Educação: a sina de Ofélia
Escrito por
Davi Marreiro
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Legenda:
Consultor pedagógico e professor
Já se afirmou que prever o futuro depende, antes de tudo, de ter poder para moldá-lo, poder sistematicamente negado a Ofélia e, por analogia, à educação nacional. Assim como a personagem de Shakespeare, a educação sobrevive cercada de discursos elogiosos, mas sem controle efetivo sobre a própria trajetória.
Em 2025, por exemplo, o cenário educacional brasileiro apenas reiterou um paradoxo que já perdeu o direito ao espanto: enquanto os estudantes incorporaram a Inteligência Artificial ao cotidiano escolar com rapidez, grande parte das escolas continua presa a carências estruturais básicas, como se o futuro fosse algo a ser observado de fora, e não construído por decisões concretas.
É possível reconhecer avanços graduais na expansão da rede escolar; ainda assim, 2025 deixou claro que a infraestrutura básica segue sendo privilégio, não regra. Dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação, mostram que menos da metade das escolas públicas dispõe de tratamento de esgoto e que mais de 20% operam sem coleta regular de lixo. As desigualdades regionais aprofundam esse quadro: no Acre e em Roraima, três em cada dez escolas ainda funcionam sem água potável; no Acre e no Amazonas, cerca de um terço das unidades públicas não conta com energia elétrica; e, em Roraima, mais de um quarto das escolas sequer possui banheiro.
Essas condições elementares evidenciam que a qualidade da educação pública depende de políticas intersetoriais e de decisões estruturais externas ao campo educacional. Sem a garantia estatal de infraestrutura básica, a escola passa a operar em regime de improviso. Assim, apesar bela no discurso coletivo e elegante no propósito que afirma carregar, configura-se como uma política dependente, sem domínio sobre as variáveis que determinam seus resultados.
Por fim, a educação pública carrega a sina de ver suas qualidades mais nobres convertidas em instrumento. A honestidade do projeto e a beleza do ideal passam a operar a serviço da conveniência, da sedução retórica e da aparência de avanço, como uma alcoviteira que media encontros e testemunha a própria inocência moral ser arrancada.
Davi Marreiro é consultor pedagógico