquisa Ibope sobre a sucessão e os embates entre as forças governistas e de oposição chacoalharam a última semana e elevaram o tom da campanha, que estava morna até então. Daqui para a frente, as estratégias dos postulantes vão ser cada vez mais decisivas, e a próxima rodada de pesquisas deve apontar o que deu certo e o que deu errado para cada um deles. 

O clima começou a esquentar a partir de declaração do candidato Capitão Wagner (Pros) ao programa PontoPoder Eleições, exibido na TV Diário e nas plataformas digitais do PontoPoder e do Diário do Nordeste, na última terça (13). Questionado sobre o último motim de policiais militares ocorrido em fevereiro, Wagner negou ter sido a favor do movimento e justificou: “Eu tenho muita responsabilidade com essa questão e, por conta disso, fui inclusive desgastado em rede social por policiais que queriam fazer o movimento, e a gente foi contra a realização”. Depois disse que “de forma nenhuma a gente vai incentivar esse tipo de acontecimento”. 

A declaração do candidato do Pros provocou reação em massa do grupo governista. Quem puxou a fila foi o governador Camilo Santana (PT), que se posicionou nas redes sociais. “Tanto liderou o motim de 2011 como teve participação direta nesse último motim, que teve clara motivação política para desorganizar a segurança do Ceará”, disse. 

Dividido entre as candidaturas de Luizianne Lins (PT) e a de Sarto Nogueira (PDT), o governador abriu uma brecha para entrar na campanha na Capital. Se Camilo não pode declarar apoio a uma candidatura, porque ele tem dois aliados concorrendo - Sarto e Luizianne -, ele marcou posição contra um dos principais adversários. 

Outros governistas se uniram a Camilo para intensificar a artilharia contra o candidato que aparece à frente na primeira rodada da pesquisa Ibope. O prefeito Roberto Cláudio, o candidato Sarto Nogueira, o senador Cid Gomes e o presidente estadual do PDT, André Figueiredo entraram no embate, que teve manifestação também do vice Élcio Batista (PSB). “O Ceará e o Brasil todo acompanharam o drama da sociedade, covardemente ameaçada. As cenas estão em todos os meios de comunicação. É hora da verdade, de apresentar trajetórias e assumir responsabilidades”, disse Sarto. O senador Cid Gomes também compartilhou a mensagem do governador.

Respostas

Capitão Wagner respondeu, no primeiro momento, em tom mais suave, às declarações do grupo governista. Ele disse duvidar que o governador fosse “do tipo de embate desleal e mentiroso”. “Essa pancada não é o estilo dele. Se isso está acontecendo é porque alguém está mandando. Não vou tocar nesse assunto (motim), porque o meu foco são os problemas da cidade”.

A repercussão cresceu, e o candidato de oposição deixou de lado a estratégia de não entrar no embate para ir às redes sociais rebater os adversários. Na última sexta-feira (16), o candidato do Pros disparou ataques principalmente aos irmãos Cid e Ciro Gomes, que lideram o grupo governista.

“Ô, Ciro Gomes, cadê você? Tão valente, tão briguento, tão verborrágico. Estamos esperando você na campanha de Fortaleza”, questionou o candidato ao chamar para o enfrentamento o adversário. Entre os embates, o fato é que o tema motim dos policiais agitou a campanha, e os desdobramentos estão em andamento. Daqui para a frente, o rumo da disputa eleitoral em Fortaleza será definido pelas estratégias que cada candidato vai adotar, mas com uma certeza: a troca de acusações deve continuar até a definição do próximo prefeito.

Lava Jato 

Nem deu tempo dimensionar o primeiro embate da campanha, e o segundo já veio em sequência, caindo como uma bomba. Uma operação da Polícia Federal, fruto de uma investigação da Lava Jato Eleitoral, cumpriu mandados de busca e apreensão em Fortaleza, Salvador e São Paulo. 

A ação busca possíveis provas para denúncias feitas por executivos da J & F sobre supostos repasses de propinas nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014 a candidatos e integrantes do grupo político de Cid Gomes, na época em que era governador do Estado.

O cumprimento de mandados ocorreu, mas o sigilo da operação proibiu a divulgação dos alvos. Foi o suficiente para esquentar, mais uma vez, o debate político na Capital. Ao longo da última sexta, a assessoria de Cid negou que ele tenha sido alvo das buscas. Foi então que conteúdos da delação de Joesley Batista, de três anos atrás, começaram a circular e serviram de combustível político, mais uma vez.

Os fatos turbulentos mostraram que a disputa será acirrada como se imaginava e que cada grupo terá que armar estratégias para atacar e se defender do que está por vir.

Ibope

A liderança de Capitão Wagner (28% na estimulada) no primeiro levantamento sobre as intenções de voto em Fortaleza já era esperada, uma vez que ele foi o primeiro candidato a se consolidar na disputa e pelo “recall” da eleição de 2016.

Com volume de campanha, Wagner tem percorrido a cidade e recebeu o apoio do presidente Jair Bolsonaro, embora ainda não se saiba como será a participação dele na campanha eleitoral. 

Entretanto, o desempenho dos concorrentes diretos chamou atenção: Luizianne Lins (23%), num empate técnico com Wagner, tem usado como trunfo as imagens do ex-presidente Lula e do governador Camilo, seus correligionários, além de apostar no que considera trunfos de sua gestão por oito anos na Capital. 

Sarto (PDT), com 16%, em patamar considerável, tendo em vista ainda não ter participado de eleições majoritárias, também chama atenção pelo fato de estar afastado da campanha há quase 15 dias, após testar positivo para Covid-19. 

Por enquanto, a campanha de Sarto está sendo feita pelo candidato a vice, Élcio Batista, o prefeito Roberto Cláudio e apoiadores. Aliás, estes apoiadores junto com os mais de 550 candidatos a vereador da base aliada formam um batalhão que tem ajudado a alavancar o nome de Sarto nas ruas. 

A pesquisa também mostrou a influência de lideranças nacionais junto ao eleitorado fortalezense e deu o indicativo das estratégias que os candidatos poderão usar na campanha. De acordo com o levantamento do Ibope, quase 30% dos entrevistados afirmaram que votariam no candidato apoiado pelo governador Camilo Santana. Se fosse apoiado por Roberto Cláudio, 23% dos entrevistados afirmam que são favoráveis. 

Uma candidatura apoiada pelo ex-ministro Ciro Gomes (PDT) tem 19% de chances de ser votada. Já o ex-presidente Lula é o que exerce a maior influência sobre o eleitorado, com 37% dos votos para o candidato indicado pelo petista. Por outro lado, uma candidatura indicada por Bolsonaro diminuiria em 44% o apoio. 
Antes de sair o levantamento, Capitão Wagner disse que espera o apoio público de Bolsonaro, mas tem evitado citar o nome do presidente. 

Também há a expectativa de o ex-presidente Lula participar da campanha de Luizianne. E a associação com a imagem de Camilo pode ser estratégica, tanto que vem sendo disputada por Luizianne, que é do partido do governador, e Sarto, aliado de primeira hora do grupo governista. Agora é conferir em que medida os candidatos vão se apoiar nessas lideranças nacionais.

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