Os R$ 120 milhões e o mapa desigual da inovação em saúde
O passo é relevante porque o Brasil ainda opera abaixo do seu potencial. Em 2024, registrou 254 estudos clínicos, responde por menos de 2% da pesquisa clínica mundial
Num país em que a inovação em saúde ainda obedece a uma geografia concentradora, o anúncio de R$ 120 milhões para pesquisa clínica deve ser lido menos como gesto episódico e mais como decisão estratégica. O recurso integra o recém-lançado Programa Nacional de Pesquisa Clínica, via Finep/CT-Saúde, com seleção de propostas no segundo semestre de 2026 e execução até 2028.
O passo é relevante porque o Brasil ainda opera abaixo do seu potencial. Em 2024, registrou 254 estudos clínicos, responde por menos de 2% da pesquisa clínica mundial e, embora esteja entre os 20 países mais relevantes, tem potencial para alcançar o grupo dos 10. A nova regulação tenta enfrentar um gargalo histórico: reduzir de 180 para 30 dias a avaliação ética nos CEPs, com prazo de até 90 dias úteis na Anvisa e de 15 dias para pesquisas estratégicas para o SUS.
Mas há uma geografia da inovação que o entusiasmo oficial não apaga. Em 2024, os patrocinadores listaram 501 centros candidatos a ensaios clínicos; 261 estavam no Sudeste, 118 no Sul e apenas 83 no Nordeste. Entre 870 investigadores selecionados, 81% estavam nas regiões Sul e Sudeste. Sem descentralização real, o país continuará reproduzindo dependência regional dentro do próprio sistema nacional.
O perfil dos estudos também revela um limite. 63% das 315 petições submetidas em 2024 eram de fase 3, enquanto o novo programa quer ampliar ensaios de fase 1, justamente onde se concentra maior valor científico, tecnológico e industrial. A direção está correta, mas exigirá infraestrutura, qualificação de equipes e redes hospitalares capazes de sustentar essa virada.
R$ 120 milhões são um bom começo, mas não uma solução. Só farão diferença se ajudarem a transformar hospitais universitários, unidades do SUS e instituições do Nordeste em territórios de conhecimento, acesso precoce a terapias e soberania sanitária. Pesquisa clínica não é luxo acadêmico. É política industrial, política social e política de futuro.