Empreendedorismo feminino: uma agenda econômica que o Brasil não pode ignorar
O mês de março tradicionalmente convida à reflexão sobre a condição das mulheres na sociedade. Mais do que homenagens pelo Dia Internacional da Mulher, o período deve suscitar um debate estrutural: o papel das mulheres na dinâmica econômica brasileira, especialmente no empreendedorismo.
Nas últimas décadas, o empreendedorismo feminino deixou de ser fenômeno marginal para tornar-se parte relevante da atividade produtiva nacional. Dados do Sebrae, com base na PNAD Contínua do IBGE, indicam que o Brasil possui mais de 10 milhões de mulheres à frente de negócios próprios. São empreendedoras que geram empregos, movimentam a economia e contribuem diretamente para a circulação de renda em suas comunidades.
Ainda assim, persiste um paradoxo: as mulheres empreendem cada vez mais, mas em condições estruturalmente mais desfavoráveis. Estudos indicam maiores dificuldades de acesso ao crédito produtivo, menor volume de investimento e concentração em atividades de menor capitalização e menor potencial de crescimento.
Essas desigualdades não decorrem de circunstâncias isoladas. Elas refletem um processo histórico de exclusão feminina dos espaços de decisão econômica. Durante décadas, o acesso das mulheres à propriedade, ao crédito e à liderança empresarial foi limitado por barreiras jurídicas e culturais cujos efeitos ainda permanecem na estrutura produtiva.
Nesse contexto, o empreendedorismo feminino assume papel que ultrapassa a dimensão individual. Para inúmeras brasileiras, abrir um negócio representa não apenas geração de renda, mas também afirmação de autonomia econômica.
A Constituição de 1988 consagrou a igualdade entre homens e mulheres como princípio fundamental. Contudo, a igualdade formal não elimina desigualdades materiais profundas. Promover o empreendedorismo feminino significa, portanto, fortalecer um dos pilares do desenvolvimento econômico e dar concretude ao compromisso constitucional com a igualdade.
Carolina Tavares é advogada