A camisa do Brasil já não assusta adversários e não empolga torcedores

Escrito por
Gregório José producaodiario@svm.com.br
Jornalista
Legenda: Gregório José é jornalista

Faltam poucos meses para a Copa do Mundo e, pela primeira vez em muito tempo, o coração do torcedor brasileiro parece bater em um ritmo diferente. Não é aquele compasso acelerado de ansiedade feliz, de contagem regressiva marcada na parede, de expectativa quase infantil por ver a camisa amarela em campo. Há algo mais contido, mais cauteloso, quase silencioso.

A recente pesquisa da Genial Quaest escancarou um sentimento que já vinha sendo percebido nas conversas de bar, nos grupos de família e nas arquibancadas vazias de entusiasmo. A seleção brasileira, a nossa seleção canarinha, já não empolga como antes. E isso dói mais do que qualquer derrota.

Talvez seja a ausência de um líder incontestável. Aquele jogador que não apenas resolve jogos, mas que carrega o imaginário coletivo nas costas. Durante décadas, o Brasil nunca precisou procurar muito. Os nomes surgiam quase naturalmente, como se fossem parte de um ciclo inevitável da nossa própria identidade futebolística.

Basta lembrar de Ronaldo Nazário, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Roberto Carlos e Rivaldo. Antes deles, Romário e Bebeto. Jogadores que não apenas vestiam a camisa, mas a transformavam em espetáculo. Era impossível ficar indiferente.

Hoje, o cenário parece outro. O mundo ainda se curva ao talento de Lionel Messi, que na Argentina virou símbolo de redenção e orgulho. Jovens como Lamine Yamal já despertam curiosidade e encantamento. E até Cristiano Ronaldo, já com mais de 40 anos, continua sendo um ímã de multidões, uma figura que transcende o próprio jogo.

E o Brasil? Quem hoje tem esse poder?

O último a ocupar esse lugar talvez tenha sido Neymar. Durante anos, ele foi o rosto da seleção, o jogador que fazia o torcedor parar para assistir, que vendia esperança mesmo nos momentos mais difíceis. Mas o tempo, implacável, trouxe cirurgias, lesões e uma sequência de ausências que diluíram parte daquele brilho.

Os nomes da nova geração estão aí. Vinícius Júnior encanta na Europa, Endrick surge como promessa de futuro. São talentos inegáveis, mas ainda não alcançaram aquele patamar quase mítico que transforma jogadores em símbolos nacionais. Ainda não são, por si só, o motivo que faz alguém sair de casa apenas para vê-los jogar.

Mas talvez a resposta não esteja apenas nos nomes.

Talvez o torcedor não esteja procurando apenas um craque. Talvez esteja procurando identificação. Aquela sensação de ver em campo um time que represente mais do que técnica, que carregue garra, entrega, pertencimento. Algo que, em muitos momentos recentes, pareceu faltar.

E, ainda assim, há algo que resiste.

Porque, no fundo, a relação do brasileiro com a seleção nunca foi apenas racional. Ela é construída de memória, de herança, de histórias contadas de geração em geração. É impossível olhar para a camisa amarela e não lembrar de tardes mágicas, de gols impossíveis, de conquistas que pareciam roteiro de cinema.

A empolgação pode não ser a mesma. O entusiasmo pode estar mais tímido. Mas ele não desapareceu.

Talvez esteja apenas esperando.

Esperando um jogo que reacenda tudo. Um gol que mude o humor do país. Um jogador que, de repente, deixe de ser promessa e se torne símbolo. Porque se há algo que a história da seleção brasileira ensina é que ela sempre encontra um jeito de surpreender, mesmo quando parece desacreditada.

E quando isso acontece, o Brasil inteiro volta a pulsar no mesmo ritmo. Falta aquela magia da bola nos pés, dos dribles desconcertante, da empolgação das arquibancadas, como sempre foi. Como, no fundo, sempre será.

 
Gregório José é jornalista
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