Hipólita, a inconfidente
Hipólita, que fazia parte da elite intelectual da capitania, aprendeu a ler, escrever e a falar em inglês e francês
Na véspera do dia que homenageia Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), protomártir da independência e líder da Inconfidência Mineira, também chamada de Conjuração Mineira, trago a lume uma figura feminina esquecida, porém importante, daquele histórico movimento. Trata-se de Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, nascida no então arraial de Prados, na comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais, provavelmente em 1748.
Sabemos que, além de Tiradentes, outros membros importantes da insurreição em prol de nossa libertação do jugo de Portugal foram Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), Inácio José de Alvarenga Peixoto (1742-1792) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Porém, outros brasileiros participaram da organização das ações que seriam realizadas. Hipólita, filha de Pedro Teixeira de Carvalho (que ocupava o cargo de capitão-mor da vila de São João del-Rei) e de Clara Maria de Melo, possuía considerável patrimônio, que recebera por herança paterna.
Casou-se, ao que tudo indica, aos 33 anos, bem tardiamente para os padrões da época, com Francisco Antônio de Oliveira Lopes, filho de um fazendeiro da freguesia de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo, atual Barbacena. Francisco foi companheiro de armas do alferes Tiradentes, dele tornando-se amigo, e envolver-se-ia também com a conjuração, tendo sido condenado ao degredo perpétuo, em Angola.
Entre outras fazendas, Hipólita era dona da Ponta do Morro, entre a vila de São José del-Rei (atual Tiradentes), São João del-Rei e o arraial de Prados, onde nascera. O local ficava perto do Caminho Novo, que ligava o Rio de Janeiro a Vila Rica (hoje, Ouro Preto), por onde circulava o ouro extraído de Minas rumo a Lisboa. Com o declínio da produção, Portugal instituiu a Derrama, tributo que objetivava completar as 100 arrobas da cota anual de ouro devida à Coroa, gerando indignação entre os brasileiros.
Hipólita, que fazia parte da elite intelectual da capitania, aprendeu a ler, escrever e a falar em inglês e francês. Na fazenda, promovia serões onde se reuniam Tiradentes e outros conjurados. Além de questões religiosas e filosóficas, na Ponta do Morro eram definidas estratégias e o papel de cada inconfidente na deflagração do movimento. As ideias de Tiradentes forjaram, no espírito da corajosa mulher, sua própria compreensão política sobre o tempo em que vivia. Ao saber da noticia da prisão de Tiradentes no Rio de Janeiro, ela enviou mensagens ao marido e a outros responsáveis pelo esquema militar da revolta.
Tentou iniciar ainda a resistência armada, mas alguns dos inconfidentes recuaram ou, em razão das delações e prisões, não houve condição de reação. Por seu envolvimento, foi punida pelo visconde de Barbacena com o sequestro de seus bens. Astutamente, escondeu parte de seu patrimônio, subornando funcionários da Coroa, e recuperou-o durante os dez anos seguintes. Faleceria em 1828, deixando a marca da presença feminina no mais marcante movimento revolucionário brasileiro.