Burnout e Boreout

Ocorre que a essência do trabalho não é alcançada quando ele é visto apenas como ocupação ou fonte de renda

Escrito por
Valdélio Muniz producaodiario@svm.com.br
Jornalista
Legenda: Jornalista

Na realidade do mercado de trabalho contemporâneo, vê-se por parte de muitos gestores (públicos e privados) o cometimento de um grave equívoco: o de medir a saúde do trabalhador, sua felicidade (realização) e seu comprometimento profissional a partir da produtividade que oferece ao longo de sua jornada de trabalho.

Mas, como acontece em outros campos da vida humana, também neste meio corporativo, a aparência pode induzir a erro. A produtividade existe mesmo quando o empregado não encontra sentido algum em seu trabalho, bastando que ele ative o chamado “piloto automático”.

Ocorre que a essência do trabalho não é alcançada quando ele é visto apenas como ocupação ou fonte de renda. Para um gestor descomprometido com a dignidade humana do seu “colaborador” e preocupado unicamente com a entrega (resultado imediato), pode parecer suficiente. Mas, a conta chega a médio ou longo prazo sob diversas formas, que vão desde a falta de motivação real, comprometimento da criatividade, ausência de sentimento de pertencimento à organização empregadora e adoecimento, pois trabalho há de ser, também, elemento de identidade e realização (pessoal e profissional).

A apatia, comum quando o trabalhador já não se vê no trabalho que realiza, pode indicar algo ainda pouco abordado e que guarda correlação com as condições de trabalho: o boreout. O termo, derivado do verbo inglês “to bore” (entendiar), define um distúrbio psicológico que, ao contrário da síndrome de burnout, decorre não do esgotamento por excesso de pressão, metas inalcançáveis ou jornadas extenuantes, mas da falta de desafios, de reconhecimento (valorização, feedback) e da desmotivação extrema no ambiente de trabalho (tédio crônico).

Enquanto o burnout é reconhecido desde o início de 2022 como doença ocupacional pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o boreout ainda carece de enquadramento próprio no Código Internacional de Doenças-CID, mas, em razão de seus sintomas pode ser classificado em códigos mais genéricos como problemas relacionados ao trabalho.

O boreout se dá quando o trabalhador se sente estagnado, subaproveitado em suas habilidades, submetido a meras tarefas repetitivas. Esse vazio profissional é grave passo para problemas como fadiga constante, ansiedade, depressão, irritabilidade, insônia e estresse psicológico. Requer, assim, o cuidado de todos(as).

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