Um amigo das árvores

Segundo uma de suas filhas, Francisco costumava também presentear amigos e curiosos com sementes ou “filhos” de seu pau-brasil

Escrito por
Gilson Barbosa producaodiario@svm.com.br
Jornalista
Legenda: Jornalista

Neste domingo que passou, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, recebi, de forma inesperada, uma triste notícia. Soube do falecimento, por volta das duas da madrugada daquele dia, de Francisco Gomes Bastos. Ele residia na Parquelândia, bairro onde residi por mais de 20 anos, mas onde também continuo a circular, mantendo antigas rotinas e hábitos. Naquela área, um pau-brasil cresceu e se desenvolveu com um tortuoso caule, cujo crescimento se deu exatamente graças ao amparo e à sensibilidade de Francisco.

Ele, que tinha uma face rosada, de cabelos e bigodes bem brancos, parecia um desses portugueses bigodudos bem tradicionais, homem de conversa alegre, longa e espontânea. Conheci-o por acaso, indo ao supermercado do bairro, e foi assim, batendo um “papo” com ele, que descobri sua relação com a arvorezinha. Aliás, ela sempre me chamou a atenção, pelos contornos que adquiriu ao longo do seu crescimento e pela resiliência com a qual dotou-a a mãe-natureza diante da ação dos elementos – do sol, da força dos ventos e das intensas chuvas, entre outros.

Cuidadoso e criativo, Francisco criou até uma espécie de “muleta” para a árvore, fundamental para que o pau-brasil crescesse até o ponto em que hoje se acha. Depois, em nova conversa que travamos, disse-me que plantaria outro pau-brasil. Agora, no jardim de sua casa. Um “filho” da curiosa árvore-mãe, que se encontra na calçada de sua residência. A tal “muleta” a que me refiro possui até alguns adesivos reflexivos para, ao serem iluminados à noite, pelos faróis dos veículos, protegerem a sustentação da árvore que era tão querida por ele. Outra ideia sua, desse amigo da natureza que semeou ambas as árvores, que crescem em paz na moradia onde viveu.

Segundo uma de suas filhas, Francisco costumava também presentear amigos e curiosos com sementes ou “filhos” de seu pau-brasil. Esse homem pereceu após a luta contra um tumor maligno alojado em seu cérebro havia alguns anos, infelizmente não detectado a tempo de salvá-lo. A metástase atingiu outras partes do organismo e, por fim, após pouco mais de 40 dias de sua hospitalização, faleceu. Segundo sua filha, a doença o consumiu fisicamente.

Da pessoa de saudável aspecto que aparentava ser, perdeu 30 quilos! Escrevo para lamentar a perda desse homem que, enquanto aqui esteve, além de querido por familiares e amigos, demonstrou amor e sensibilidade para com a natureza. Que sua família continue a preservar as árvores que ele tanto cuidou, em respeito à sua memória! Que Deus o tenha e que ele descanse em paz, após cumprir tão bela e nobre missão!

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