Professores que giram

Escrito por
Davi Marreiro producaodiario@svm.com.br
Consultor pedagógico
Legenda: Consultor pedagógico
Os debates mais recentes sobre educação têm revelado uma preocupação que ultrapassa fronteiras. Nos encontros do SXSW EDU, especialmente na pauta Teaching Today: Innovations to Help Educators Stay and Thrive, emergiu um alerta significativo: a retenção de professores deixou de ser um problema local e passou a configurar um desafio global.
 
Dados recentes da TALIS 2024/2025 reforçam essa constatação. A pesquisa internacional conduzida pela OCDE, investiga as condições de trabalho e as práticas pedagógicas de professores e diretores escolares em diversos países. No Brasil, por exemplo, 14% dos professores com menos de 30 anos manifestam a intenção de abandonar a docência nos próximos cinco anos, percentual inferior à média da OCDE, que é de 20%. Ainda assim, chama atenção o fato de que esse índice permanece inalterado desde 2018, indicando a persistência de desafios estruturais para a permanência na carreira docente.
 
Há várias engrenagens envolvidas nessa persistência, mas a dinâmica geracional evidencia uma inflexão: a estabilidade deixa de ser o eixo principal e passa a funcionar apenas como mais uma peça, enquanto a mobilidade do conjunto se torna determinante. Nessa lógica, a carreira deixa de ser trilho e passa a operar como fluxo.
 
Os dados da TALIS são bastante claros: o salário apenas destrava o mecanismo, é a engrenagem mínima para a máquina não travar antes mesmo de começar. O que realmente mantém o sistema girando são componentes mais sofisticados, como o apoio psicossocial e uma cultura organizacional consistente.
 
Por fim, ignorar a retenção docente já não é descuido; é insistir em uma máquina mal regulada e fingir que o ruído é normal. A carreira continua presa a um eixo verticalizado que promete avanço, mas gira devagar e quase sempre no mesmo lugar. Enquanto isso, profissionais mais jovens procuram mecanismos mais flexíveis, como trilhas em Y, que permitam outros movimentos e formas reais de crescimento. Toda máquina poderá chegar a algum destino, mas isso depende do projeto que a movimenta; do jeito que está, tratamos o professor como um profissional que gira, mas raramente é movimentado.
 
Davi Marreiro é consultor pedagógico
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