Transplantes de órgãos crescem no Ceará no primeiro semestre de 2021, mas o de coração cai 85%

Pandemia da Covid-19 foi principal fator de impacto no cenário de transplantes de órgãos no Ceará

Sala de cirurgia com médicos que ilustra uma cena de transplante de órgão
Legenda: Secretaria da Saúde (Sesa) informa que 781 órgãos foram transplantados no Ceará em 2021.
Foto: Fernanda Siebra

Apesar das dificuldades impostas pela pandemia da Covid-19, o Ceará contou com aumento nas taxas de transplantes de órgãos realizadas no primeiro semestre de 2021 em relação ao mesmo período de 2020. No entanto, os índices de transplantes cardíacos caíram 85%, indo de sete cirurgias para uma. As informações são da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).

Neste ano, no primeiro semestre, a instituição informa que aconteceram 66 transplantes de rim, 78 de fígado, 49 de medula, 409 de córnea e um de coração. No ano anterior, em igual período, foram 65 transplantes de rim, 71 de fígado, 28 de medula, 209 de córnea e sete de coração. Neste contexto, reitera-se que os primeiros meses de 2020 não continham infecções pelo coronavírus na localidade.

Em relação ao ano de 2019, antes da Sars-Cov-2 atingir os sistemas de saúde, os índices são mais contrastantes. No primeiro semestre, ocorreram 132 transplantes de rins, 108 de fígado, 52 de medula, 427 de córnea e 14 de coração.

Além disso, até junho de 2021, 988 pacientes estavam ativos em filas de espera para receber órgãos no Estado e outros 14 pacientes pediátricos também aguardam. A região conta ainda com 293 potenciais doadores, mas somente 78 foram enquadrados como doadores efetivos atualmente.

781 transplantes

Segundo a Secretaria da Saúde (Sesa), o Ceará realizou - até o dia 10 de agosto de 2021 - 781 transplantes de órgãos e tecidos. Destes, 121 foram realizados entre março e abril, “em que a situação epidemiológica apresentava dados elevados, ocasionando uma paralisação temporária dos transplantes renais e pancreáticos”.

Além disso, a Secretaria informa que 1.616 transplantes foram realizados na rede pública estadual em 2019 e 1.122 em 2020. Neste cenário, os principais órgãos transplantados foram o rim e o fígado. Com relação aos tecidos, o transplante de córnea foi o mais realizado.

Durante a primeira e segunda onda da pandemia de Covid-19, conseguimos manter o programa de transplante ativo, apesar da diminuição na taxa de doação. Nesse sentido, é importante destacar o esforço de todas as equipes envolvidas direta e indiretamente no processo de doação e transplante, e a solidariedade do povo cearense. Nos meses de maio a agosto já apreciamos uma recuperação progressiva, com a normalização na realização de todos os transplantes”
Sesa

Queda nas doações

De acordo com o presidente da ABTO e chefe do Serviço de Transplante Hepático do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), José Huygens Garcia, de modo geral, o contexto da ovid-19 impactou diretamente a realização de transplantes no Estado, além da baixa adesão de novos doadores.

A principal dificuldade foi a queda na doação de órgãos, sem doação não há transplantes e, consequentemente, a fila de espera aumenta, e isso aconteceu no Ceará, no Brasil e no mundo”
José Huygens Garcia
Presidente da ABTO

“No primeiro semestre de 2021, no Ceará, nós tivemos 17 doadores por 1 milhão de habitantes, com uma taxa de doação de cerca de 14%. Se compararmos com o primeiro semestre de 2019, que não havia pandemia, a taxa de doação no Ceará era de 27%”, prossegue o especialista.

Diminuição de leitos

Huygens Garcia informa ainda que houve uma diminuição dos leitos hospitalares decorrente da atenção necessária ao coronavírus. “Nos hospitais do Ceará, a maioria dos leitos foram disponibilizados para os pacientes com Covid-19 e antes eles eram para pacientes com necessidades de outras doenças, como o acidente vascular cerebral (AVC), o infarto e os próprios transplantes”.

Dessa maneira, o coordenador do serviço de Transplante e Insuficiência Cardíaca do Hospital de Messejana (HM), João David de Souza Neto, reitera que, de fato, muitos hospitais voltaram os seus atendimentos para a Sars-Cov-2 nos últimos meses, incluindo o HM.

Neste contexto, “não havia condições mínimas de se fazer transplante, haja vista, por exemplo, que o Hospital de Messejana é o único aqui do Ceará que faz transplante de coração”, relaciona.

Protocolos rígidos

O gestor do HM destaca ainda que os protocolos para realização das cirurgias se intensificaram na pandemia. “As emergências ficaram com uma logística de captação muito complexa, a gente tinha que seguir protocolos muito rígidos para selecionar o doador, com realização de testes de covid-19, tanto do doador quanto do receptor, então tudo isso dificultou”.

Mesmo com as complicações do momento, João David relata que as equipes do Hospital de Messejana estão sempre atentas, “dando assistência aos pacientes que são candidatos a transplantes e que estão longamente em filas de espera. A coisa ruim é que a gente viu muitos pacientes falecerem na lista, e a gente sem ter o que fazer, porque não tinha doação”.

O especialista comenta que, atualmente, está havendo uma melhora gradativa do cenário, com o controle de novos casos do coronavírus no Ceará. “Nós estamos nos recuperando gradativamente, já está se incluindo mais pacientes na lista de espera. E só de julho a agosto nós fizemos quatro transplantes e, no restante dos meses desse ano, ocorreram três, isso mostra uma recuperação”.

Setembro Verde

Para fomentar ainda mais essas circunstâncias, o presidente da ABTO, José Huygens Garcia, comunica que a campanha Setembro Verde iniciará no próximo mês, com o intuito de “aumentar a doação de órgãos e, consequentemente, aumentar também o número de transplantes e salvar mais vidas”.

“Nós precisamos investir muito na divulgação, muitas doenças não tem outra forma de tratamento a não ser o transplante, as pessoas vão morrer na fila... Então deve haver informação da segurança e da necessidade dos transplantes. [...] É importante ainda que os cidadãos manifestem em vida que são doadores de órgãos, quando isso acontece geralmente a família autoriza a doação”, detalha o médico.

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