Condições para o financiamento ainda são restritas
A dificuldade de acesso a linhas de crédito para a aquisição de aparelhos é o principal entrave para uma maior geração
Avançando ainda timidamente em território cearense, a mini e a microgeração de energia deverão ganhar impulso significativo no Estado a partir deste ano, segundo especialistas que acompanham o setor, por conta da isenção do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para esse tipo de geração. Todavia, as condições ainda restritas de linhas de crédito para adquirir os equipamentos necessários representam o principal entrave para que haja uma expansão entre consumidores residenciais e o setor produtivo.
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O Ceará foi o quinto estado brasileiro a promover a isenção, que vale para empreendimentos com geração igual ou inferior a 1 megawatt (MW). Segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a desoneração do ICMS em todos os estados faria com que o País tivesse 55% a mais de sistemas instalados em 2023, em relação ao número de sistemas que haveria, no mesmo ano, sem a isenção de tributos.
Aumento da demanda
"Além disso, com esses aumentos do preço da energia, a procura (pela microgeração) tem crescido muito. O que antes era uma coisa pensada para o futuro, hoje é uma preocupação verdadeira por conta desse cenário", destaca o diretor setorial de mini e microgeração de energia do Sindicato das Indústrias e de Serviços do Setor Elétrico do Ceará (Sindienergia), Vilmar Pereira.
Conforme Pereira, os painéis de energia fotovoltaica são atualmente o principal meio de micro geração hoje buscado no Estado. Os aerogeradores que produzem energia eólica, justifica, precisam de uma área maior e com características específicas, com boa incidência de ventos. "Mas o painel solar funciona em praticamente qualquer área onde não tenha sombra", compara.
De acordo com o diretor do Sindienergia, o principal obstáculo para o maior uso da microgeração são as condições insuficientes de financiamento para os interessados em gerar energia, uma vez que o investimento na aquisição dos materiais necessários demora alguns anos para render lucros. Hoje, frisa, poucas linhas de crédito atendem a esse público.
Para o diretor da Satrix Energias Renováveis - empresa que atua no setor de geração distribuída - José Bastos, uma das alternativas para facilitar o acesso a itens como painéis fotovoltaicos e aerogeradores seria a criação de financiamentos que contemplassem a compra de uma casa própria com os equipamentos já instalados.
Dessa forma, explica, o consumidor poderia, através de um só financiamento, adquirir os dois bens. "E o consumidor poderia ter uma prestação que fosse menor do que a economia na conta de energia", indica.
De acordo com Bastos, o interesse pela microgeração de energia cresceu vertiginosamente, nos últimos meses, no Estado. Ele informa que a empresa possui 70 clientes em Fortaleza, dos quais 40 tornaram-se microgeradores apenas neste ano.
Venda do excedente
Para o professor da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Gentil, especializado em eletricidade, outro obstáculo para difundir essa prática é o fato de os micro e minigeradores não poderem comercializar a energia excedente que produzem. "Quando é produzido energia extra, o cliente não pode vender aquilo, só utilizar como crédito no futuro. Mas, quando ele vai usar isso? Seria muito mais vantajoso se sele pudesse vender", aponta.
Os microgeradores são aqueles com potência instalada menor ou igual a 100 quilowatts (kW), e os minigeradores aqueles cujas centrais geradoras possuem de 101 kW a 1 megawatt (MW). As fontes de geração precisam ser renováveis ou com elevada eficiência energética, isso é, com base em energia hidráulica, solar, eólica, biomassa ou cogeração qualificada, de acordo com a Aneel. (JM)
Novo cenário
"O que antes era uma coisa pensada para o futuro, atualmente é uma preocupação verdadeira por conta desse cenário"
Vilmar Pereira
Diretor setorial de mini e microgeração de energia do Sindienergia-CE