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Uma em cada três rodovias estaduais do Ceará não saiu do papel

Estradas estão distribuídas de Fortaleza ao interior, incluindo trajetos de terra.

Escrito por
Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
Foto que contém estrada de terra em Parambu.
Legenda: Ceará tem 32,2% das rodovias estaduais ou sem pavimentação, ou planejadas.
Foto: Prefeitura Municipal de Parambu/Reprodução.

O Ceará tem aproximadamente 14 mil quilômetros (km) de rodovias estaduais, de acordo com o mapa de 2026 da Superintendência de Obras Públicas do Estado (SOP-CE). Desse total, 4,4 mil km são estradas ainda não construídas ou que não foram pavimentadas.

Isso corresponde a aproximadamente um terço de toda a extensão de rodovias estaduais cearenses. Dos 4,4 mil km de estradas que não saíram do papel, 3,2 mil km são chamadas de rodovias planejadas, e 1,2 mil km são de rodovias sem pavimentação. 

O mapa da SOP, entretanto, não especifica exatamente quais rodovias estão nessa situação nem por quais municípios elas passam.

A pasta respondeu à reportagem apenas com informações sobre os distritos operacionais, unidades organizacionais da SOP distribuídas pela Região Metropolitana de Fortaleza e pelo interior do Estado, responsáveis por fiscalizar projetos, acompanhar contratos e coordenar obras.

De acordo com a SOP, todos os 11 distritos operacionais, que abrangem as 184 cidades do Ceará, têm trechos que ainda não saíram do papel. A pasta acrescentou que o Informativo Gerencial de 2026 com detalhes gerais sobre as rodovias cearenses deve ser divulgado ao longo do mês de maio. 

 

Ceará tem menos de 700 km em rodovias duplicadas

Ainda segundo o mapa, das rodovias estaduais pavimentadas no Ceará - 9,5 mil km no total - menos de 8% são duplicadas. São no total apenas 682,9 km em pista dupla pavimentada. 

Cerca de 60% desses trechos se concentra na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). Rodovias como a CE-010 e CE-040, que começam em Fortaleza, são duas das poucas inteiramente duplicadas no Estado.

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Entre os projetos, está um trecho da CE-085 (também chamada de Rodovia Estruturante) entre o Aeroporto de Cruz-Jericoacoara e o município de Jijoca de Jericoacoara. Outro deles é a duplicação da CE-292 em Juazeiro do Norte, na sexta e última etapa do Anel Viário do Cariri.

O professor de Pós-Graduação do departamento de Engenharia de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Heber Oliveira, observa que é " fundamental ter planejamento estratégico associado com diversificação de fontes de financiamento".

"Isso inclui priorizar corredores logísticos, ampliar parcerias com o setor privado, melhorar a qualidade dos projetos executivos e adotar soluções de engenharia mais adequadas",  avalia. 

RMF tem mais de 150 km de rodovias planejadas

Os trechos mais pavimentados e duplicados do Estado se localizam na Grande Fortaleza. São 913,5 km seja com camada asfáltica, pavimento intermediário ("tijolinho") ou concreto de pavimentação (Cimento Portland).

Apesar disso, a Capital e os municípios vizinhos têm mais de 230 km de rodovias que não saíram do papel.

Desse total, 153 km são planejadas, o que inclui o Arco Metropolitano de Fortaleza, com quase 100 km de extensão. Heitor Studart, coordenador do núcleo de infraestrutura da Federação da Indústria do Estado do Ceará (Fiec), relembra que a rodovia, que será um prolongamento da já existente CE-155, não sai do papel por indefinição.

rodovia
Legenda: Arco Metropolitano deve desafogar fluxo da Região Metropolitana de Fortaleza
Foto: Thiago Gadelha

"Ora se fala em execução com recursos próprios, ora se fala em abrir uma Parceria Público-Privada (PPP), que acho que é o caminho mais certo, explorando pedágios e viabilizando um financiamento. Isso precisa ser definido", frisa.

Região Metropolitana de Sobral não tem nenhuma rodovia duplicada

A Região Metropolitana de Sobral totaliza 1.724,6 km de rodovias, e nenhum dos trechos sob administração do Estado é duplicado.

As estradas estaduais da região são, em sua maioria, pavimentadas: 1.267,4 km. Apesar disso, Sobral ainda tem 457,3 km de rodovias que não saíram do papel, sejam elas planejadas ou já existentes em trajeto de terra.

Foto que contém placa do km 39 da CE-240.
Legenda: Último trecho da CE-240, que liga Sobral à Itapipoca, foi entregue há cinco anos.
Foto: Tiago Stille/Governo do Ceará.

