O Brasil tem esgoto a céu aberto e os congressistas discutem ideias idiotas
Há algo de profundamente brasileiro na capacidade de tratar o essencial como detalhe e o detalhe como urgência nacional. O país onde falta esgoto tratado para milhões consegue, ao mesmo tempo, produzir um cardápio legislativo que oscila entre o curioso e o inacreditável.
Basta percorrer os registros da Câmara dos Deputados para encontrar um desfile de propostas que parecem saídas de uma mesa de bar em fim de noite. Algumas nascem com ares de seriedade, outras parecem pedir licença à lógica antes de entrar na pauta. Nenhuma delas, no entanto, resolve o que realmente dói.
Em 2025 surge a ideia de disciplinar prisão domiciliar com critérios quase imobiliários, sugerindo que condenados não possam cumprir pena em residências consideradas luxuosas. A proposta delimita metragem, número de quartos e até o padrão do imóvel. Como se o problema da justiça brasileira estivesse na metragem do sofá e não na lentidão dos processos.
Voltando um pouco no tempo, já se tentou proibir jogos eletrônicos por serem violentos, como se a violência nacional dependesse de um joystick. Também já se criou capital nacional para itens que mal cabem em uma conversa séria. Boné ganhou esse status. O boné venceu o saneamento por W.O.
Há ainda projetos que avançam sobre hábitos cotidianos com a convicção de quem acredita estar moldando uma civilização. Regulamentar linguagem, sugerir proibições alimentares em algum momento da história, interferir no comportamento privado como se o Estado fosse tutor de rotina doméstica. Tudo isso aparece, desaparece, volta e ocupa espaço.
No campo trabalhista, surgem propostas que misturam sensibilidade com improviso, como a previsão de afastamentos específicos mensais sem desconto salarial. O debate é legítimo, mas frequentemente apresentado sem lastro técnico robusto, como se bastasse boa intenção para sustentar política pública.
E então aparece o episódio recente envolvendo a deputada Duda Salabert, que propõe o fim das armadilhas de cola para ratos. A justificativa fala em crueldade. O tema mobiliza discussões, gera manchetes, ocupa tempo. Enquanto isso, ratos seguem onde sempre estiveram, alimentados não pela armadilha, mas pela ausência de saneamento básico.
O pano de fundo de tudo isso é conhecido. O próprio sistema legislativo permite que praticamente qualquer proposta seja apresentada. Deputados, senadores, comissões e até cidadãos podem protocolar ideias. O resultado é um volume gigantesco de projetos, muitos dos quais não avançam, mas cumprem um papel curioso de marcar posição, agradar nichos ou simplesmente existir.
No meio desse ruído, o que deveria ser prioridade vai sendo empurrado com a barriga. O saneamento básico continua distante da universalização. Hospitais seguem recebendo pacientes por doenças evitáveis. Crianças aprendem menos porque vivem pior. E o país, com uma vocação quase literária para o absurdo, discute a fita do rato.
No fundo, não se trata de rir ou chorar. Trata-se de perceber que o tempo gasto com o irrelevante tem um custo real. E esse custo não aparece em plenário. Ele aparece na vida de quem ainda espera pelo básico.