O futebol brasileiro se sabota e finge não ver

Joga mais, viaja mais, treina menos e ainda compete em condições piores

Escrito por
Ferruccio Petri Feitosa producaodiario@svm.com.br
Legenda: Ferruccio Petri Feitosa é advogado

Durante décadas, repetimos que o futebol brasileiro é o melhor do mundo. Mas há uma pergunta incômoda que precisa ser feita: como sustentar excelência quando o próprio sistema trabalha contra clubes e jogadores? O calendário nacional se tornou um dos mais irracionais do esporte. Enquanto as grandes ligas europeias buscam equilíbrio entre competição, recuperação e qualidade técnica, o Brasil insiste em um modelo que sobrecarrega atletas, reduz tempo de treino e amplia o desgaste físico e mental das equipes.

Os números são claros. Em 2025, clubes brasileiros chegaram a disputar até 81 partidas em uma única temporada. Na Europa, gigantes como Real Madrid, Barcelona, Paris Saint-Germain e Arsenal jogaram entre 58 e 67 partidas. Em alguns casos, o Brasil disputa quase um turno inteiro de campeonato a mais por ano. Mas o problema não é apenas a quantidade de jogos. Existe um fator que o sistema insiste em tratar como secundário: a qualidade dos gramados. Na Europa, o campo é parte essencial do espetáculo e da performance. No Brasil, ainda se aceita jogar em superfícies irregulares, duras, mal drenadas e com variações absurdas de qualidade. Isso não é detalhe técnico, é fator determinante de desempenho. Cada passe exige ajuste, cada arrancada cobra mais do corpo, cada mudança de direção aumenta o risco de lesão. O jogador brasileiro não apenas joga mais e viaja mais. Ele atua em condições inferiores.

Há ainda um agravante estrutural: a geografia. Enquanto clubes europeus percorrem entre 15 mil e 25 mil quilômetros por temporada, no Brasil esse número frequentemente ultrapassa 40 mil, podendo chegar a 50 mil quilômetros ao longo do ano. Não é raro jogar no Sul na quarta-feira e, dois dias depois, entrar em campo no Nordeste. Quando equipes como Ceará Sporting Club ou Fortaleza Esporte Clube enfrentam Sport Club Internacional ou Grêmio em Porto Alegre, o deslocamento pode ultrapassar 10 horas porta a porta, muitas vezes em voos comerciais e com conexões. O desgaste inevitavelmente aparece em campo: menos treino, menor recuperação física, mais lesões e queda de rendimento técnico.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: por que o calendário brasileiro continua sendo organizado como se o país tivesse o tamanho da Bélgica? Seria possível estruturar rodadas com lógica geográfica, reduzir deslocamentos, otimizar custos e preservar a integridade física dos atletas. Mas há um silêncio incômodo nessa discussão: o das federações estaduais. Que deveriam ser as primeiras defensoras dos interesses dos clubes de seus estados, mas, na prática, pouco avançam em mudanças estruturais. O debate raramente evolui e, em muitos casos, a prioridade parece continuar sendo a preservação das receitas do sistema, enquanto ajustes necessários seguem sendo empurrados.

Enquanto isso, o futebol brasileiro continua jogando mais, viajando mais, treinando menos e competindo em condições inferiores. O Brasil não perde competitividade por falta de talento. Perde por falta de organização, prioridade e decisão. Falta coragem para enfrentar os próprios problemas. Porque talento ganha jogo. Mas é a estrutura que sustenta vitórias.

Ferruccio Petri Feitosa é advogado

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