Aumento na conta de luz reduz a atratividade de indústrias
Para reduzir o impacto, empresas cearenses têm investido em maquinário e mudado o processo produtivo
Enfrentando um momento delicado para a economia, marcado por fatores como o desaquecimento do mercado interno, a indústria foi o setor mais atingido pelos últimos reajustes da conta de luz, cujo acréscimo chegou a cerca de 60%. Com reflexos diretos na produção dos últimos meses, a alta expressiva dos custos com energia trazem implicações que não se restringem às perdas dos empreendimentos já instalados, mas também reduzem a atratividade do Estado.
Para o economista do Núcleo de Economia e Estratégia da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Guilherme Muchale, os gastos elevados com energia tornam mais distantes a vinda de empreendimentos de setores eletrointensivos. Conforme ele, segmentos como as indústrias têxtil, de alumínio e de papel e celulose estão entre os que foram mais prejudicados pelos aumentos recentes.
Iniciativas das empresas
Conforme Muchale, entre as iniciativas que as empresas têm tomado para reduzir os impactos do custo elevado estão investimento em maquinário e em mudanças do processo produtivo, envolvendo, por exemplo, o uso de matéria prima de maior qualidade, que exige menos gastos com energia.
O coordenador do núcleo de energia da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Jurandir Picanço, destaca que essas medidas, entretanto, não estão sendo utilizadas em maior escala devido à redução da atividade no setor.
"E as indústrias também já tentam trabalhar com o mínimo de desperdício. Não existe muito espaço para reduzir o consumo de energia", frisa Picanço.
De acordo com Muchale, o aumento da conta de energia, associado a outros entraves para o setor, tem reduzido bastante a competitividade das indústrias brasileira e cearense.
Exportação com perdas
Ele destaca, por exemplo, que diversas empresas têm mantido a exportação, mesmo registrando perdas, apenas para não perder o contato com os mercados dos outros países.
"A nossa situação, se a gente comparar com outros países, é muito grande", reforça. Muchale cita o exemplo das indústrias do setor têxtil, que, na Argentina, possuem um custo com energia dez vezes inferior ao praticado no Brasil.
"Esse tipo de situação dificulta a atração de investimentos e a nossa competitividade", frisa. O economista acrescenta que as demissões recentes no setor têm sido uns dos reflexos preocupantes desse cenário.
Para o economista da Fiec, a diminuição da carga tributária está entre as principais medidas que o governo pode tomar para reduzir os impactos negativos sobre a indústria.
Ajuste fiscal
"Neste momento, a gente sabe que isso seria mais difícil porque o governo está passando por um ajuste fiscal, mas a gente espera, pelo menos, que sejam mantidos os gastos em infraestrutura e que também seja modernizada a gestão pública", salienta.
O economista da Fiec acrescenta que, além das ações de resultado a curto prazo, o setor também demanda investimentos na área de educação, capacitação e inovação, para qualificar melhor a mão de obra disponível atualmente. (JM)
Pouco espaço
"As indústrias já tentam trabalhar com o mínimo de desperdício. Não existe muito espaço para reduzir o consumo de energia"
JURANDIR PICANÇO
Coordenador do núcleo de energia da Fiec