“Vi pessoas em desespero, jovem morrendo”: como cearenses têm enfrentado a segunda onda de Covid

Com cerca de 15 mil casos confirmados a mais em Fortaleza do que no primeiro momento da pandemia, nova leva de infecções graves alerta para desleixo da população com medidas sanitárias

Paciente chegando em maca ao Hospital Leonardo da Vinci
Legenda: Esgotamento de leitos de UTI é um dos fatores de alerta: é preciso frear o contágio no Ceará
Foto: Helene Santos

Os cuidados de Maria das Graças Mota, 51, e dos filhos para evitar o contágio pelo coronavírus eram inúmeros: chegaram a ficar distantes por dias, para minimizar os riscos. Mesmo assim, ela contraiu a doença – e hoje, entubada, aguarda por um leito de UTI sem previsão de abertura, diante da superlotação das unidades de saúde de Fortaleza.

A agressividade da segunda onda de Covid-19 contrasta com o desleixo da maioria em relação às medidas sanitárias. Mesmo com lockdown, com 15,2 mil fortalezenses a mais atingidos pelo coronavírus em relação à primeira onda, com mais crianças adoecendo, com os leitos superlotados de novo, com os profissionais de saúde suplicando, a ficha parece não ter caído.

A constatação inquieta e escapa pelos soluços de Lívia Mota, 21, cuja liminar judicial que tem na mão de nada adiantou para conseguir uma vaga em Unidade de Terapia Intensiva para a mãe, Maria das Graças, internada desde o dia 3 deste mês na UPA de Caucaia.

“A gente só via minha mãe aos fins de semana, sempre nos protegemos pra ninguém pegar e precisar de leito. Fico imaginando o tanto que a gente se cuidou, que ficou distante pra ela se cuidar e cuidar da minha avó. O tanto que a gente se esforçou, deixou de sair, pra estar passando por isso agora”, emociona-se Lívia.

Os primeiros sintomas da mãe apareceram ainda em fevereiro, após um primo de Lívia ser diagnosticado com a doença, e pioraram progressivamente até Maria desenvolver uma pneumonia. Com “muita tosse, saturação baixa” e já na UPA, a dona de casa precisou ser entubada para continuar respirando.

“Fiquei acompanhando, ligando, mas não sabia que ela tinha sido entubada, uma funcionária que me avisou. Foi o momento que eu desabei. Se ela tivesse conseguido o leito de UTI antes, ela não estaria assim agora, teria outras opções de tratamento. Vejo notícias o tempo todo de gente que morre precisando de UTI. Alguém morrer por não ter assistência? Isso é muito grave”, desabafa a jovem.

Segundo Lívia, uma tia dela também foi vitimada pelo coronavírus e precisou de um leito de UTI – e “mesmo tendo um plano de saúde, quase que ela não consegue”.

“Vi pessoas em desespero, morrendo”

A realidade cruel de uma unidade de terapia intensiva deixou marcas permanentes na dona de casa Sandra Moraes, 55 – que passou 23 dias internada com Covid, três deles na UTI, após perder a mãe de 76 anos para a doença. Ambas contraíram a nova cepa do coronavírus.

Na filha, as intensas dores de cabeça e no corpo começaram no dia 16 de janeiro, evoluindo para graves problemas no sistema digestivo. Sandra desidratou, desenvolveu problemas neurológicos e, mesmo sem problema respiratório algum, precisou ser hospitalizada “direto na UTI”.

“Fiquei sem saber de nada, meus filhos ficaram em desespero, eu me desorientei total. Não sabia mais de nada, que dia era, que tempo. Já dentro da UTI, via as pessoas morrendo, pessoas, gritando. Tem um rapaz que não vou esquecer nunca, ele gritava em desespero”, relembra, emocionada.

Mesmo após ter alta, no dia 4 de fevereiro, o exame PCR de Sandra “demorou muito a negativar”, exigindo que ela permanecesse em isolamento total, em casa, por cerca de uma semana. Ainda hoje, já recuperada, ela enfrenta sequelas musculares – além do luto pela perda da mãe.

