Em Missão de Paz!
Sou missionária da Canção Nova e vim morar em Israel, com a guerra ainda em curso. E a pergunta que mais ouvi antes de vir foi: você não tem medo? Minha resposta sempre foi a mesma: eles estão em guerra, mas eu vou em missão de paz, meu coração está em paz.
Tem sido uma das experiências mais profundas e marcantes da minha vida missionária. Diferente da minha breve experiência no Paraguai, Israel impõe o desafio da distância, por ser no Oriente Médio, e das diferentes línguas: o hebraico é o idioma oficial, mas temos o árabe e a necessidade do inglês e italiano para a missão com a Igreja.
Em Jerusalém, inúmeras vezes fomos acordados por sirenes; ouvimos e vimos explosões de mísseis abatidos pelo sistema de defesa. Havia tensão no ar, ameaças constantes e justificativas conflitantes. E assim foram dois anos até que um acordo de paz fosse possível.
Neste mês, a Igreja nos convida a rezar pelas intenções do Papa Leão XIV: “Rezemos para que as nações avancem em direção a um desarmamento efetivo, especialmente o desarmamento nuclear, e para que os líderes mundiais escolham o caminho do diálogo e da diplomacia em vez da violência.”
O Catecismo da Igreja Católica (CIC 2308) diz: “Cada cidadão e cada governante deve trabalhar no sentido de evitar as guerras”. É preciso uma busca contínua pela paz, que leve os corações ao desarmamento. Certamente, se empenhássemos nossos recursos em soluções diplomáticas em vez de armas, estaríamos mais próximos da paz social e mundial. No Sermão da Montanha, no Evangelho de Mateus (5,9), Jesus nos ensina: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.
Para mim, Paz é uma Pessoa: Aquele que disse: “Quando dois ou mais estiverem reunidos em Meu Nome, aí eu estarei.” e “A paz esteja no meio de vós!” Ele nos aceita como somos, mas não nos deixa como estamos. Por isso, o homem nunca encontrará a paz se tirar Deus do centro. Como diz a antiga canção: “A paz que é tão sonhada e cantada em canções tão lindas, só chegará até nós, quando ouvirmos a voz do Senhor!”
Inspirado em Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino disse que “a paz não é mera ausência de guerra, mas a presença de uma ordem justa. A União harmônica dos apetites internos do homem e a concórdia com o próximo, baseada na justiça e na caridade.”
Toda guerra começa no coração humano dominado pelo pecado, e pelo desejo de fazer “justiça” do próprio modo. Bento XVI dizia: “o desarmamento não se refere só a armas entre Estados, mas começa no “desarmar do coração” de cada pessoa.” Para enviar um homem à guerra, é necessário fazê-lo acreditar que o outro é seu inimigo, quando na verdade, são apenas jovens com sonhos interrompidos. Talvez, de um lado um jovem sonhador que queria formar uma banda de rock com seus amigos e viajar o mundo, e do outro um jovem apaixonado que acabara de pedir a mão de sua amada, mas que terá que adiar o casamento, pois foi convocado para defender o seu país. Estes jovens, que nem se conhecem, têm a vida transpassada por um sentimento de ódio, cuja fonte é o coração doente (pecado) de outros homens, e com interesses que vão muito além da defesa do país ou de quem quer que seja. O único inimigo real é o diabo (1 Pe 5, 8-9).
Estamos em 2026. É inaceitável que o conflito armado seja visto como a única solução. Nações que se armam excessivamente revelam que sua intenção de diálogo não é genuína. E a pergunta que surge é: o que eu estou fazendo ou posso fazer diante dessas potências mundiais? Somos como uma gota no oceano, mas como nos ensinou Madre Teresa de Calcutá: “o oceano seria menor sem essa gota.”
Eu creio no poder da oração e lanço mão desta “arma” que tem o poder de desarmar todo aquele que busca nela uma resposta. Longe de me apresentar como modelo, aproveito a oportunidade para partilhar uma iniciativa que o Senhor me inspirou alguns dias depois de chegar à Terra Santa, de interceder pela paz. E como gesto concreto, buscando formar uma grande rede de intercessão, começamos a rezar o Santo Terço pela Paz no dia 17 de julho de 2024, todas as quartas-feiras, no instagram @cnterrasanta, das 6h05 da manhã aqui na Terra Santa (00h05 horário de Brasília). O horário foi escolhido com a intenção de atrair e dar um sentido à vida daquelas pessoas que têm dificuldade de dormir cedo. Somos poucos, mas diante da urgência da paz, não só a nível mundial, mas pessoal, temos feito o bem que nos cabe e é possível nesse momento.
Deixo aqui o convite para que você reflita de maneira particular como tem nutrido a paz no seu coração, e para que você se una a nós nessa prece ‘minúscula’, mas que, eu creio, tem sido uma aljava cheia nas mãos de Deus para a consolidação da paz! Eu não espero a paz perfeita nesta terra, mas sou obrigada pela fé que professo, e pelo amor que recebo, a difundi-la com todas as minhas forças, pois eu vim em missão de paz!
Carla Picolotto é missionária