Invencibilidade é mito: por que maturidade em cibersegurança é saber responder, não evitar
A narrativa de que com investimento suficiente em tecnologia é possível se tornar imune a ataques cibernéticos é muito confortável. Isso porque a promessa da “blindagem total” soa bem em apresentações, mas não resiste à realidade, pois em segurança digital, invencibilidade é mito.
Os números deixam isso claro. Segundo levantamento da Deloitte, 91% das empresas sofreram ao menos um incidente cibernético no último ano, e mais da metade relatou impactos moderados ou severos. Se praticamente todas as organizações estão sendo atacadas, a pergunta estratégica deixa de ser “como evitar tudo” e passa a ser: estamos preparados para responder?
O problema é que essa maturidade ainda é uma miragem para a maioria. O Cybersecurity Readiness Index da Cisco aponta que apenas 5% das empresas brasileiras atingem um nível maduro de preparação. Esse abismo revela um desalinhamento crítico, onde o risco cresce em velocidade exponencial enquanto a capacidade de resposta evolui a passos lentos. Parte dessa lacuna nasce de um erro de perspectiva: muitas organizações ainda tratam a cibersegurança como uma questão puramente técnica, restrita ao departamento de TI. No entanto, o risco cibernético é, acima de tudo, um risco de negócio que impacta a continuidade operacional, a reputação e a confiança dos investidores.
Isso porque os frameworks globais, como o NIST, já estruturam a segurança em pilares que vão muito além da proteção, dando peso igual à detecção, resposta e recuperação. Isso mostra que a verdadeira maturidade, portanto, não reside na ilusão da prevenção absoluta, mas na habilidade de conter danos e restabelecer operações com eficiência sob pressão. Em um contexto de digitalização acelerada e trabalho híbrido, a superfície de ataque é vasta demais para ser totalmente cercada. Sendo assim, insistir na ideia de que não seremos invadidos é ignorar que a resiliência é o novo diferencial competitivo.
Nesse cenário, insistir na narrativa da invencibilidade é perigoso. Ela cria uma falsa sensação de controle e reduz o senso de preparo para o inevitável, por isso as empresas verdadeiramente maduras partem do princípio de que incidentes podem acontecer, e estruturam governança, processos e cultura para reagir com rapidez.
Vale reforçar que as empresas que comunicam incidentes com transparência e demonstram controle em momentos críticos não apenas sobrevivem, mas fortalecem sua marca. Isso exige mais do que software; exige treinamento, simulações de crise e o envolvimento direto da alta liderança, do jurídico e da comunicação. No fim, trocar o questionamento "estamos protegidos?" por "estamos prontos?" é o que separa o marketing da estratégia real. Portanto, a maturidade em cibersegurança não é sobre nunca ser atacado, mas sim proteger o valor do negócio mesmo quando o sistema falha. Nesse caso, a invencibilidade pode vender produtos, mas é a resiliência que sustenta operações.
Fernando Dulinski é empreendedor