“Lá em casa, a gente tava com o maior cuidado. Minha mãe não pegou da gente, esse peso na consciência não temos. Deve ser muito ruim quando você sabe que foi você que passou a doença. Que foi pra festa, se aglomerou, não se cuidou e transmitiu pra algum ente querido”, exemplifica, alertando sobre a seriedade da infecção.

“Teve um dia no hospital que tive uma vontade muito grande de tirar todos os equipamentos e sair correndo. É muito difícil e desafiador. Se as pessoas não estão preocupadas em se resguardarem, que pensem nos outros. Não pedimos muito: é só evitar aglomeração e usar máscara. A gente precisa do outro”, aconselha.

“É uma doença angustiante e solitária”

Aglomeração no Espigão da Praia de Iracema, em Fortaleza
Legenda: Movimentação no Espigão da Beira Mar, em Fortaleza, antes do lockdown
Foto: Camila Lima

A psiquiatra Helena Santos, 53, “não sabe até hoje” como aconteceu, mas contraiu Covid duas vezes: uma em maio e outra em dezembro de 2020, já na segunda onda de casos. Na primeira, desenvolveu sintomas graves da doença – mas enfrentou e cuidou de si sozinha, no quarto, para não expor os filhos à contaminação.

“Comecei com dor de cabeça, evoluiu pra diarreia, palpitações, arritmia. E no 7º dia comecei a ter falta de ar, aquele cansaço, que foi progredindo até o ponto de eu tomar banho sentada. Fui melhorando, mas fiquei com sequelas. Continuo, até hoje, com dispneias (faltas de ar) grandes”, relata.

Na segunda infecção, os sintomas vieram mais leves, de modo que a médica “nem achava que era Covid”. Mas tanto ela como um dos filhos testaram positivo. “Acredito que não peguei a nova variante, senão teria sido mais grave. E talvez ainda tivesse um pouco de imunidade da primeira vez”, pontua.

Se antes era possibilidade, pelas duas infecções, agora a imunidade é certeza: como médica, Helena já está vacinada contra a Covid-19. Apesar disso, cultiva um pensamento que, em tempos de pandemia desenfreada no Ceará e no Brasil, deveria ser regra: “os cuidados permanecem triplicados, temos que pensar no próximo”.

Helena estima que, hoje, cerca de 85% dos pacientes que atende como psiquiatra têm problemas de ansiedade, depressão, fobias, síndrome do pânico e piora nos quadros de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), por causa da crise sanitária.

“A primeira vez que eu tive foi muito angustiante, teve um dia que ficou tudo nublado pra mim. A gente não sabe se vai morrer, o que vai acontecer, se vai piorar. É uma doença muito angustiante e solitária”, destaca.

“Não brinquem com a vida”

Legenda: Aos 28 anos, Mirna foi uma das infectadas pelo coronavírus na segunda onda de casos em Fortaleza
Foto: Arquivo pessoal

Além da febre e das fortes dores de cabeça e no corpo, foi o medo de precisar ser internada um dos sintomas mais fortes que Mirna Sales, 28, enfrentou durante o período em que foi acometida pela Covid, no mês passado.

“Tive dores fortes nas pernas, de não conseguir achar posição confortável na cama. Depois que fiz o exame e testei positivo, não sei se foi ansiedade ou medo, mas senti falta de ar e fiquei nervosa. Creio que foi a preocupação por ter dois pais idosos em casa”, relembra.

A jovem, que é também atleta, confessa que, antes de ser infectada pelo coronavírus, chegava a tirar a máscara fora de casa, “porque incomodava em algumas ocasiões”. Na primeira onda de incidência da pandemia no Ceará, ela cumpriu três semanas de isolamento.

“Se soubesse como era a doença, teria tido muito mais cuidado. Hoje, coloco duas máscaras e  acrescento álcool 70% em spray para passar em tudo o que toco, mais o álcool em gel para as mãos”, afirma.

Diante da própria experiência e do que tem visto sobre a disseminação do vírus pandêmico, a universitária é categórica ao recomendar que todos redobrem os cuidados e as medidas de proteção contra a doença.

“Não aglomerem e usem máscara sempre! Esse vírus é traiçoeiro. Eu peguei de forma leve, tenho gratidão a Deus por não precisar ficar internada. Tive sorte, mas pode ser que outra pessoa não tenha a mesma. Não brinquem com a vida”, alerta.

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