Terminais de ônibus foram pontos de transmissão da Covid-19 para periferia de Fortaleza, diz estudo

Mapa, trabalhado através da UFC, mostra dados desde o inicio de janeiro, quando ainda não havia confirmações de circulação do vírus no Brasil. Questões socioeconômicas são ressaltadas na hora de apresentar as diferentes formas de manifestação do vírus nos bairros

Legenda: Barra do Ceará é um dos bairros mais atingidos pelo novo coronavírus em Fortaleza

Pesquisadores do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), mapearam o avanço da Covid-19 em Fortaleza e apontaram possíveis fatores que ocasionaram a progressão de casos e óbitos em bairros com alto índice de vulnerabilidade social e faixa etária mais elevada, como as periferias. 

Lançado em formato de vídeo e gif, a observação de dados para a construção do mapa ocorreu desde o início de janeiro, quando ainda não havia confirmação da infecção pelo novo coronavírus no Brasil, até o último dia 17.

 

Segundo o coordenador da pesquisa, o professor Eustógio Wanderley Dantas, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC, os objetos de estudo para o levantamento foram os dados epidemiológicos, casos e óbitos pela doença, obtidos pela base do Sistema Único de Saúde, além de análises do Índice de Vulnerabilidade Social junto à faixa etária dos bairros.

O estudo aponta como principais pontos de transmissão aeroportos e terminais de ônibus, “lugares de chegada e partida, basicamente”. “A gente chama de primeira onda o contágio pelo uso dos aeroportos. Foi o período em que se deu os primeiros casos em zonas como o Meireles e a Aldeota, bairros de pessoas que possivelmente voltaram de viagem contaminadas e, também, locais onde ficam pontos turísticos da cidade”, explica o professor Eustógio.

Já a segunda onda de contágio aconteceu nos terminais de ônibus, com o início da transmissão comunitária, conforme o professor. “Essas pessoas passam a levar o vírus para os seus respectivos bairros. A partir daí, podemos observar que o vírus pandêmico não atinge de forma homogênea as demais áreas da cidade, como temos visto um maior índice de óbitos na Barra do Ceará”, pontua.

Mortes por Covid-19 em Fortaleza

Muitas dessas áreas menos favorecidas somam os fatores de faixa etária elevada, com uma população mais idosa, aos problemas socioeconômicos. “Nós vemos um lado da cidade com plena estrutura, mais moderna e com mais garantias. Já o outro necessita de itens básicos, falta saneamento, acesso às informações, entre outras coisas”, diz.  

"Nessas áreas surge o impacto da vulnerabilidade socioambiental por parte dos bairros. As pessoas moram com famílias grandes em casas pequenas, o que dificulta o isolamento. São áreas em que ainda há o convívio com outras doenças, como a dengue", ressalta o coordenador do estudo.

Apesar de não estar presente no estudo, o pesquisador menciona uma terceira onda, que se daria nos limites do município, da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), à caminho de cidades como Sobral. “São lugares de alto fluxo e comunicação com a grande metrópole Fortaleza”.

No Ceará já são contabilizados 37 mil casos e 2,6 mil mortes por Covid-19, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa).

Ações

Apesar do momento de pandemia, o coordenador lembra que outras epidemias, como a da varíola, já fizeram centenas de vítimas em Fortaleza no passado.

Para o coordenador do estudo, o levantamento ainda sugere mais ações de prevenção do poder público. “Tem que haver uma discussão das novas políticas de controle sanitário dos aeroportos para aprimorar a cautela com as pessoas que transitam por lá. O aeroporto é lugar de trabalho e passagem de várias pessoas, então há muito contato direto e indireto para recebe-las”, considera.

O trabalho foi pensado em parceria com outros estados das regiões Norte e Nordeste. Em Fortaleza, participam do projeto os laboratórios de Planejamento Urbano e Regional (LAPUR), Geoprocessamento e Cartografia Social (LABOCART) e Climatologia Geográfica e Recursos Hídricos (LCGRH), além da empresa júnior GeoMaps Consultoria, do Programa de Pós-Graduação em Geografia, com apoio do Observatório das Metrópoles do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT).

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