Transição ecológica exige compromisso social, não apenas discurso verde

Escrito por
Lídice Berman producaodiario@svm.com.br
Lídice Berman é organizadora do Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC)
Legenda: Lídice Berman é organizadora do Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC)

Nos últimos anos, a expressão “transição ecológica” deixou de ser apenas um conceito ambiental e passou a ocupar o centro do debate econômico global. Diante da crise climática, da perda acelerada de biodiversidade e da crescente pressão sobre recursos naturais, governos e instituições começaram a reconhecer que o modelo econômico baseado em extração intensiva e descarte contínuo simplesmente não se sustenta mais.

A urgência climática tornou evidente aquilo que muitos territórios já sabiam há décadas: não existe prosperidade possível em um planeta exaurido.

No Brasil, esse debate começa a ganhar forma institucional. A agenda ambiental passou a dialogar com políticas industriais, estratégias de desenvolvimento produtivo e programas de inovação econômica. A transição ecológica, portanto, deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser também uma agenda de reorganização econômica.

Nesse cenário, a economia circular surge como uma das principais estratégias para redesenhar cadeias produtivas. Ao substituir o modelo linear,  extrair, produzir e descartar, por sistemas que priorizam reaproveitamento de recursos, redução de resíduos e regeneração de materiais, a circularidade aponta caminhos para um desenvolvimento mais resiliente.

Mas toda transição carrega uma pergunta essencial: quem participa dela e quem se beneficia dela? Essa é uma questão central para o Brasil.

Se por um lado a agenda da sustentabilidade avança no discurso público, por outro ainda existe um desafio importante: garantir que essa transformação esteja acompanhada de compromissos sociais transparentes e políticas públicas consistentes. Felizmente, alguns avanços institucionais já começam a estruturar essa agenda no país.

Entre eles está a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010, que estabeleceu princípios fundamentais como responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, logística reversa e valorização de materiais recicláveis. A PNRS foi um marco ao reconhecer formalmente o papel dos catadores e cooperativas na gestão de resíduos e ao introduzir uma visão mais sistêmica sobre reaproveitamento de recursos.

Mais recentemente, o Brasil deu novos passos ao estruturar o Plano Nacional de Economia Circular, iniciativa que busca integrar estratégias de circularidade às políticas de desenvolvimento produtivo e inovação. O plano dialoga com a agenda da nova política industrial brasileira e com o esforço de construção de uma estratégia nacional de transformação ecológica da economia.

Outro exemplo relevante é a Estratégia Nacional de Economia de Impacto (ENIMPACTO), que estimula negócios capazes de gerar retorno econômico e impacto socioambiental positivo. Ao incentivar investimentos e inovação em soluções sustentáveis, a estratégia cria pontes importantes entre circularidade, inclusão produtiva e desenvolvimento regional.

Essas iniciativas mostram que o Brasil começa a construir os instrumentos institucionais necessários para orientar essa transição. Mas políticas públicas, por si só, não garantem transformação. O verdadeiro desafio está em como essas estratégias são implementadas, e em quem participa de sua construção. Porque, muito antes de a economia circular se tornar conceito acadêmico ou pauta corporativa, ela já existia na prática cotidiana de milhares de brasileiros.

Ela está no trabalho dos catadores e catadoras que transformam resíduos em renda e dignidade. Está nas cooperativas que estruturam redes de reaproveitamento de materiais.
Está nos pequenos empreendedores que reinventam cadeias produtivas em bairros periféricos, feiras livres e mercados locais. Esses trabalhadores não apenas participam da economia circular. Eles a sustentam.

Ignorar esse conhecimento acumulado é um erro estratégico, e também uma injustiça histórica. Uma transição ecológica verdadeiramente consistente precisa reconhecer que sustentabilidade não é apenas uma agenda ambiental. É também uma agenda de desenvolvimento territorial, inclusão produtiva e justiça econômica.

Nesse sentido, o Brasil possui vantagens importantes. O país reúne biodiversidade estratégica, diversidade cultural, redes sociais de inovação comunitária e experiências territoriais que dialogam diretamente com os desafios contemporâneos. Iniciativas como o Fórum Nordeste de Economia Circular têm buscado justamente ampliar esse diálogo entre políticas públicas, inovação econômica e protagonismo territorial. Ao conectar governos, universidades, empresas e organizações sociais, essas plataformas ajudam a revelar algo essencial: a transição ecológica não acontece apenas em gabinetes ou relatórios técnicos, ela acontece nos territórios onde a economia real se constrói todos os dias.

O desafio agora é garantir que esses territórios também participem das decisões que definirão os rumos dessa transformação.

A história econômica mostra que grandes mudanças produtivas costumam gerar novos desequilíbrios sociais quando não são acompanhadas de políticas públicas inclusivas. A revolução industrial produziu riqueza, mas também desigualdades profundas. A economia digital ampliou oportunidades, mas concentrou poder em poucos atores globais. A transição ecológica não pode repetir esse padrão.

Ela precisa ser pensada desde o início como um projeto de desenvolvimento que combine sustentabilidade ambiental com responsabilidade social, participação democrática e transparência institucional.

Isso significa fortalecer instrumentos públicos capazes de garantir participação social, distribuir oportunidades econômicas e ampliar o acesso aos benefícios dessa nova economia. Compreender que regenerar ecossistemas também exige regenerar relações sociais e econômicas.

O Brasil tem diante de si uma oportunidade histórica de construir um novo ciclo de desenvolvimento. Um ciclo que não esteja baseado apenas na exploração intensiva de recursos naturais, mas na capacidade de inovar, regenerar e distribuir valor de forma mais equilibrada.

Para que isso aconteça, a transição ecológica precisa deixar de ser apenas um conceito inspirador e se tornar um compromisso público mensurável. Um compromisso com o clima, com os territórios e, sobretudo, com as pessoas. Porque uma economia verdadeiramente sustentável não é apenas aquela que preserva o planeta. É aquela que também amplia dignidade, oportunidades e futuro para quem vive nele.

Lídice Berman é organizadora do Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC)

 
Gregório Barbosa é fotógrafo
Gregório Barbosa
28 de Março de 2026
Professor aposentado da UFC
Gonzaga Mota
27 de Março de 2026
Gabriel Brandão
Gabriel Brandão
25 de Março de 2026