Os perigos do emagrecimento sem estratégia
As chamadas “canetas emagrecedoras” inauguraram uma nova era no tratamento da obesidade e mudaram de forma expressiva a abordagem clínica da perda de peso.
No entanto, o avanço terapêutico trouxe um alerta importante para a medicina do esporte e a nutrologia: emagrecer não pode significar perder músculo.
Estudos recentes apontam que parte significativa da redução de peso promovida por agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP pode ocorrer às custas de massa magra, sobretudo quando o emagrecimento acontece em velocidade superior à capacidade de adaptação do músculo esquelético. O risco é ainda maior em pessoas acima dos 40 anos, sedentárias ou que já apresentam baixa reserva muscular, perfil mais suscetível à chamada obesidade sarcopênica — condição associada a pior prognóstico metabólico e limitação funcional.
Do ponto de vista fisiológico, estudos destacam que o problema não está no medicamento em si, mas na ausência de uma estratégia anabólica paralela. A redução do apetite leva, muitas vezes, à queda da ingestão proteica, enquanto a perda rápida de peso diminui o estímulo mecânico natural sobre a musculatura. Sem treino resistido e aporte adequado de proteínas, a consequência pode ser perda de força, queda da taxa metabólica de repouso, piora da sensibilidade à insulina e maior dificuldade de manter os resultados no longo prazo.
O foco do tratamento precisa sair do número da balança e migrar para a qualidade da perda de peso. “É fundamental monitorar composição corporal, força com dinamometria em consultório, desempenho físico e ingestão proteica com o mesmo rigor com que avaliamos a resposta à medicação”, explica. Os pacientes que associam musculação estruturada, ingestão proteica entre 1,6 e 2,2 g/kg/dia e progressão funcional tendem a preservar — e, em alguns casos, aumentar — a massa magra.
Roberta Siqueira é nutróloga