Situação Kafkiana
Vivenciamos hoje, no Brasil, um momento complicado, enigmático até, com certa semelhança ao pensamento de Franz Kafka, escritor alemão nascido na Tchecoslováquia, de origem judaica. Morreu jovem, 41 anos (1883-1924), no entanto, é um ícone da literatura moderna. Chamado por muitos de “autor do absurdo”, todavia Kafka se preocupava com a integração do indivíduo na sociedade e não concordava com o processo pouco humanizador da época.
Em seus livros, contos e textos, como O Castelo, O Processo, A Colônia Penal, A Metamorfose (obra- prima), dentre outros, revela o desespero daquelas pessoas que buscam a justiça e a lei, bem como respostas aos problemas de difícil compreensão. É claro que não podemos esperar por resultados concretos, em razão da existência de variáveis aleatórias e também de objetivos conflitantes, mas seria fundamental a sinalização de que as diretrizes e políticas estariam sendo concebidas de forma a encontrar caminhos que possibilitem aos brasileiros alcançarem melhores dias, mediante, principalmente, uma democracia plena, a justiça, a liberdade, a criação de empregos e uma distribuição mais justa da renda nacional.
Partindo-se daí, com certeza, outras metas e objetivos seriam atingidos. Lamentavelmente, o Brasil apresenta um dos maiores índices de desigualdade do mundo. Dessa forma, uma das questões mais urgentes, merecendo uma atenção especial de todos aqueles que estão comprometidos com o futuro do nosso País, é o elevado grau de pobreza da grande maioria da população brasileira. O Brasil é rico, todavia, sua população é pobre.
Estamos diante de uma crise existencial. Acreditamos que Kafka foi chamado de “autor do absurdo”, por imaginar situações heterodoxas, com vistas a dar consistência filosófica ao seu pensamento voltado para a inclusão e a justiça social. Omitir-se do debate, como também, ressaltar sua importância e na realidade não o desejar, são comportamentos incompatíveis com a democracia. A não participação pode ser uma forma de se perpetuar a injustiça social e levar o País a ser governado por pequenos expedientes e políticas paliativas. Por fim, gostaria de lembrar Manoel Bandeira, no poema “Desesperança”, quando encerra dizendo: “Ah, como dói viver quando falta a esperança”. Realmente dói muito. Mas com humildade, trabalho, sinceridade, desambição, solidariedade e espírito público, não há dúvida, a dor será reduzida ou mesmo eliminada. Assim, renascerá a esperança de termos uma sociedade politicamente desenvolvida, bem como, econômica e socialmente justa.
Gonzaga Mota é professor aposentado da UFC