Segundo Heber Oliveira, essa discrepância entre duas regiões metropolitanas é natural pela alta densidade populacional e atividade econômica concentradas na RMF, apesar da importância de Sobral, maior polo calçadista do País.

"Regiões do interior, como as que possuem maior extensão territorial e menor densidade e sem atividades econômicas ou industriais que justifiquem sua execução, elevam o custo por quilômetro e reduz a velocidade de expansão da malha pavimentada", pondera.

Quase metade das rodovias estaduais do distrito de Quixeramobim não saiu do papel

Situação similar a de Sobral ocorre nas regiões de Crateús e Quixeramobim, com também nenhum trecho duplicado. Tauá tem somente 360 metros de estrada estadual em pista dupla.

A região de Quixeramobim têm ainda o menor percentual de rodovias pavimentadas do Estado: 50,4% ao todo, o que corresponde a 644,9 km. 

São 511 km em rodovias estaduais não pavimentadas na região, isto é, em trajeto de terra. São estradas como a CE-266, que segue sem pavimento entre Banabuiú e Boa Viagem, além de um trecho entre Monsenhor Tabosa e Tamboril. Outros 123,2 km são planejados.

Foto que contém pavimentação da CE-266. Trecho está todo em terra, com um trator na estrada.
Legenda: CE-266 entrecorta o meio do Ceará, mas boa parte da rodovia segue em trajeto de terra.
Foto: Arquivo Governo do Ceará.

Vale ressaltar que a região de Quixeramobim receberá o primeiro porto seco do Ceará. Ele atuará integrado com a Ferrovia Transnordestina, mas também vai necessitar de infraestrutura rodoviária para o escoamento da produção.

"A economia do Ceará aumenta. Temos novos polos micro e macroeconômicos, os pátios intermodais da Transnordestina planejados. Tudo precisa da saída das estradas vicinais para escoamento das produções e/ou interligação com as BRs, que são as rodovias estruturantes", observa Heitor Studart.

Situação encarece custo logístico no Ceará 

Heitor Studart explica que a falta de pavimentação de rodovias e implementação de trechos planejados encarece o custo logístico cearense.

"Tem mercadoria que não está podendo escoar direito porque ou não há implantação das estradas vicinais, ou as estradas não estão em condições adequadas para caminhões de vários eixos. Isso gera perda de demanda, principalmente dos produtos perecíveis", define.

Para Heber Oliveira, o fato de um terço das rodovias cearenses não ter saído do papel "limita o crescimento do Estado e, ao mesmo tempo, eleva os custos logísticos".

Arco Metropolitano e Anel Viário
Legenda: Arco Metropolitano de Fortaleza pode nem sair do papel, enquanto obras de duplicação do 4º Anel Viário da capital se arrastam há quase 15 anos
Foto: Natinho Rodrigues/Diário do Nordeste

Traz menor competitividade para a produção local e dificuldade de integração entre regiões. Sem essas rodovias, alguns municípios permanecem desconectados, o que reduz investimentos e desacelera o desenvolvimento econômico e social do Ceará".
Heber Oliveira
Professor de Pós-Graduação do Departamento de Engenharia de Transportes da UFC

"Durante o período chuvoso, muitos trechos de estradas de terra podem se tornar intransitáveis, afetando o escoamento da produção. Isso também aumenta o desgaste dos veículos, reduz a frequência do transporte rodoviário, limita o transporte porta a porta e impacta o preço final dos produtos", completa o professor.

Rodovias "sobrepostas" são desafios para o Estado

É comum que, em um mesmo trajeto rodoviário, haja a sobreposição de duas ou mais rodovias no Ceará, sejam elas federais ou estaduais. É o caso da CE-060, que entre Quixadá e a entrada para Banabuiú, no Sertão Central, compartilha o mesmo traçado com a BR-122.

Outros exemplos incluem as BRs 403 e 404, que utilizam o mesmo traçado de várias rodovias estaduais, como as CEs 282 (Icó) e 178 (Santana do Acaraú).

Foto que contém a CE-265.
Legenda: Rodovias federais e estaduais sobrepostas no Ceará são comuns.
Foto: Thiara Montefusco/Governo do Ceará.

De acordo com Heber Oliveira, essa situação faz parte do processo histórico da expansão da malha viária do Ceará, com rodovias sendo incorporadas e adaptadas ao longo do tempo - tudo feito sem o planejamento adequado dos traçados, seja por questões técnicas e/ou políticas.

"Além disso, limitações orçamentárias podem ter aproveitado vias já existentes. Embora não seja incomum, isso pode gerar desafios de gestão, operação, segurança e manutenção", avalia o especialista.

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