O crescimento alarmante dos afastamentos por burnout no Brasil acendeu um alerta definitivo para o mundo corporativo. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os casos de afastamento por esgotamento profissional cresceram 823% em apenas quatro anos, passando de 823 registros em 2021 para 7.595 em 2025.
Os números revelam algo que muitas empresas ainda resistem em admitir: o adoecimento emocional deixou de ser uma questão individual e passou a ser um problema estrutural das organizações. Esse cenário ganha ainda mais relevância com a entrada em vigor da atualização da NR-1, prevista para maio deste ano.
A mudança representa um marco importante porque inclui oficialmente os riscos psicossociais dentro das obrigações relacionadas à saúde e segurança no trabalho. Na prática, fatores como metas excessivas, jornadas prolongadas, pressão constante, assédio moral, sobrecarga emocional, falta de suporte psicológico e ambientes organizacionais tóxicos passam a ser considerados riscos ocupacionais passíveis de fiscalização.
Até então, muitas empresas tratavam a saúde mental como um tema subjetivo, difícil de mensurar ou restrito à esfera pessoal do colaborador. Com a nova NR-1, essa lógica muda. O sofrimento psíquico relacionado ao ambiente de trabalho passa a exigir prevenção, monitoramento e gestão ativa por parte das organizações.
A nova lei desloca o debate da saúde mental do campo do discurso para o campo da responsabilidade prática. Não será mais suficiente promover ações pontuais, palestras motivacionais ou campanhas superficiais sobre bem-estar enquanto a rotina organizacional continua baseada em medo, cobrança excessiva e exaustão.
Nesse cenário, o RH passa a ocupar um papel ainda mais estratégico. Será necessário investir em prevenção, fortalecer lideranças emocionalmente preparadas, criar canais seguros de escuta e revisar modelos de gestão que adoecem silenciosamente equipes inteiras.
Negligenciar saúde mental impacta diretamente produtividade, turnover, afastamentos e reputação institucional. Mais do que evitar penalizações, cuidar da saúde emocional tornou-se uma necessidade para a sustentabilidade humana e corporativa.
Elaine de Tomy é psicanalista