Sem água não existe combate à fome
O calendário marca o dia 22 de março como o Dia Mundial da Água. A data costuma mobilizar debates sobre preservação ambiental, escassez hídrica e sustentabilidade. Mas, em muitas regiões do Brasil, especialmente nas periferias urbanas e comunidades em situação de vulnerabilidade, a água ainda representa algo mais básico, a possibilidade de cozinhar e garantir alimento na mesa.
Quando se fala em combate à fome, o debate costuma girar em torno da produção de alimentos, do preço da cesta básica ou das políticas de transferência de renda. Todos esses fatores são fundamentais. No entanto, existe um elemento essencial que muitas vezes passa despercebido nas discussões públicas, o acesso à água potável.
Sem água segura, nenhuma cozinha funciona plenamente. A preparação de alimentos exige higiene, regularidade no abastecimento e garantia de potabilidade. Em cozinhas comunitárias, por exemplo, que atendem diariamente centenas de pessoas em situação de vulnerabilidade, esse fator se torna ainda mais decisivo.
Experiências recentes no Ceará demonstram como o acesso à água tratada pode fortalecer diretamente políticas de segurança alimentar. A implantação de tecnologias capazes de garantir abastecimento contínuo e tratamento da água em cozinhas sociais tem permitido ampliar a capacidade de produção de refeições e assegurar melhores condições sanitárias para o preparo dos alimentos.
Quando unidades comunitárias passam a contar com soluções adaptadas a territórios com infraestrutura limitada, cria-se um ambiente mais seguro, estável e digno para quem trabalha nas cozinhas e para quem depende dessas refeições.
Os números mostram que o desafio ainda é grande. De acordo com dados de 2025 do Trata Brasil, a região Nordeste registrou mais de 93 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI), representando 27,2% do total nacional. Nesse contexto, iniciativas que unem tecnologia social, parcerias institucionais e políticas públicas tornam-se ferramentas essenciais para acelerar soluções.
O combate à fome exige planejamento, investimento e articulação entre diferentes setores. Mas também exige reconhecer o óbvio que muitas vezes passa despercebido.
Letícia Nunes é engenheira ambiental