Jejum, genética e o que o Ramadã revela sobre o funcionamento do corpo humano
Escrito por
Ricardo Di Lazzaro
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Legenda:
Ricardo Di Lazzaro é médico
A genética deixou de ser entendida como destino. Hoje, a ciência mostra que o DNA funciona como um sistema dinâmico, sensível ao ambiente e ao estilo de vida. Nesse contexto, o jejum intermitente, especialmente quando praticado de forma estruturada, como no Ramadã, é um dos modelos mais evidentes de como hábitos podem influenciar diretamente a expressão dos genes.[
Durante o Ramadã, cerca de 1,9 bilhão de pessoas ao redor do mundo seguem um padrão alimentar específico: o jejum diário do amanhecer ao pôr do sol por aproximadamente 30 dias. Esse modelo vem sendo cada vez mais estudado pela ciência, não apenas pelos efeitos metabólicos, mas também pelos impactos em nível molecular.
Evidências recentes mostram que esse tipo de jejum pode modular positivamente a expressão de genes ligados ao metabolismo, à inflamação e ao estresse oxidativo, ou seja, influenciar processos associados ao equilíbrio do organismo.
Um estudo publicado na Frontiers in Nutrition¹ observou a redução da expressão do gene FTO, associado ao acúmulo de gordura corporal, especialmente em pessoas com sobrepeso, um efeito relacionado a um perfil metabólico mais favorável.
Já pesquisas do National Institutes Of Health (NIH)² identificaram ajustes na expressão de genes ligados ao ciclo circadiano e à inflamação, como CLOCK e IL-1α, sugerindo uma melhor regulação dos ritmos biológicos e de processos inflamatórios.
Na prática, esses achados indicam que o jejum intermitente ode contribuir para uma regulação mais eficiente do metabolismo e de mecanismos inflamatórios, embora os efeitos possam variar de acordo com o perfil individual e os hábitos associados. Outro efeito importante do jejum está na ativação da autofagia, um processo natural do corpo que funciona como uma espécie de “limpeza celular”, eliminando partes danificadas e ajudando a manter o organismo em equilíbrio.
Um estudo clínico publicado na Revista científica Sciences³ acompanhou pessoas com sobrepeso e obesidade durante quatro semanas de jejum no modelo do Ramadã. Os pesquisadores observaram um aumento na atividade de genes ligados a esse processo de renovação celular, como LAMP2, LC3B e ATG5.
O conjunto dessas evidências reforça uma mudança de paradigma: práticas alimentares não são apenas comportamentais, mas também biológicas. O jejum atua como um regulador da atividade gênica, influenciando processos fundamentais do organismo.
Isso não significa que o jejum intermitente seja indicado para todas as pessoas é preciso que seja acompanhado, de perto, por um profissional de saúde, mas evidencia que o corpo humano responde de forma sofisticada a padrões estruturados de comportamento. O Ramadã, nesse sentido, deixa de ser apenas uma prática religiosa e passa a ser um exemplo concreto de como cultura e biologia estão profundamente conectadas.
A genética, portanto, não define sozinha o nosso destino. Ela responde e, muitas vezes, se adapta à forma como vivemos.
Ricardo Di Lazzaro é médico