Saneamento básico: urgência pública
O Brasil convive, em pleno século XXI, com a chaga persistente da falta de saneamento básico. Quase 35 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água tratada e cerca de 100 milhões não dispõem de coleta de esgoto.
Embora historicamente mais grave no Norte e Nordeste, a precariedade do saneamento atinge bolsões urbanos periféricos em todo o país, perpetuando desigualdades regionais e sociais. Nos extremos dessa disparidade, enquanto municípios líderes do Sudeste ostentam cobertura praticamente universal, capitais amazônicas exibem índices alarmantes.
As consequências sanitárias são devastadoras. Doenças hídricas e vetoriais florescem onde falta saneamento: diarreias de repetição, hepatites, leptospirose, parasitoses e arboviroses continuam a acometer milhares. Além das tragédias humanas, o sistema público de saúde é sobrecarregado de internações por ano decorrentes de doenças ligadas ao saneamento inadequado. Em 2024, registraram-se 344 mil internações por essas causas.
Estima-se que cerca de 300 mil trabalhadores brasileiros afastam-se anualmente por enfermidades diarréicas, acumulando quase 900 mil dias de trabalho perdidos, o que equivale a mais de R$ 1 bilhão em horas pagas e não trabalhadas. A própria Organização Mundial da Saúde estima que cada dólar investido em água e esgoto gera mais de US$ 4 em economia de gastos com saúde, fora os ganhos indiretos em capital humano. Adiar a expansão de redes de água e esgoto apenas transfere a conta para os hospitais, para a previdência e para o baixo desempenho escolar e laboral.
No panorama internacional, as carências do Brasil configuram um contraste com sua relevância econômica. Figuramos muito aquém do esperado.
Um Brasil verdadeiramente desenvolvido e justo se mede, antes de tudo, pelo direito de cada cidadão à água limpa e ao ambiente saneado. Somente quando nenhuma criança beber água contaminada e nenhuma comunidade conviver com esgoto a céu aberto poderemos dizer que honramos a nossa responsabilidade sanitária e civilizatória.
Álvaro Madeira Neto é médico