A cadeia de valor como elo imprescindível na descarbonização
Neste ano, as estratégias de descarbonização do setor privado tendem a ganhar mais consistência, especialmente depois da COP30, que trouxe discussões relevantes. Além disso, o governo federal se mostrou disposto a acelerar essa agenda ao lançar um programa de preparação da indústria para competir em mercados mais exigentes e sinalizar que publicará as normas legais do mercado de carbono até o fim de 2026.
Com isso, as empresas brasileiras não podem tratar o tema como um exercício restrito aos próprios ativos e operações diretas. E isso é importante porque quando o assunto é a descarbonização ainda é comum pensar apenas no que acontece “dentro de casa”: processos produtivos, consumo de energia, metas internas. Mas essa visão já não é suficiente. Em um cenário regulatório mais robusto e com metas climáticas cada vez mais ambiciosas, olhar para fornecedores, parceiros e até clientes deixou de ser opcional e passou a ser parte central da estratégia.
Esse ponto ganha ainda mais relevância com o avanço do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que prevê a quantificação de emissões líquidas associadas a remoções de carbono integradas aos processos de produção da empresa regulada. Ignorar a cadeia de valor nesse contexto não só compromete a efetividade da ação climática, como também aumenta riscos e reduz a competitividade dos negócios.
Outra necessidade é a integração setorial. A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil é do tipo economy wide, ou seja, abrange todas as emissões de gases do efeito estufa da economia. Para alcançar a redução de 59% a 67% até 2035, em relação a 2005, será indispensável coordenação entre setores e cadeias produtivas inteiras. E isso inclui, de forma decisiva, um olhar integrado para as cadeias produtivas.
O setor de energia ilustra bem essa dinâmica no Brasil. O biometano, por exemplo, surge como uma grande oportunidade de descarbonização para grandes consumidores de combustíveis fósseis, mas sua origem está, em grande parte, em empresas médias, especialmente ligadas ao agronegócio e ao setor sucroenergético. É uma solução que nasce na base da cadeia e só ganha escala quando há articulação com grandes consumidores, infraestrutura adequada e sinais econômicos consistentes.
O mesmo vale para a eletrificação de processos industriais. Para que essa transição seja viável do ponto de vista competitivo, a energia precisa ser renovável, confiável e acessível. Sem segurança no fornecimento e preços adequados, a indústria tende a manter fontes fósseis por uma lógica econômica e operacional, um raciocínio que se repete em diferentes frentes da transição.
Longe de serem apenas quem recebe as exigências, as âncoras da cadeia de valor têm potencial para liderar esse movimento e ampliar a fronteira da ação climática para além de suas fronteiras organizacionais. O esforço inicial existe, mas os ganhos tendem a ser significativos para o acesso a novos clientes e a permanência em mercados globais. Uma pesquisa de 2025 do Boston Consulting Group aponta que 82% das empresas já identificam benefícios econômicos mensuráveis a partir de iniciativas de descarbonização.
É possível compreender, portanto, que a descarbonização não é um exercício individual. Ela exige colaboração, transparência e visão de longo prazo. A NDC brasileira aponta o caminho ao demandar uma abordagem transversal. Cabe agora às companhias entender que a cadeia de valor não é um complemento da estratégia climática, mas o seu núcleo. Ignorar essa realidade é desperdiçar eficiência, aumentar riscos e perder espaço em um mercado que avança rapidamente rumo a uma economia de baixo carbono.
A jornada do Brasil rumo ao Net Zero só será bem-sucedida com movimentos coordenados. A partir de agora, em 2026, abrem-se boas oportunidades para que empresas de médio porte ampliem sua atuação, gerem novos negócios e puxem toda a cadeia em direção à eficiência e à competitividade. Para isso, integração, coordenação e investimento precisam estar no centro das decisões da alta liderança.
Henrique Pereira é empreendedor